“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

X-men

O mundo over de Apocalipse (sobre X-Men)

Agora que o frenzi de X-Men Apocalipse (XMA) já passou e minha raiva e entusiasmo já arrefeceram, finalmente conseguiu terminar de escrever algo sobre o filme. Na verdade escrevi duas versões anteriores deste texto e as descartei. Como acho que a fita não tem norte que não seja o próprio espetáculo, decidi escrever na forma de tópicos. Quem sabe assim consigo organizar as três impressões principais que tive: trata-se de obra over, que diminuiu a importância do humano e estragou boa parte do que a serie tinha de melhor. Apresenta, porém, uma das melhores cenas de filmes de super-heróis até hoje.

  • O pior é o vilão: sempre achei Apocalipse como vilão um erro absoluto. Este personagem desinteressante surgiu em 1986 como inimigo do X-factor, um dos milhares de grupos de mutantes que a Marvel inventou nos anos 1980. Apocalipse era um eugenista anacrônico e imortal interessado em se tornar o fundador de um mundo do mais forte. A personalidade histriônica, o excesso e os poderes dele só podiam gerar um filme over. No momento em que os roteiristas de XMA o escolheram como vilão, já estávamos avisados que o filme seria marcado pelo exagero, que seria fake e brega. O vilão nunca teve uma personalidade interessante e era impactante mais pela sua ética racial genocida, uma novidade que encantava adolescentes nos anos 1980 e nos 1990. Apocalipse foi um entre os vários vilões que surgiram quando os roteiristas assumiram a eugenia racial como o inimigo principal dos mutantes e o genocídio como o perigo iminente – estes são, desde os anos 1980, os temas principais das estórias dos x-men. Foi nos anos 1980 que apareceram as primeiras histórias radicais mostrando genocídios de mutantes, entre elas a saga Massacre dos Mutantes de 1986. Também é daquele momento a primeira aparição do Senhor Sinistro, que aparentemente será o inimigo dos mutantes no próximo filme.

charles

  • O filme é over: com aquele vilão não seria possível uma trama comedida. Ou assim se decidiu. Todo o potencial exagero dos filmes dos x-men (exceto em X-Men 3) sempre esteve sobre controle. Mas agora Brian Singer chutou o pau da barraca em prol de uma trama e uma estética espetaculosa. Provavelmente pressionado pela indústria de entretenimento americana XMA tinha como concorrentes os espetáculos de destruições urbanas que se tornaram a marca do gênero dos filmes de super-heróis nos últimos cinco anos. Hoje, todo filme deve ter uma ou mais cenas catástrofes que fazem dos exemplares deste novo gênero novas variações dos filmes catástrofes dos anos 1970 e 1980. A semelhança com fitas recentes como O Dia Depois de Amanhã ou 2012 não é aleatória. E depois de Homem de Aço, Capitão América 2 e Avengers 2 parece não ser possível lidar com personagens usando poderes que não sejam capazes de encher a tela com uma cidade sendo destruída. XMA, Batman vs. Superman e Guerra Civil são “vítimas” do mesmo mal: a necessidade do espetáculo que faz desses filmes versões mais acabadas dos filmes de Godzilla. O vilão Apocalipse foi, neste sentido, perfeito: exagerado, ele exagera os poderes dos outros mutantes e impõe uma trama e catástrofe planetárias. As cenas do Magneto acabando com o planeta, por exemplo, é de uma infantilidade e exagero absurdas, superado a criação da pirâmide monumental de Apocalipse com pedaços da cidade do Cairo no mesmo filme ou a cena da cidade sendo suspensa em Avengers 2. Mas não nos enganemos, tudo é fruto de escolha. Singer escolheu o que permitia criar uma situação na qual os x-men finalmente se consolidassem num formato próximo daquele pelo qual foram consagrados na segunda metade dos anos 1970 (Ciclope, Jean Grey, Noturno, Tempestade, faltando acrescentar apenas Wolverine e Colossus). A cena final do filme é o que a serie promete agora: parece que saída de uma página de quadrinhos, com os close-ups dos personagens exibindo seus poderes como se fosse drag queens na passarela de Ru Paul’s Drag Race, mas sem o glamour. Pela primeira vez o filme parece com o quadrinho que o gerou. Escolha duvidosa que acentua a estética brega dos quadrinhos.
  • A melhor cena: não, a melhor cena não é a divertida e legal com Mercúrio, aliás, cena já vista e que repete um dos sucessos de Dias de Futuro Esquecido. Para não dizer que não falei de coisas boas, justamente ao apelar para o excesso, a batalha final entre Apocalipse e os mutantes nos dá um dos melhores momentos. Até agora não havíamos visto de fato uma combinação de personagens em batalha como grupo. Mesmo em Avengers trata-se de cada personagem fazendo sua parte. Em XMA eles se combinam como grupo contra um único oponente e vemos poderes em ação, estratégias e efeitos especiais interessantes. Tudo num formato over, mas ficou divertido ver o chato do Apocalipse ser atacado por todos e reduzido à poeira pelo efeito fênix. De fato, ali nasceram os x-men como milícia antiterrorismo, que é o que eles têm sido no decorrer de sua história nos quadrinhos: uma instituição privada para conter terrorismo mutante e antimutante. Essa é a melhor parte do filme e contrapõe-se frontalmente com a pior delas: aquele interlúdio na base de Stryker, montada apenas para apresentar Wolverine. Se por um lado a coisa terá lógica com a futura integração de Logan na equipe, por outra, é a parte mais fraca e desnecessária da fita. Basta raciocinar um pouco: se Xavier iria mandar a mensagem para Jean e eles iriam terminar no Cairo, bastava estarem na mansão logo em seguida à explosão. O avião não faria falta afinal havia Moira para resolver tudo.

