“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Terence Malick

A Árvore da Vida

Faz tempo que não escrevo aqui, mas decidi parar os afazeres para pensar sobre outras coisas, ou melhor, meu lugar-comum o cinema. Já foi-me dito que a verdadeira forma de pensar sobre si é (re)interpretar a si mesmo por meio das obras da cultura e não apenas interpretar essas obras. Duas semanas atrás tive a oportunidade de ver A Árvore da Vida (The Tree of Life, EUA, 2010), do sempre maravilhoso Terence Malick. Acho que é a primeira vez que escrevo sobre ele, ou melhor, seus filmes, exceto por uma lista secreta dos películas vistas no decorrer da vida que ainda guardo no computador.

As fitas de Malick são lindas, seus personagens estão sempre numa tênue incongruência emocional com o mundo ao seu redor, algo que os faz perceberem que cada pessoa não somente está no mundo, mas no fundo, tenta construir uma relação entre ser contemporâneo das coisas e perceber certa inadequação emocional dessa relação. Donde vem que qualquer situação torna-se uma oportunidade de se ver em espanto, sendo que a dor é sempre o maior ativador de espanto. Dor e sofrimento são as raízes do espanto de seus peculiares personagens, pessoas que não só sentem, mas indagam, na interioridade, a maneira de lidar com tudo isto e o que é tudo isto. As pessoas desses filmes não são (talvez) como a maioria, mas a edição de certas posturas vitais. Contudo, encarnam o que aflige a todos. Não seria esta uma proposta para a arte: mostrar o universo na peculiaridade de cada vida?

A Árvore da Vida ainda é assim. Ou melhor, ela é isso, mais do que todos os outros por ser (também) sobre a Vida e não apenas sobre nossa vida, embora surja, como toda imagem, para dar conta do que nos aflige e não sobre o que aflige o mundo – uma refração na qual nossas histórias são a vida do cosmo, como a história deste é a nossa.

Para esta película, quanta dor enfrentamos? Quantas certezas temos? As certezas de nossas dores, a morte e a perda as mais profundas delas. Uma família se despedaça ao perder um de três filhos. O mais velho dos meninos perde o melhor amigo, uma parte de si. A mãe perde o que dá sentido à vida, um pedaço fundamental da família, pois essa mãe (todas?) sabe que qualquer parte é fundamental. O pai perde aquilo pelo que lutou, a certeza de que não ensinou ao filho o suficiente para que pudesse viver. Ambos, pai e mãe perdem sua esperança de eternidade, afinal, não é certo que os pais enterrem seus filhos. Não são nas memórias, mas nos filhos, que vencemos o tempo.

A família católica e assustada com a morte ouve o terrível sermão sobre as pragas que o Senhor enviou a Jó, a mais cruel das estórias da Bíblia, na qual o homem perfeito e repleto de graça é esmagado pela força cósmica do universo. Deve ser Jó culpado de alguma falta silenciosa, dizem seus contemporâneos, algo tão secreto quanto único que só ele e Deus sabem. Da mesma forma mãe, pai e filho começam a se indagar sobre o que fizeram, moralizando a morte pela culpa. As memórias voltam e vemos uma família normal em sua imperfeição flagrante: a adorável mãe Mrs O’Brien (vivida pela magnífica Jessica Chastain), porém, sem autoridade para além de sua própria doçura; o autoritário e terrível pai Mr. O’Brien (um Brad Pitt excelente), tentando cumprir o papel de fazer dos filhos homens fortes capazes de resistir a qualquer coisa, com medo que fracassem tal como ele próprio; o revoltado Jack (vivido por Sean Penn, adulto, e, pelo ótimo Hunter McCracken) revira seu próprio passado, tentando compreender o ódio que tinha do pai pelas humilhações constantes, seu desejo de vê-lo morto, ao mesmo tempo em revê a intimidade com o irmão que não vemos morrer. Memória e vida se confundem, ou melhor, a vida surge como memória que o filme deixa evidente que segue.

A fita é maior do que as personagens, condizente com estes em suas indagações sobre a perda, as de agora, e aquelas de tanto tempo atrás. Por meio do sofrimento deles, com eles, indaga a vida, indaga o mundo e a Deus. Deste último ouvem que “Ele envia moscas às feridas que deveria curar”, triste verdade que os crentes tentam conciliar o tempo todo com o que acreditam ser a graça. Deste ponto a fita, maior, não alheia, nos apresenta o mundo nascendo, as vidas se transformando, tombando e morrendo.

