“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Quadrinhos

O mundo over de Apocalipse (sobre X-Men)

Agora que o frenzi de X-Men Apocalipse (XMA) já passou e minha raiva e entusiasmo já arrefeceram, finalmente conseguiu terminar de escrever algo sobre o filme. Na verdade escrevi duas versões anteriores deste texto e as descartei. Como acho que a fita não tem norte que não seja o próprio espetáculo, decidi escrever na forma de tópicos. Quem sabe assim consigo organizar as três impressões principais que tive: trata-se de obra over, que diminuiu a importância do humano e estragou boa parte do que a serie tinha de melhor. Apresenta, porém, uma das melhores cenas de filmes de super-heróis até hoje.

  • O pior é o vilão: sempre achei Apocalipse como vilão um erro absoluto. Este personagem desinteressante surgiu em 1986 como inimigo do X-factor, um dos milhares de grupos de mutantes que a Marvel inventou nos anos 1980. Apocalipse era um eugenista anacrônico e imortal interessado em se tornar o fundador de um mundo do mais forte. A personalidade histriônica, o excesso e os poderes dele só podiam gerar um filme over. No momento em que os roteiristas de XMA o escolheram como vilão, já estávamos avisados que o filme seria marcado pelo exagero, que seria fake e brega. O vilão nunca teve uma personalidade interessante e era impactante mais pela sua ética racial genocida, uma novidade que encantava adolescentes nos anos 1980 e nos 1990. Apocalipse foi um entre os vários vilões que surgiram quando os roteiristas assumiram a eugenia racial como o inimigo principal dos mutantes e o genocídio como o perigo iminente – estes são, desde os anos 1980, os temas principais das estórias dos x-men. Foi nos anos 1980 que apareceram as primeiras histórias radicais mostrando genocídios de mutantes, entre elas a saga Massacre dos Mutantes de 1986. Também é daquele momento a primeira aparição do Senhor Sinistro, que aparentemente será o inimigo dos mutantes no próximo filme.

charles

  • O filme é over: com aquele vilão não seria possível uma trama comedida. Ou assim se decidiu. Todo o potencial exagero dos filmes dos x-men (exceto em X-Men 3) sempre esteve sobre controle. Mas agora Brian Singer chutou o pau da barraca em prol de uma trama e uma estética espetaculosa. Provavelmente pressionado pela indústria de entretenimento americana XMA tinha como concorrentes os espetáculos de destruições urbanas que se tornaram a marca do gênero dos filmes de super-heróis nos últimos cinco anos. Hoje, todo filme deve ter uma ou mais cenas catástrofes que fazem dos exemplares deste novo gênero novas variações dos filmes catástrofes dos anos 1970 e 1980. A semelhança com fitas recentes como O Dia Depois de Amanhã ou 2012 não é aleatória. E depois de Homem de Aço, Capitão América 2 e Avengers 2 parece não ser possível lidar com personagens usando poderes que não sejam capazes de encher a tela com uma cidade sendo destruída. XMA, Batman vs. Superman e Guerra Civil são “vítimas” do mesmo mal: a necessidade do espetáculo que faz desses filmes versões mais acabadas dos filmes de Godzilla. O vilão Apocalipse foi, neste sentido, perfeito: exagerado, ele exagera os poderes dos outros mutantes e impõe uma trama e catástrofe planetárias. As cenas do Magneto acabando com o planeta, por exemplo, é de uma infantilidade e exagero absurdas, superado a criação da pirâmide monumental de Apocalipse com pedaços da cidade do Cairo no mesmo filme ou a cena da cidade sendo suspensa em Avengers 2. Mas não nos enganemos, tudo é fruto de escolha. Singer escolheu o que permitia criar uma situação na qual os x-men finalmente se consolidassem num formato próximo daquele pelo qual foram consagrados na segunda metade dos anos 1970 (Ciclope, Jean Grey, Noturno, Tempestade, faltando acrescentar apenas Wolverine e Colossus). A cena final do filme é o que a serie promete agora: parece que saída de uma página de quadrinhos, com os close-ups dos personagens exibindo seus poderes como se fosse drag queens na passarela de Ru Paul’s Drag Race, mas sem o glamour. Pela primeira vez o filme parece com o quadrinho que o gerou. Escolha duvidosa que acentua a estética brega dos quadrinhos.
  • A melhor cena: não, a melhor cena não é a divertida e legal com Mercúrio, aliás, cena já vista e que repete um dos sucessos de Dias de Futuro Esquecido. Para não dizer que não falei de coisas boas, justamente ao apelar para o excesso, a batalha final entre Apocalipse e os mutantes nos dá um dos melhores momentos. Até agora não havíamos visto de fato uma combinação de personagens em batalha como grupo. Mesmo em Avengers trata-se de cada personagem fazendo sua parte. Em XMA eles se combinam como grupo contra um único oponente e vemos poderes em ação, estratégias e efeitos especiais interessantes. Tudo num formato over, mas ficou divertido ver o chato do Apocalipse ser atacado por todos e reduzido à poeira pelo efeito fênix. De fato, ali nasceram os x-men como milícia antiterrorismo, que é o que eles têm sido no decorrer de sua história nos quadrinhos: uma instituição privada para conter terrorismo mutante e antimutante. Essa é a melhor parte do filme e contrapõe-se frontalmente com a pior delas: aquele interlúdio na base de Stryker, montada apenas para apresentar Wolverine. Se por um lado a coisa terá lógica com a futura integração de Logan na equipe, por outra, é a parte mais fraca e desnecessária da fita. Basta raciocinar um pouco: se Xavier iria mandar a mensagem para Jean e eles iriam terminar no Cairo, bastava estarem na mansão logo em seguida à explosão. O avião não faria falta afinal havia Moira para resolver tudo.