  • Roteiro absurdo: como sou antipático, lembro que roteiros pouco estruturados transformam o impossível dos mundos imaginários dos quadrinhos em falha grosseira: a) como assim as ogivas que foram lançadas no espaço e ninguém consegue estruturar uma resistência? O exército acha em minutos a Mansão do Xavier, mas não consegue saber onde está Apocalipse? b) como assim Stryker chega em minutos na Mansão, mas a base delas fica perto do Canadá? c) como assim o Magneto faz tudo aquilo e os campos magnéticos não afetam as ogivas suspensas no espaço?; d) como assim o mundo fica de ponta a cabeça e a civilização não se acaba, afinal toda a infraestrutura metálica do mundo foi atingida? e) como assim havia locais (todos feitos com metais) que não foram afetados, entre os quais o mais gritante é o avião militar no qual os x-men chegam até o Cairo? f) como assim o Apocalipse é soterrado 3 milênios antes da era Comum e todos sabem que ele sempre teve 4 cavaleiros – do Apocalipse, diga-se, mito da era Comum? h) como assim aquele policial que matou a mãe e filha do Xavier conseguiu tensionar o arco e flecha o tempo todo da cena?
  • Pequenas ironias: entre as melhores coisas da película estão os momentos irônicos. A cena de Ciclope e os outros saindo do cinema após verem O Retorno de Jedi e Jean Grey afirmando que o terceiro filme é sempre o pior de todos é uma auto-ironia com a séria impagável, tão boa que não sabemos se se está falando de X-Men 3 ou de XMA. A ironia involuntária de Apocalipse tocando na TV para “aprender” é boa não apenas pela bela visada histórica de mostrar a televisão como a grande mídia do início dos anos 1980, mas também como uma espécie de grande arquivo das relações humanas construída na forma de informações audiovisuais onde a ironia está, justamente, no que pode significar “aprender” com a TV naquelas alturas.
  • Simpatia e personagens originais: uma coisa positiva parece-me que foi o tratamento mais criativo dado a alguns personagens. A adolescência de Jean Grey, Ciclope e Noturno os tornou muito simpáticos. Superamos o Ciclope insosso de James Mardsen nos outros filmes em prol de um Tye Sheridan enérgico que conseguiu mostrar a angustia de um rapaz comum com o peso de um poder incontrolável, inclusive de lembrarmos a dificuldade de ter de atuar e não poder contar com a própria expressão visual. Um Noturno jovem também foi uma boa aquisição, uma vez que Kodi Smit-McPhee foi bem humorado e criativo. A diferença foi pouca com Jean Grey, mas a atriz Sophie Turner conseguiu administrar bem uma menina superpoderosa e insegura; bem melhor do que a Jean de Famke Jansen. Finalmente, se ainda esperamos uma atriz à altura da Tempestade, Halle Berry não fez falta alguma frente à Alexandra Schipp no papel.
DF-02179 Michael Fassbender as Erik Lensherr / Magneto in X-MEN: APOCALYPSE.

DF-02179 Michael Fassbender as Erik Lensherr / Magneto in X-MEN: APOCALYPSE.

  • Colapso da história: entre as coisas que gosto e estragaram está a visada histórica dos filmes anteriores. Todos escolheram outros tempos (1960, 1970 e 1980) para ambientar as tramas e ressaltaram os contextos geopolíticos, deixando-o como trama paralela à questão da diferença humano/mutante, a qual não é outra senão a linha racial que divide a sociedade norte-americana. Este XMA usa ainda a retomada da Guerra Fria na era Reagan e faz um vínculo com o medo da aniquilação que marcou o imperialismo norte-americano e soviético naqueles tempos. Uma grande pena que este elemento tenha sido descartado pela trama quando Apocalipse assume o controle de todas as ogivas. A partir dali o filme torna-se apenas sobre mutantes e perde sua mirada histórica, desperdiçando as chances de mostrar as implicações políticas de tudo que aconteceu.

Fica-me na memória um XMA histérico e pequeno, com apenas uma cena memorável. Sempre elogiei o fato de que os filmes sobre os mutantes ressaltam sempre um importante lado humano, tornando crível a existência de uma diferença humana que recria as tensões das diferenças no “mundo real”. Neste filme, o único personagem realmente humanizado na trama era o Magneto, ao qual Michael Fassbender consegue conferir uma credibilidade tocante. Este elemento tornou-se um fiapo no geral em XMA. Já esperava algo ruim por mil motivos, mas acho que ainda saímos no lucro. Oremos para que o próximo não exploda na tela!