“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Quentin Tarantino

Narrando um odioso lar…

Há duas décadas, quando Tarantino começou a fazer filmes, seu cinema fora apelidado de ‘pós-moderno’, pois frequentemente seus filmes eram sobre outros filmes. Devo admitir que é um dos meus maiores prazeres com ele: vê-lo revisitar situações, personagens, imagens, tendências de um velho cinema para os novos tempos e conseguir, fugindo de coisas como o 3D, criar angústia, prazer e inteligência. A novidade é Tarantino citando a si próprio, principalmente Cães de Aluguel e Bastardos Inglórios.  Mas em Oito Odiados o metacinema  de Tarantino mergulhou (de novo) em algo estranho e familiar: a história.

Oito Odiados ‘começou’ em 2009, quando na “operação kino”, em Bastardos Inglórios, Tarantino usou uma série de gêneros cinematográficos para revisitar a guerra de 1945 e realizar um sonho/delírio histórico impossível: o assassinato de Hitler e a vingança judia. O grupo dos bastados usava uma premissa de western invertida – soldados brancos e imigrantes usavam táticas de terror dos indígenas, personagens massacrados pelos cowboys, para aterrorizar nazistas. Os bastardos eram como cowboys que lutariam em segredo, enquanto Susana e seu amante tentariam queimar o alto escalão militar alemão num cinema. Nas últimas cenas, Hitler é morto por um bando de maníacos americanos, dentro de uma sala de cinema em chamas – no mundo imaginário do cinema, a História (com H maiúsculo) poderia ser refeita e a vingança realizada.  Capciosa na moral e na ética, esta fita inaugurou uma busca no coração do passado, revivido como fantasia sanguinária. Quer dizer: para se divertir e ao espectador, fenômenos históricos (a guerra e o holocausto) eram revistos em ética ambígua e espetáculo.

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Django, de certa forma, devolveu Tarantino à fonte de inspiração do western ensaiado em Bastardos…: o coração da América está nesse gênero e para Tarantino, antenado com uma agenda progressista americana, precisa-se desafiar o legado da escravidão. O protagonista era um vingador negro do passado escravo, que salva sua amada Broomilde (negra de nome nórdico) das garras de um fazendeiro megalômano. A fita invertia os mitos puristas, ao fazer-nos ver, pelos olhos do espetacular personagem Shultz (Christopz Waltz) como Django (Jamie Foxx) poderia ser um Ziegfried núbio moderno. Desnecessário dizer como isso diz muito sobre como Tarantino brinca com as raças americanas e vinga o abuso histórico como catarse fílmica devolvendo ao negro seu protagonismo. Tarantino confere aos meninos negros da atualidade a possibilidade de se imaginarem cowboys, um dos modelos primitivos do herói americano. O traço ambíguo, porém, é que Django é vingativo e sanguinário, a violência é constitutiva da estória matriz da América contemporânea (a conquista do Oeste) e o faroeste é o espetáculo da honra e da humilhação comuns.

Oito Odiados renova o arsenal do western, e, desta vez, usa outra fita do próprio Tarantino como mediação: Cães de Aluguel. Retornamos a um espaço fechado (um Armazém no novo filme) no qual algo dará necessariamente errado, mas não sabemos o que. Em 1993 Tarantino era um desconhecido e o resultado fora imprevisível e intenso. Hoje, moeda corrente, seu estilo, que agora cita a si mesmo (um “metarantino”?), sai perdendo, pois sabemos o que dará errado, só não sabemos como. Perto do ‘original’, a nova fita soa gratuita, repetitiva, exagerada. Irregular e longa, arrastada em muitos momentos (podíamos cortar uns 30 minutos ou evitar o “pecado” de um personagem novo no momento errado), a nova película, porém, faz o que Cães de Aluguel jamais ousara. Embora este seja um filme melhor acabado, não remete a nada que não a sua bela forma e Oito Odiados vai bem além.