  • Roteiro absurdo: como sou antipático, lembro que roteiros pouco estruturados transformam o impossível dos mundos imaginários dos quadrinhos em falha grosseira: a) como assim as ogivas que foram lançadas no espaço e ninguém consegue estruturar uma resistência? O exército acha em minutos a Mansão do Xavier, mas não consegue saber onde está Apocalipse? b) como assim Stryker chega em minutos na Mansão, mas a base delas fica perto do Canadá? c) como assim o Magneto faz tudo aquilo e os campos magnéticos não afetam as ogivas suspensas no espaço?; d) como assim o mundo fica de ponta a cabeça e a civilização não se acaba, afinal toda a infraestrutura metálica do mundo foi atingida? e) como assim havia locais (todos feitos com metais) que não foram afetados, entre os quais o mais gritante é o avião militar no qual os x-men chegam até o Cairo? f) como assim o Apocalipse é soterrado 3 milênios antes da era Comum e todos sabem que ele sempre teve 4 cavaleiros – do Apocalipse, diga-se, mito da era Comum? h) como assim aquele policial que matou a mãe e filha do Xavier conseguiu tensionar o arco e flecha o tempo todo da cena?
  • Pequenas ironias: entre as melhores coisas da película estão os momentos irônicos. A cena de Ciclope e os outros saindo do cinema após verem O Retorno de Jedi e Jean Grey afirmando que o terceiro filme é sempre o pior de todos é uma auto-ironia com a séria impagável, tão boa que não sabemos se se está falando de X-Men 3 ou de XMA. A ironia involuntária de Apocalipse tocando na TV para “aprender” é boa não apenas pela bela visada histórica de mostrar a televisão como a grande mídia do início dos anos 1980, mas também como uma espécie de grande arquivo das relações humanas construída na forma de informações audiovisuais onde a ironia está, justamente, no que pode significar “aprender” com a TV naquelas alturas.
  • Simpatia e personagens originais: uma coisa positiva parece-me que foi o tratamento mais criativo dado a alguns personagens. A adolescência de Jean Grey, Ciclope e Noturno os tornou muito simpáticos. Superamos o Ciclope insosso de James Mardsen nos outros filmes em prol de um Tye Sheridan enérgico que conseguiu mostrar a angustia de um rapaz comum com o peso de um poder incontrolável, inclusive de lembrarmos a dificuldade de ter de atuar e não poder contar com a própria expressão visual. Um Noturno jovem também foi uma boa aquisição, uma vez que Kodi Smit-McPhee foi bem humorado e criativo. A diferença foi pouca com Jean Grey, mas a atriz Sophie Turner conseguiu administrar bem uma menina superpoderosa e insegura; bem melhor do que a Jean de Famke Jansen. Finalmente, se ainda esperamos uma atriz à altura da Tempestade, Halle Berry não fez falta alguma frente à Alexandra Schipp no papel.
DF-02179 Michael Fassbender as Erik Lensherr / Magneto in X-MEN: APOCALYPSE.

DF-02179 Michael Fassbender as Erik Lensherr / Magneto in X-MEN: APOCALYPSE.

  • Colapso da história: entre as coisas que gosto e estragaram está a visada histórica dos filmes anteriores. Todos escolheram outros tempos (1960, 1970 e 1980) para ambientar as tramas e ressaltaram os contextos geopolíticos, deixando-o como trama paralela à questão da diferença humano/mutante, a qual não é outra senão a linha racial que divide a sociedade norte-americana. Este XMA usa ainda a retomada da Guerra Fria na era Reagan e faz um vínculo com o medo da aniquilação que marcou o imperialismo norte-americano e soviético naqueles tempos. Uma grande pena que este elemento tenha sido descartado pela trama quando Apocalipse assume o controle de todas as ogivas. A partir dali o filme torna-se apenas sobre mutantes e perde sua mirada histórica, desperdiçando as chances de mostrar as implicações políticas de tudo que aconteceu.

Fica-me na memória um XMA histérico e pequeno, com apenas uma cena memorável. Sempre elogiei o fato de que os filmes sobre os mutantes ressaltam sempre um importante lado humano, tornando crível a existência de uma diferença humana que recria as tensões das diferenças no “mundo real”. Neste filme, o único personagem realmente humanizado na trama era o Magneto, ao qual Michael Fassbender consegue conferir uma credibilidade tocante. Este elemento tornou-se um fiapo no geral em XMA. Já esperava algo ruim por mil motivos, mas acho que ainda saímos no lucro. Oremos para que o próximo não exploda na tela!


Do infantil e da épica: Batman vs Superman – Dawn of Justice

Não costumo escrever sobre filmes ruins, mas Batman vs Superman: Dawn of justice é uma fita do qual gostei e na qual vi coisas interessantes. Começo pela melhor cena, quando Doomsday derruba Diana no chão e ela se recupera: sorrindo, a personagem levanta e volta à batalha. É o momento mais lúdico da película, no qual se revela a personalidade amazona de alguém que se refestela na batalha. A aparição da Mulher-Maravilha é a melhor coisa num filme de duração excessiva que infantiliza Batman e Superman para que correspondam ao espectador multitelevisivo da geração UFC. Então vamos a obra. A nova película é obra esquizofrênica movendo-se entre ser uma luta do Batman contra o Superman e a formação da liga da justiça, como sugere o título. Escolhi escrever sobre ela apenas por este último lado (a aurora da Liga) e dividi este comentário em três momentos: de onde vieram as histórias; o que foi feito com os principais ícones dela (os protagonistas); o tom do filme.

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As sagas: sãos várias as histórias dos gibis de base nesse filme, todas elas reorganizadas pela apropriação já realizada nos desenhos animados produzidos nos últimos anos – destaco o Justice League: War. Entre elas tem papel forte a minissérie escrita por Frank Miller, Cavaleiro das Trevas, de 1985, na qual Batman e Superman são contrapostos num contexto da guerra Fria. Esta “batalha” dá origem à trama de Dawn of Justice, ainda que e a condução das personagens fosse nela bem melhor do que no filme. Registre-se que o motivo da briga entre os heróis na fita é ridículo e faz valer apenas a necessidade de fazê-los lutar ao estilo UFC.

Outra história importante é A Morte do Superman (de 1993), que fora escrita por Dan Jungers e na qual o Superman enfrenta Doomsday (na tradução brasileira “Apocalipse”). Doomsday era um monstro desconhecido que emergia do fundo da terra, destruindo tudo, derrotando a Liga da Justiça e lutando com Superman até a exaustão fatal de ambos. Com um vilão banal e chato, aquele era um gibi UFC vanguarda, um material adequado à sensibilidade de Snyder. Não surpreende que o diretor tenha escolhido pancadarias para apresentar o primeiro encontro dos heróis no cinema.

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Há evidentemente outras histórias no subconsciente de Dawn of Justice, que remontam àquelas escritas por John Byrne nos anos 1980 e atingem as que foram roteirizadas por Grant Morrison no final dos anos 1990. Entre todas elas, surgiu o desvio de rota produzido por Reino do Amanhã (1995), de Mark Waid, na qual a divergência e semelhança entre Superman, Batman e Mulher-Maravilha reorganizou a disposição dos personagens na Liga da Justiça.  De todas elas tomou-se na nova fita o conceito de uma Liga da Justiça que é uma espécie de colegiado de deuses humanos, ou seres humanos em vias de divinização.