A linda sequência do nascimento do mundo não mostra nada de Deus, apenas o universo em seu movimento pulsante, não uma linha evolutiva, mas mudanças, com cenas inesperadas como um dinossauro aparentemente encontrando outro deitado e incapaz de se levantar, à beira de um rio. Já vimos aquela cena em outros filmes: a vítima será devorado. Mas não é… assim como a saída dos seres vivos do mar mostra um animal ferido e não um conquistador da terra. Não há conquista na evolução, apenas mudança marcada pela mesma dor e sofrimento, não há conquista na vida humana, a qual só reflete a marcha do mundo por certo delírio antropocêntrico nosso. Há a certeza de que o mundo estava aqui antes de nós, e que estará depois de nós, como a família que perde o filho continua viva após sua morte. E mesmo o mundo, será consumido no fogo das estrelas…

A família, o eterno negativo para o qual sempre volta aquele que a teve como algo importante, o anulador perverso de nossa diferença em laço, feito de amor que machuca e vitimiza, mas também confere um sentido. A Árvore da Vida é menos sobre a família e mais sobre a o golpe de saber que imperfeitos que sejam os nossos laços, estes se estendem para além de nós porque assim o fazemos na tentativa de compreender sua perenidade ou sua brusca interrupção pela dor e pelo sofrimento. O filho e o irmão perdido trazem tudo isso à tona.

Lembrei de meu pai a nos criar, menos por parecer com Mr. O’Brien, e mais por ser o pai que achava que deveria ser; de minha relação com meu irmão, das nossas tentativas de nos encontramos e diferenciarmos; de minha mãe, tentando viver todos nós por lhe darmos amor e sentido; de minha irmã, tateando seu caminho na vida. Um pequeno desespero por uma perda que não pode sequer ser imaginada… lembrei de todos nós, com a tentativa de observar nossas histórias frente tantas coisas. A culpa é grande vítima deste grande filme.

O aprendizado do amor parece ser o único capaz de nos tirar dessa posição egoísta, de transcender menos pela perenidade, e também por ela, a vivência no mundo. Dar-se ao outro é difícil pois na sua sinceridade vem acompanhado de prazeres e dores.

Nas praias às margens da eternidade, mostra-nos A Árvore da Vida, a Vida (do Mundo) e a vida (a Nossa) é marcada pelo encontro conosco, com nossos próximos (os que amamos) e com os outros (todos os conhecidos e os milhares nunca vistos e nunca a serem vistos), na condição de iguais quando postos frente ao espelho do mundo. O amor não soluciona, mas confere poder. Para esta obra de Malick, amor é laço.

Não há conquista na vida humana? Criamos o amor e os laços. Com o que nos enlaçamos é um mistério! Como A Árvore da Vida! Como a arte! Talvez este filme seja sobre a arte também.


The Wonderful New World

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Admirável mundo novo. “O Novo Mundo” (The New World) o último de filme de Terrence Malick me emocionou muito por tudo. E pensei (e senti) várias coisas.

Quando eles, os europeus, sairam de suas terras sulcando o pélago profundo, buscavam terras sabidas, mas só encontraram estranhamento inesperado. Usaram suas velhas chaves para compreender quem viam e ouviam, mas ledo engano, compreenderam tão pouco que nada aprenderam. Sairam com a idéia de paraíso, viram nas novas terras e em seus gentis o povo do éden, mas se fizeram serpentes.

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Isso quando não enxergaram a si mesmos como povo em busca de Canãa, novos eleitos que acharam uma terra onde jorraria o leite e o mel, mas soberbos como os hebreus e gananciosos como os filisteus, destruiram seu próprio sonho divinizador. A experiência destruiu a fantasia, mas esta foi transmitida pelo séculos além e Malick perguntou por ela, questionou seu tempo. Sempre achei isso admirável nos grandes e bons cineastas norte-americanos: sua aderência ao próprio tempo, às questões de sua época e comunidade para compreendê-las sem cair no panfletário. “O Novo Mundo” nasceu para a América atual, querendo entender onde o sonho se perdeu. A resposta crueldo filme é que ele, o sonho e a própria América se perderam antes de terem começado…

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O mais admirável no filme, porém, não é isso.

O cinema é inesgotável, em tese. Sempre é possível fazer uma imagem, um plano que nunca foi feito, mostrar uma imagem jamais vista, criar um tempo jamais sentido, mostrar e contar o movimento do mundo de outra forma. Mesmo na banalidade das imagens onipresentes de hoje, o filme Malick trouxe imagens novas, de grande beleza que me fizeram sentir com alegria que ainda é possível ver o não visto, e ter por aquelas imagens um grande bem querer. Imagens emocionais, emocionantes e belas.

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Não é isso, o cinema? Essa aventura do olhar em ver mais e melhor, em tatear a tela fantasmagórica no meio da escuridão, seja sozinho ou acompanhado? O filme dá ao olho uma viagem da visão por mundos do passado, do presente e do futuro, mundos que são e não são ou jamais serão. Como disse o francês, o cinema, como a pintura faz parte do “olho interminável”. Malick me trouxe a certeza desse sem-fim de novo. Valeu a pena dar o meu tempo a este filme.