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Primeiro, porque não estamos nos desertos do Monument Valley, quando em meio a montanhas e índios perseguidores os brancos empreendiam a conquista da natureza e da América – lembrando que Wyoming (onde se desenrola a trama) esteja há “apenas” uns mil Km de onde John Ford gravou algumas das mais belas imagens do cinema norte-americano. Retornamos ao velho oeste num planalto gelado, ainda no tempo das diligências, longe dos principais cenários de batalhas de uma Guerra Civil fraticida – já passada – que deixara marcas em todos os personagens. É o oeste selvagem depois que cineastas como Sergio Leone e Sam Peckinpan, mas também Clint Eastwood e Jim Jarmusch já visitaram.  Há qualquer coisa nele de um filme pouco falado de Robert Altman, McCable & Mrs. Millie (1971).  Num mundo gelado, Tarantino escolheu colocar no lugar do Prostíbulo, que fora tão importante naquela fita de Altman, o Armazém da Minnie como lugar a ser transformado num inferno de personagens detestáveis. Presos na nevasca – este tema fundamental de tantas novelas e filmes de países invernais – veremos a matança.

O que faz do western o “o cinema americano por excelência” é o mito de fundação da América. Tarantino explicita isso na referência repetida à falsa carta de Abraham Lincoln. A livre empresa que deu origem e fez da América a terra da oportunidade, resultou de uma sangrenta história que negou liberdade ao negro, exterminou o indígena, segregou o imigrante hispânico e convenceu o branco de que estava certo enquanto estabelecia uma ordem gananciosa, racista e misógina. A comovente relação de John Ruth (um maravilhoso Kurt Russell) com a carta do Presidente em posse de Major Warren (um Samuel L. Jackson tão bom quanto) reflete como o mercenário de ética duvidosa encontrava no mito de Lincoln um elo à beira do colapso gerado pela guerra de Secessão. Todos os personagens estão interessados em algo pessoal, mas Tarantino assegura, pela população do Armazém da Minnie, que de fato, apesar de tudo, aquela é a terra da oportunidade da força. O mito do velho oeste fora uma empresa violenta que o cinema revive melhor do que qualquer mídia como espetáculo sanguinário.

É a História vingada e a história como vingança que vemos na fita. Para mim, esses elementos interessantes servem para encher os verdadeiros centros de prazer da fita: as pancadas, os tiros, as humilhações, o sangue, os membros amputados, as mortes cenográficas. Ninguém morre daquele jeito, mas Tarantino sente prazer em fazer-nos ter prazer com o espetáculo do sangrar e agredir – e flertar com este prazer aproxima-nos dos personagens racistas, misóginos, xenófobos. Sua estética da violência justificada pela ética da vingança torna-nos cúmplices de dores e angústias afligidas. As mortes de Ruth e O.B. são cenas de horror e comoção, na medida em que personagens “queridos” e “detestáveis” são agredidos por um golpe covarde. Há um horror que vem nos dejetos, no sangue vomitado, na cabeça espatifada. Prazer e horror, material fundamental da História como vingança em Tarantino e não apenas dos filmes de western ou terror.

O sangue é o signo do sofrimento e da vingança – e da América, país cujo passado é mostrado como fantasia (de novo) resultante de uma sociedade militarizada, misógina, racista e de honra ambígua. Todo o movimento para recuperar Dayse Domerge das garras da forca, bem como o compromisso com seu enforcamento por Warren e Mannix, em homenagem a Ruth, revela um tipo de honra que se faz na ética da vingança, este delicioso ingrediente do espetáculo.

São prazeres afinal: com a trilha sonora maravilhosa de Ennio Morricone; ou pelo uso de planos e de um formato de panavision ressuscitado 70mm – o que me deixou frustrado, pois a sala de cinema digital em que vi é incapaz de entregar a verdadeira potência daquela tela-panorama, mas ainda assim o quadro fílmico nunca fora tão grande. Prazer ao saber fugir do lugar comum de só ter primeiros planos (essa doença do filme americano atual), por saber ainda manter uma câmera em movimento e economizar nos cortes e fazê-los funcionar melhor para aquele momento em que a cabeça pode ser melhor vista explodindo. Prazer, enfim, não apenas no que mostra, mas no como mostra no árido cenário fílmico que chega a minha cidade de Natal. Ainda que Oito Odiados seja um filme irregular em vários aspectos, é muito bom de ver que ainda se sabe encenar em cinema.

No final, a câmera está no alto, tomando parte do corpo de Domarge suspenso pela corda. Ela desce lentamente para focar melhor Warren e Mannix, na cama de Minnie, enquanto aquele lê a carta falsa de Lincoln, que naquele momento torna-se estranhamente verdadeira. Finalmente ouvimos o conteúdo e percebemos que ela é um sonho para se convencer de que o prazer com dinheiro, sangue, armas e violência era legítimo. Ao visitar a história da América, Tarantino demonstra que esta é a livre empresa da bala certeira, um amado e odioso lar.