Guarde-se, portanto, a grade de princípios retomadas de forma desigual em Dawn fo Justice: a) a ambígua relação entre Superman e Batman; b) o questionamento do papel do super-herói e sua relação com a sociedade de direito; c) a Liga da Justiça como um encontro de deuses-humanos.

As personagens: talvez seja interessante usar na escrita o fio condutor da homoerótica de Zack Snyder. Seu homoerotismo exibe-se na paixão pelos corpos de Henry Cavill e Ben Affleck. O Superman é uma deidade musculosa e atlética, que quando não aparece seminu, tem o corpo modelado no uniforme colante. A divinização da personagem é construída tanto pela câmera como pelo enredo, uma vez que a narração segue a atribuição pelo ponto de vista daqueles que “cultuam” e veem o personagem do alto (os homens comuns da fábula). O começo da fita mostrando episódios a batalhas de Superman contra Zod no filme anterior, Homem de Aço, mas do ponto de vista dos humanos (e do próprio Bruce Wayne) revela o tratamento dado ao personagem como monumento/gente. A câmera baixa enquanto prédios desabam de cima prende o espectador no chão, ponto de vista, em geral, dado ao Batman.

Para o Homem-Morcego o diretor perde vários minutos mostrando seu treinamento como um fuzileiro de luta-livre, sequência ridícula que deve servir à satisfação de algum instinto não confessado de Rock Balboa. Batman é o herói humano, ricaço fodão, corpo escultural e uma milícia de homem só conhecedor de artes de luta. Snyder escolheu transformá-lo num moleque briguento para quem os fins justificam os meios. O uniforme de Batman oferece menos oportunidades de modelagem homoerótica, mas o corpo do ator Affleck em treinamento como Bruce Wayne permite a mirada da virilidade. Bruce Wayne/Batman  é o personagem cuja potência e virilidade o espectador pode desejar para si, nos dois sentidos do termo: de tornar-se um Batman ou ter sexualmente o Batman – nesta lógica o Superman só poderia ser desejado e jamais alcançado… ou não!

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Esse amor pela estética do masculino transparece até no personagem visualmente mais difícil, a Mulher-Maravilha, que usa uma serie de vestidos sensuais e femininos no decorrer do filme e exibe a armadura-maiô kitsch no final enquanto empunha espadas e escudos. De fato trata-se de uma personagem na fronteira dos gêneros que incorpora o próprio do masculino no subgênero dos filmes de super-heróis (a batalha, as armas, a guerra, o socar e golpear), mas com a feminilidade corporal quase delicada demais para caracterizar uma grande guerreira. Se para Superman e Batman a força e potência físicas são literalizadas pelos corpos hipertrofiados de academia, para a Mulher-Maravilha da atriz Gal Gadot ignorou-se a estética da mulher UFC (que existe!) em prol de uma supermodel que se transveste de amazona quando põe o maiô e empunha uma ou duas armas fálicas. Não por acaso ela é primeiro apresentada como “mulher” para depois surgir como amazona “maravilha”.

Fora de rota, pela primeira vez, temos o jovem Lex Luthor de Jesse Eisenberg. Tal qual o Alfred de Jeromy Irons e a Diana Prince de Gal Gadot ele é um dos pontos altos do filme. Fiquei ressentindo pela sociopatia de Luthor no filme (que o aproxima muito do Coringa e tira muito de sua identidade como vilão), uma vez que nos gibis Lex é um personagem sofisticado e genioso, mais um ricaço mau caráter de alto QI do que um “doente” mental. Mas devo admitir que Eisenberg foi simpático, empático e sólido, correspondendo as expectativas da geração nerd leitora assídua dos quadrinhos estereotipados. Um ganho e uma perda.

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Evidentemente deve-se levar em conta que a estética dos quadrinhos de super-heróis trabalha contra a adaptação cinematográfica. Os gibis são a um só tempo kitschs e bregas, dificílimos de adaptar ao cinema sem cair no ridículo. Não por acaso as cores de uniformes e outros recursos visuais são esmaecidas ou ficam mais soturnos nos vários filmes já feitos. Apenas uma boa trama consegue suportar (e até superar) essas limitações e poucos conseguiram fazê-lo, o que tem sido até hoje bem raro.

Contra Zack Snyder, especificamente, trabalha seu estilo barroco excessivo (sem pleonasmo), bem como a trajetória dos filmes de super-heróis atuais, que a cada nova fita elevam o nível do espetáculo até um patamar mais exagerado, com batalhas (mais) mirabolantes, cenários exuberantes, ameaças intratáveis e um incrível prazer visual pela catástrofe das cidades – a mesma libido dos filmes de Godzilla, com menos papelão e mais dinheiro. Dawn of Justice “precisava” ser ainda mais espetacular que seus antecessores e concorrentes e talvez por isso Snyder tenha imaginado que teria que sacrificar grande parte dos qualidades dos personagens. Sua alternativa foi infantilizar e inserir o que a fita tem de melhor: uma épica.

A épica: a concepção de divinização dos heróis encontrou no histrionismo de Snyder o veículo barroco ideal. Snyder aceitou a impossibilidade como condição de existência das personagens: num mundo onde vivem os seres da Liga da Justiça, estes são o equivalente dos novos deuses da Era Google. A épica é a base de Dawn os Justice e da maioria dos filmes de super-heróis, mas em nenhum destes até então a opção por heróis como deuses havia ficado tão clara.

O flerte entre culto, divinização e violência marca a fita, que infantiliza o cidadão – e em alguma medida o espectador. Conceito impossível, o super-herói no mundo real só poderia ocupar o lugar de deus, pelo menos de um a divindade caída na condição terrena. As palavras de Luthor remetem a isso quando afirma, em mais de um momento, que qualquer coisa que escape do humano rumo ao divino só pode, ao viver entre homens, ser também um perigo e um demônio. Aproveitando-se dos traços de demasiada humanidade dessas divinas personagens, Snyder fez um filme que narra um misto de aceitação & dúvida por algo tão fora de moda como o super-herói numa Era cínica como a nossa.

Quando a liga “se forma”, o amanhecer da Justiça surge da lealdade de Batman, Superman e Mulher-Maravilha forjada na batalha (típica da narrativa épica), do sacrifício de todos e na doação última do Superman. Bryan Singer já havia explicitado este último elemento no final de Superman: o retorno quando o protagonista flutuava e caia do espaço inconsciente, de braços abertos remetendo diretamente à imagem de (um novo) Cristo. Superman é um deus que escolhe ser homem e se sacrificar. Snyder criou uma ameaça teológica, alguém que é um duplo divino/falso: não é deus, mas como salvador superpoderoso entre homens ocupa o lugar daquele. Pior, como um conhecido deus de histórias bíblicas conhecidas (sabemos!) também ressuscitará. O Jesus da sociedade do espetáculo não é um cordeiro, mas o bom moço com alma de fuzileiro e visão de calor!

A épica é a história dos homens que flertam com deuses para marcar-se na memória da humanidade. O filme insiste no épico na tentativa de construir algo como exemplar: uma orientação e regeneração social produzida pelos “heróis”. Se o cinema americano abusa do épico o tempo todo, fitas como Dawn os Justice realiza uma batalha por uma épica não-histórica de mundos impossíveis e paranoicos dos super-homens, mulheres-maravilhas, mutantes, etc. devolvendo mitos encarnados.

Finalmente, fiquei tocado quando Dawn os Justice toma as lendas na saída do anonimato. A linha entre visível e invisível é vislumbrada pelas gravações de câmera de segurança enviadas por e-mail de um personagem a outro. A imagem digital de vigilância, a mesma que é onipresente em nossas vidas, é o curioso lugar da visualização dos futuros deuses que tentam esconder-se e manter-se invisíveis, inclusive quando zelam pelos outros. É um elemento de ironia refinada, ainda que algo óbvia. Mas a “saída do armário” só ocorre quando todos enfrentam a ameaça de Doomsday. Foi no instante da batalha que aparece a Mulher-Maravilha que a épica atingiu o nível máximo e a fita renasce. O hedonismo hipnótico visual da destruição de Metrópolis e o carisma das personagens revela o prazer com a épica como espetáculo que escapou dos gibis e encarnou em película.  Fico feliz que Dawn of Justice traga a encarnação de um imaginário que me acompanha desde o desenho animado dos Superamigos, embora tenha ficado longe da doçura deste e da inteligência dos gibis.

Aqueles que suportaram o filme até a “aurora do encontro” dos três personagens contra Doomsday podem ficar felizes – ou não! Seguindo Sêneca esvaziei minhas expectativas com Batman vs. Superman e faço o mesmo quanto aos futuros filmes. Poderei colher, quem sabe, os bons frutos caso surjam. Neste ainda consegui.


Maus ou Esforço no nada?

Como pensar a miséria humana? Como compreender o genocídio? Na verdade o genocídio judeu foi apenas um dos muitos crimes de assassinato em massa na história recente do ser humano. Entre outras diferenças dele para os outros genocídios, está  o fato de foi perpetrado no coração da Europa, o centro civilizatório do mundo, e por uma de suas civilizações mais orgulhosas, a alemã. A escala da destruição fora sem paralelo pela gerência metódica em que uma estrutura de morte criada permitia que a mortandade ocorresse em níveis até então inauditos. Compreender o genocídio é, em si, um esforço quase desumano se tomarmos como referência nossos valores de que deveria haver uma ética na perpetração da dor, sofrimento e morte numa escala monumental. No caso da guerra, o choque entre lados inimigos facilita a crueldade e a estupidez, mas a marca do genocídio judeu,  voltado contra um “inimigo” interno e caçado, que estava evitando o choque, torna tudo mais impressionante.

A leitura de Maus, de Art Spiegelman, clássico dos quadrinhos dos anos 1980, e que mostra e representa o relato da vida de Vladek Spiegelman, pai do artista gráfico, é instigante para pensar uma questão que parece querer sempre beirar o impensável. Na serie é retratada as conversas de Art com seu pai, bem como a vida nos campos de concentração e extermínio pelos quais passara Vladek. Num dos momentos da serie, o personagem de Art retoma uma célebre frase de Beckett “Toda palavra é como uma mácula desnecessária no silêncio e no nada”. Logo em seguida, após uma pausa silenciosa com seu analista, ele retoma “Por outro lado, ele FALOU isso.” De maneira que Maus é um esforço. Para que? Para tantas coisas…

Creio que a principal é um acerto de contas entre um filho e um pai dificílimo retratado em toda a sua humanidade e insuportabilidade, um homem que fora capaz de sobreviver ao impossível. Talvez o traço mais emocionante seja justamente o esforço de, pela rememoração do pai, fazer uma história que era um presente sincero de um filho, também ele difícil, para que este possa seguir o seu caminho. Matar o pai, no sentido psicanalítico era necessário, mas, no sentido humano, tratava-se de reencontrá-lo e aceitar suas imperfeições como espelho das dele. Não é por acaso que a coisa que mais impressiona na serie inteira é que Vladek não se incomoda de contar e reviver tudo. Num lindo momento, ele afirma que tentara esquecer tudo e que apenas a insistência do filho o tinha feito rememorar. Vladek queria seu filho por perto e aceitou sofrer a dor da lembrança…

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Ainda assim a sobrevivência o horror nazista é um tema difícil. Veja-se, portanto, o esforço difícil do texto de Spiegelman: por mais que não se possa compreender Auschwitz (e Vladek afirma isso em muitos momentos  no quadrinho), é preciso dizer. A incompreensão e a irrepresentação, contudo, são históricas. Hoje, temos sido cada vez mais assediados com a ideia de que não é possível compreender ou representar o holocausto, de maneira que o esforço desnecessário de contar de novo é a única coisa que se pode fazer contra o horror do passado. Mas mesmo essa ideia é muito ortodoxa, apontando para  como é difícil enfrentar que tipo de humanos somos nós: civilizados e bárbaros como nenhum bárbaro é capaz. Afinal fora no centro da civilização, de forma industrial e técnica que fora cumprida o assassinato em massa. Ora, também ocorreu em Ruanda, mais recentemente, não do mesmo jeito, mas com a mesma vontade de morte. Seja na Europa ou na África o ser humano pode ser horrendo.

Maus é muitíssimo emocionante. Cada vez que a leitura avança, fica mais assustadora. Você sabe que Vladek sobrevive, você sabe que milhões morrem e morrerão no decorrer da série, e que Vladek será sua testemunha, mas ainda assim a certeza do horror vivido  transformado em narrativa, continua alimentando a expectativa para que algo possa sobreviver. Fiquei sinceramente incomodado com a estória, pelo seu  roteiro e crueza. O desenho nada tão bom de Spiegelman revela-se ideal para caracterizar a trama: judeus representados como ratos, poloneses como porcos, americanos como cachorros, franceses como sapos, etc. Uma alegoria trivial da animalização do ser humano, na qual, como diz Vladek “Impressionante um ser humano reagir no mesmo jeito que o cão do vizinho” (quando atingido por balas e agoniza). A perda da humanidade é o traço mais reforçado na série. Perda que dói ao leitor, para quem os desenhos vão ficando cada vez mais opressores. Quando finalmente vemos os ratos agonizando no gás, nada poderia ser tão assustador.

O esforço por ainda “dizer no nada”, porém, revela mais do que a simples ideia de que não é possível compreender Auschwitz. Maus gera compreensão ao demonstrar como o horror nazista foi o resultado final e radical do terror racial. A especificação do horror e da indústria da morte e a partilha de concepções raciais entre alemães e judeus (as vítimas são racistas como os algozes) é um sinal de que havia um problema enorme para quem o limite ético tornou-se uma ilusão. A exclusão do humano pelo terror racial tornou-se algo que apodreceu todos, mas no caso dos alemães criou uma aversão com requintes de crueldade extrema.

Qualquer ser humano dotado da capacidade da empatia entenderá algumas ideias minímas desse quadrinho como um esforço necessário de dizer algo no silêncio. Mas, de fato, haveria um silêncio? Não me parece ser hoje o caso. As conversas entre Art e seu pai começaram a ser gravadas no final dos anos 1970, quando os sobreviventes dos campos nazistas passaram a morrer de velhice, doença, loucura ou suicídio. O próprio Vladek morrera em 1982, pouco depois de  terminar de contar sua horrenda e extraordinária saga ao filho. Quando Maus terminou de ser publicada, em 1991, o holocausto, desde 1985, com o filme de Claude Lanzman, jé era definitivamente pensado como Shoah (calamidade) e uma indústria cinematográfica se formaria tendo o “evento” como um de seus tópicos principais, culminando no Oscar de A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, em 1994. De lá para cá, não apenas a visibilidade como a visualidade do terror racial nazista atingiu todas as mídias. Não há como não saber o que ocorreu.

As narrativas dos testemunhos e suas recriações sempre usam um princípio de perplexidade para tentar enfrentar um tema tão assustador como preemente. Ficar perplexo deve ser a reação padrão para algo da ordem do genocídio. Mas ficar estupefacto não pode ser suficiente, pois contra todas as teses da banalidade do mal, é justamente a maneira como o mal pode ter se tornado tão banal num determinado momento da história que deve ser colocado em questão. A compreensão deve ser um esforço contra a sensação de nada que o sofrimento das vítimas parece denunciar. Afinal, foi justamente o fato de não ter ocorrido no nada, mas na vida prática, no cotidiano de uma sociedade racialmente formada, que inferiorizava por meio de animalização, infantilização e purificação, coisas que acontecem com sutileza no dia a dia de muitas pessoas no mundo atual, que deve estar sempre o alertar: devemos continuar a nos surpreender, mas também a vigiar ao nosso redor, pois o veneno está em nossos corações e nem percebemos. Sejamos algozes ou vítimas.


relendo o quarto mundo

O quarto mundo de Jack Kirby é uma das coisas que mais me fascinam nos quadrinhos. Metron, Darkseid, Órion, Izaya, Mantis, Senhor Milagre, Grande Barda, Vovô Bondade, Desaad, Kanto, Magtron, Forrageador, Glorioso Godfrey, Dr. Bedlam, Corredor Negro, Grande Urso, Belos Sonhos, etc. Infelizmente nunca li todas as estórias escritas por Kirby, ou sobre esses personagens, mas li muita coisa que foi feita em cima do que ele projetou. Acabei de criar um plano para lê-las, mas por agora queria apenas falar da última leitura do quarto mundo feita por Grant Morrison.

A nova mega saga da DC, Crise Final, conta com Darkseid como inimigo, o maior dos vilões do universo. Aliás, nem na DC nem na Marvel há uma coisa como ele. Um deus maligno e ditador, governante de um mundo estígio no final do universo, dono de efeito ômega, poder misterioso e destrutivo. Darkseid é o grande vilão dos Novos Deuses, escrita e desenhada pelo próprio Kirby a qual tem um lindo final na “morte” de Órion, seu filho. O vilão se tornaria um dos maiores adversários dos super-heróis, mas foi sempre um mal administrável, visto que Izaya, o Pai Celestial, a contraparte do lorde negro (como o chamou Keith Giffens) e o povo de Nova Gênese equilibravam o universo.

Ele ajudou na derrota do Anti-monitor, foi o maior desafio da Legião dos Super-Heróis no século 31, quase destruiu As Lendas, se apoderou da Supermoça, quase obteve o poder da anti-vida, foi aprisionado na Fonte, teve o coração arrancado por Órion e finalmente, caído na Terra, em Crise Final, derrota a humanidade. O maior ganho da leitura de Morrison é desfazer o fato de que Darkseid era um mal administrável. Agora ele veio apocalipticamente para dominar o mundo e o consegue de maneira estarrecedora.

Darkseid pretende espalhar a equação anti-vida pelo mundo. O mais interessante é que a anti-vida de Morrison é tão somente a negação da liberdade de escolha, a completa submissão da vontade humana na alienação absoluta da alma. Ele não dominará por medo apenas, mas pela própria ausência da capacidade de juízo. Essa é a melhor forma de tornar os seres humanos dóceis o suficientes para abrigarem a mente maligna do destruidor. Perdendo seu corpo após a queda, Darkseid finalmente assume o tamanho de sua crueldade numa estória possível. Morrison lhe confere a esperteza cósmica que lhe foi constitutiva desde sua criação por Kirby, e o faz dobrar a Terra e seus heróis pela supressão do desejo da vida. O objetivo final de Darkseid é possuir os corpos humanos, todos, fazendo-os se tornarem Darkseid, uma consciência universal. Morrison conduz bem tudo até o belo final no qual Batman desobedece seus votos de não usar armas de fogo (num dos melhores momentos das HQs DC), os Flashs conduzem a morte (o Corredor Negro) até o Lorde de Apokolipse, o Super-Homem é obrigado a enfrentar Darkseid dentro dos corpos da população da Terra, e o derruba com um grande grito (outra cena linda), até que finalmente a Mulher-Maravilha aprisiona o espírito de Darkseid.

A forma de Morrison mostrar a trama ilustra o ardil complexo que o destruidor usa, a começar por eliminar Órion com uma bala que viaja no tempo, eliminando assim qualquer profecia da derrota do destruidor. Morrison já havia lidado com os novos deuses antes e novamente fez uma de suas melhores estórias quando Flash, Aquaman e Lanterna Verde viajam para o futuro durante a saga da “Pedra da Eternidade”, e ,lá encontram uma Terra dominada pelo deus maligno. Com a ajuda da Mulher-Maravilha e do Batman, num mundo sem Superman, Morrison mostrou como é perverso o mal de Apokolipse. Ali ele já predisse tudo que haveria de usar na Crise Final: Darkseid vencendo os herói, dominando tudo, e sendo encontrado pelo Corredor Negro, após um encontro estarrecedor com Batman (o único personagem que consegue dizer a Darkseid o que pensa). Ali também o lorde negro é derrotado pela Liga, o mundo é restaurado com uma caixa materna especial e a morte colhe o deus negro. De certa forma, Morrison já havia previsto a morte dos novos deuses, uma das releituras mais belas e instigantes da obra de Kirby, mas uma das mais maniqueístas também.

Isso porque a leitura de Morrison é diferente: para ele o Quinto Mundo virá quando o quarto mundo cair na terra e os heróis da Terra derrotarem os novos deuses, fazendo-os se tornarem velhos, e assumindo o seu posto. Desde suas estórias na Liga da Justiça, Morrison já havia deixado claro que os os personagens da Liga eram o equivalente dos olímpicos, personagens que conjuntos não podem ser vencidos, logo porque contam com o maior coringa moral de todos, o Superman, superpoderoso e generoso. Crise Final chega como a conclusão da leitura definitiva do inglês sobre os novos deuses para torná-los obsoletos. Algo bonito, mas com um certo desagrado ou imcompletude.

A DC recente estragou um pouco as criações de Kirby na tentativa de recalchutá-las. A Fonte quase virou uma vilã, os deuses sendo mortos em aventuras estúpidas, John Byrne fazendo coisas não tão boas com os personagens, enfim. Sem querer ser um defensor do passado (sou um entusiasta das recentes obras de Morrison sobre os personagens), mas me ressinto de que para montá-las ele teve que eliminar os lados benignos dos deuses. Morrison não trabalhou assim com os personagens de Nova Gênese, fugiu da tensão original edipiana entre pais e filhos, tanto Darkseid e Órion, quanto Izaya e Scott Free, e apenas Metron ele manteve dentro da aura de mistério. As obtusas estórias nas quais os deuses morrem limpam o cenário para Morrison trabalhar direito, mas privam-lhe do verdadeiro sentido que havia no “quarto mundo”: aqueles eram os heróis e vilões da Terra espelhados e “tragificados”.

Metron, por exemplo, é um dos personagens mais interessantes da série de Morrison, mas pouco explorado. Senhor do conhecimento (mesmo), ele é o único personagem intocável, manipulador do espaço e do tempo, novo genesiano, mas subaproveitado pela trama. Fico insatisfeito então com o fato de que para oferecer uma bela estória sobre vilões clássicos, Morrison não pôde sustentar os próprios corpos dos vilões. Entendo que essa seja a proposta, e entendo que ele não precisasse fazer diferente, mas como seria interessante ver uma aventura dos deuses explorados em seus conceitos principais por uma mente inteligente (embora pretenciosa) como a Morrison.

Fica minha tristeza pela morte dos deuses (eles podem voltar a qualquer momento eu sei), pelo destino de Apokolipse e de Nova Gênese. Uma boa estória com um bom final, mas com um custo alto para uma mitologia riquíssima. Talvez isso demonstre que determinados mitos são do passado. Ou que o clima dos realizadores do presente não está lá muito para estórias nas quais um contraponto menos cínico possa ter importância.


Grant Morrison na crise final

Quase acabei de ler todas as revistas relacionadas com a última mega-saga da DC, Crise Final, escrita pelo Grant Morrison. Era uma das poucas atividades de lazer que estava fazendo, mas que me deixaram com sentimentos ambíguos em relação ao que estava lendo. Uma avaliação crítica revela que tipo de quadrinhos está sendo realizado na DC agora e quais as implicações que isso tem do ponto de vista do entretenimento contemporâneo. Ao mesmo tempo é possível ver que tipo de gibi autoral tem sido a saída. Vou enumerar apenas alguns dos pontos, visto que isso merece um dos mais vastos ensaios que poderia escrever. Primeiro, falemos de Morrison.

Grant Morrison
Quando estive em Teresina li Os Invisíveis do Morrison. De fato o homem é um escritor autoral que escreve estórias muito pessoais como só ele é capaz de fazer. Fazendo parte daquela onda britânica de escritores renovadores, influenciado por todas as modas científicas que necessariamente influenciam os escritores de quadrinhos pela história, Morrison foi influenciado por todas as teorias do caos, do universo nano, quânticas, relatividade e outras cositas mais que também atingiram em cheio alguns bons literatos “pós-modernos” como Thomas Pynchon. Não apenas ele, mas Alan Moore e Neil Gaiman também estiveram neste jogo.

A grande diferença é que os anos passaram. E enquanto Gaiman sempre deixou todos esses elementos sobre controle, explorando às vezes mais, às vezes menos esse tipo de tema nas suas obras (o capítulo final de Livros da Magia é um dos exemplos mais interessantes), e Moore nunca tornou isso o seu mote fundamental, Morrison se especilizou em montar estórias a partir destes elementos. Nada contra em si, uma vez que ele se tornou um bom usuário dessas idéias. O problema é que, com o passar dos anos, ficou claro que Grant é muito bom em escrever estórias sobre personagens que já contam com um arcabouço pessoal de outras estótias, com personagens que já tem um bloco de significados sobre eles que só faz ampliar. De Asilo Arkham aos seus trabalhos em X-Men, Liga da Justiça ou na recente Crise Final, vemos que ele pode construir estórias muito boas com o material já desenvolvido nas décadas por outras editoras. Ele é bom quando usa tecnologia. Já quando ele escreve coisas de sua própria cabeça, requentando múltiplas referências numa roupagem de imaginação “quântica” o desastre estético é quase iminente, embora seus gibis sejam intelectualmente instigantes. É o caso de Kid Eternidade ou Os Invisíveis, que foi importante em sua época por elevar a exigência do leitor de quadrinhos num nível inimaginado antes.

Neste sentido, Morrison sempre foi dos mais complexos escritores, torcendo narrativas como Alan Moore nunca fez, criando novos jogos de sentido como poucos, mas sendo, a meu ver, vencido por seu próprio estilo que se tornou mais importante do que suas estórias. Morrison se tornou o John Byrne ou Frank Miller atual, o cara que renova os velhos super-heróis e fazendo algumas das melhores sagas dos X-Men e Liga da Justiça. Ele elevou os quadrinhos de super-heróis em alguns momentos a níveis de complexidade bem interessantes. Algumas de suas estórias são magníficas e sou especial fã das sagas da Liga, tais como Pedra da Eternidade. O que mais me impressiona é que quando ele lida com personagens com altos níveis de mitologia incorporado, e se propõe a explorá-los, o resultado é… homérico: por mais complexo, é enxuto, honroso e grandioso. Ele entendeu que a Liga era composta por heróis divinos e assim o fez.

(a avaliação dos X-men rexige outro raciocínio que não me proponho a fazer aqui).

E é ai que entra sua participação nessa Crise Final na qual os heróis da terra são quase obliterados pelos deuses malignos de Apokolips. O universo da DC sempre teve três principais fontes miticas de criação, entre tantas: os guardiões do universo, o quarto mundo criado por Kirby, e os deuses gregos (as disputas entre George Pérez e John Byrne sobre a origem do universo revelam essas brigas). Focando no quarto mundo, Morrison fez da queda de Darkseid uma das mais interessantes releituras do encontro entre heróis e os deuses já vista. O preço, porém, foi, a meu ver altíssimo (falarei disso noutro pos).

Crise Final é o ápice de um arco de histórias ruins, regulares e (poucas) boas posteriores a morte dos novos deuses e a confabulação sobre a existência de uma raça de Monitores. Darkseid já havia matado todos os seres de Nova Gênese, até que atacado por Órion, acaba tendo seu coração destruído pelo filho. Isso ocorre antes da Crise Final, numa arco de gibis mal roteirizados e quase desinterrantes se não fosse pelos personagens. Crise começa com a morte de Órion após essa batalha e o surgimento do Libra, recrutador do exército de Darkseid. O que se segue é que os deuses de Apokolips perderam seu mundo e junto com seu senhor cairam na Terra, como acontece com todos os deuses moribundos. Passando a viver em corpos humanos, venceram a batalha com Nova Gênese se agora iriam vencer os heróis.

No mundo criado por Morrison a queda de Darkseid faz parte da ativação do problema dos monitores, novas versões do Monitor criado por Wolfman e Pérez para Crise nas Infinitas Terras. Claro que surge um mal entre os monitores e este é o tal Mandrakk, um monitor renegado que incorpora uma espécie de pecado original dos monitores que nasce da indiviudalização. Essa idéia é elaborada na estória Superman Beyond, arco de duas estórias escritas por Morrison, onde fica claro que o problema de Darkseid é apenas a superfície do real problema. É nela também que Morrison está na sua forma original, extremamente livre em suas idéias e estilo narrativo. Mas é apenas no capítulo final da Crise Final que essa trama emerge, pois desde o início da saga o problema apenas aparentemente era Darkseid. Só que sa saga tem tantas ramificações que fica impossível ter prazer apenas com aquela estória, pois obrigatoriamente temos de ler todas as outras.

Fosse só esse o problema, os pensamentos quânticos e nano de Morrison ocupam o centro do espaço dramático, fazendo com que o final da série seja rapidamente resolvido numa convocação absurda de super-seres do multiverso (os multiploas padrões de complexidade nos quais as estórias dos heróis podem ser pensadas). Fica um tanto forçoso ter de aceitar que uma das melhores e mais interessantes ameaças que os heróis já enfrentaram é apenas a ponta de um iceberg de um inimigo perfeitamente enfrentável (Mandrakk). O curioso é que vencer Darkseid é mais complicado, embora menos apoteótico – e no caso do argumento de Morrison – mal explicado.

A série enfim, sofre do bem/mal maior de Morrison enquanto escritor: deixar-se levar por seu estilo ambíguo, agora que ele tem a obrigação de articular um conjunto de eventos externo à trama principal para que que o leitor seja obrigado a se render as múltiplas ramificações da série e ler (entenda-se comprar mesmo) obrigatoriamente todas as outras estórias. Ressinto-me em especial, de que parte fundamental da série (Superman Beyond) esteja fora da saga principal (que contraditoriamente não é portanto a saga principal, mas torna-se ela).

Enfim o autorismo de Morrison acaba sendo maior do que suas estórias. tentando quebrar a forma convencional de fazer gibis, ele articula mal premissas maravilhosas. Uma pena


as origens de Wolverine e o “erro”

Numa rápida olhada pelas críticas de X-Men Origens: Wolverine, ficou a mesma impressão em todos: um emaranhado de clichês. É chato dizer isso, mas faço parte dessa unanimidade. E ela não tem nada de burra.

O novo filme de Hugh Jackman peca em quase tudo:edição, enquadramento, direção de cena e roteiro são grandes clichês requentados misturados numa patola de previsibilidade e chega a ser irritante. De fato ele tem algumas boas cenas, uma ou duas talvez… sendo sincero só lembro de uma, no início do filme, quando Wade mata deus e o mundo com suas espadas. Mas o resto é desnecessário como o próprio filme.

Ora, uma obra de “cinema comercial” (perdão pelo uso da expressão) é tão inútil como deve ser: não serve a nada senão permitir com que passemos algumas horas livres do mundo mundano, nos entregando a ação descerebrada e tendo algum prazer visual. Nada mais legítimo. O ruim é quando, sem qualquer cerimônia nos entregam uma fita sem qualquer senso de originalidade e que não conseguem nos fazer deixar o mundo mundano. Claro que só posso falar por minha experiência, uma pessoa para quem os clichês não funcionam mais da mesma forma.

Gostar de Wolverine é estar, novamente com o perdão do termo, parado no tempo. É se deliciar com filmes de ação que encantam pelo desconhecimento da variedade incrível de filmes de ação que existem na terra. O patético disso tudo é o melhor dos X-Men (os filmes) era sua capacidade de nos fazer acreditar que os poderes eram naturais, que faziam parte dos personagens como seus braços e pernas, e não como espetáculo gratuito da vontade de ver uma explosão na tela grande.
wolverine

Emblemática a cena do filme 2 na qual Xavier simplesmente paralisa as pessoas a seu redor exercendo seu controle telepático. Sua telepatia era como seu olhar, parte da personagem. A cena de Zero trocando as balas das armas em velocidade Matrix só é interessante pela piada, as cartas de Gambit em revoada no bar era tão somente uma cena de efeito, a própria cena de Gambit explodindo a rua também, mesmo a cena que gostei de Wade é demais. Por falar nele, O Deadpool, o vilão mais sem graça, sem personalidade dos últimos anos. Sua batalha final com Wolverine é um anti-clímax. Se bem que o filme inteiro é um anti-clímax dos mutantes do universo mutante.

Enfim, tudo aponta para o vazio, a falta de interesse e o clichê. Na verdade, nunca gostei tanto de Wolverine. Essa celebração masculina da arrogância e violência que encanta tanto as platéis que se projetam num modelo animalesco de homem indestrutível (eis o Superman de novo) me era cansativa desde que lia os quadrinhos. X-Men sempre me foi interessante pela combinação das personagens: a serenidade de Ororo, e a violência de Logan; o metodismo e bom mocismo de Ciclope e Colossos, e a excentricidade de Noturno ou Gambit; a sensualidade delicada de Fênix (e sua face destrutiva) e a pulsante de Vampira. Etc, etc, etc. Era naquele contexto que Wolverine fazia sentido. Neste novo filme está descaraterizado, é centrado, reduzido a um bom mocismo destruido por uma perda de memória. Mas Logan foi sempre bom, sempre bom moço e foi a vida que o corrompeu. Novamente o herói americano que se torna tudo que os homens desejam: indestrutível, sexy, imortal e forte.

A última falha mortal do filme foi ter destruído toda, TODA a trama política dos X-Men em relação a marginalização e racismo inerente a sociedade americana. Mas este é só mais um problema no mar de desqualidades da fita.


Watchmen II – porque o quadrinho

Como disse no post anterior, como queria adaptar o quadrinho, Watchmen saiu um filme incompleto menos por não ser “fiel” ao gibi e mais por falhar na construção do enredo. Como adaptação em si, apesar de mudar o final, a fita é até bem sucedida na inclusão de detalhes da história, na transposição do enredo central e na caracterização dos personagens, embora seja incapaz de desenvolvê-los.

Sua constituição episódica talvez tenha sido seu calcanhar de Aquiles principal. Nos HQs funcionava porque sendo uma série fechada de 12 partes, fica fácil abrir e fechar um enredo ou episódio para cada personagem e suas ramificações. Na verdade Watchmen, o gibi, é tão bem orquestrado que cada episódio é uma grande historieta por si só. O filme teria que dar conta desses enredos que constroem o principal. Infelizmente não faz isso bem

O episódio de Rorschach, em especial é patético, diminui a personagem, faz com que se perca da serenidade com a qual encara e encarna o degradação humana e social num homem sexualmente reprimido, de ultra-direita e politicamente reacionário. Apesar de pincelas aqui e ali, Rorschach é perdido como apenas mais um psicopata comum do cinema. Uma pena.

Espectral já era uma personagem razoavelmente periférica no gibi, apesar de ser uma articuladora fundamental das relações dos personagens. No filme, seu papel é até aumentado na tela, mas um dos episódios mais lindos do gibi tem toda sua beleza destruída pelo excesso e pressa da montagem.

Finalmente, o que mais me entristece do ponto de vista da adaptação, a personagem de Manhattan, primeiro, e de Ozzymandias, depois, tem seus enredos diminuídos de forma a ficar difícil acompanhar suas motivações. Em especial, Ozzy teve sua principal qualidade emocional destruída pelo filme, a melancolia. Ele é apenas um conquistador barato de uma farsa histórica. A força da personagem foi tão apequenada, que a fita tornou-o mesquinho e somente megalomaníaco.

De Manhattan sobra alguma sutileza, graças a dublagem bem sucedida e das expressões visuais. Na verdade, ele foi realizado de maneira melancólica, mais até do que no gibi. Talvez para conferir alguma verossimilhança com o público afinal é difícil de engolir um homem pelado azul brilhante e superpoderoso.

Aliás este é um ponto a favor e contra o filme, em relação ao gibi: a existência do super-herói. Watchmen parte da premissa: como seria o mundo se super-heróis existissem mesmo. E no caso de existirem, o que os motiva? E se entre eles houver um superman, como ele interviria no mundo?

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A história de Moore e Gibbons era um crepúsculo de heróis, no qual a premissa da personagem super-herói fora destruída. De fato apenas homens com alguma natureza de distúrbio poderiam sair por aí, fantasiados, batendo em criminosos. Ou essa era a posição do gibi. E de fato, se existisse o superman, e ele (mais importante) fosse americano, as coisas, numa determinada conjuntura, poderiam ser mais explosivas.

Assim a repressão sexual de Rorschach o tornava mais violento ainda. Coruja só consegue transar após voltar a vestir seu uniforma, sentindo-se viril o suficiente. Manhattan, o superman, mudaria completamente o rumo da história humana ao se tornar um deus entre os homens e a favor da política intervencionista americana. Finalmente o vilão deveria ser o contrário da caricatura da maldade, mas sim alguém que sacrifica milhões para salvar o resto do mundo pregando uma grande piada planetária.

O filme conseguiu colocar isso de alguma forma, explorando ao máximo a megalomania que envolve o super-herói, desconstruindo o modelo pela exibição do que os motiva. O sonho de Coruja no filme é o maior exemplo disso tudo no qual ele se despe de sua pele e seu verdadeiro eu, que é viril, usa o uniforme de vigilante.

A paranoia social que seguiria os vigilantes foi evidenciada também, bem como a reconstrução histórica dos fatos nos quais ocorreram os eventos são colocados no filme. Bem feita inclusive foi a retrospectiva dos primeiros heróis da segunda guerra mundial, numa caracterização histórica que me deixou aliviado.

Todavia, novamente os excesso de Snyder atrapalham tudo. Ao tentar mostrar a megalomania dos americanos e do conceito de herói, o diretor a legitima em alguma medida, diminuindo o impacto crítico. Seu estilo visualmente aberrante, tendo que adaptar-se ao gosto do público acostumado com as lutas, caras e roupas de heróis (pós-Matrix, Kill Bill e X-Men), junto aos excessos visuais que já experimentara em 300, destrói boa parte do poder de desconstrução. Infelizmente o herói sai mais promovido do que denunciado em seu anacronismo e isso é contra a própria proposta do gibi. A própria devastação de Ozzymandias, privado de sua melancolia, o torna um mero fantoche de um enredo que precisa ser concluído.

O estilo de Snyder foi, na maior parte do filme, um equívoco para o material de minissérie. Apesar de tê-lo controlado desde 300, o diretor não se reinventou o suficiente para promover aquilo que pretendia adaptar. A fita, saiu, mais uma vez, vítima de seu objetivo de adaptação.

Isso me faz pensar que ao menos, para dirimir um pouco seus exageros, Snyder deveria ter feito uns dois ou três filmes. As 4 primeiras revistas dão um filme em si, assim como as 4 seguintes dariam outra e as 4 últimas um melhor ainda. Infelizmente a indústria não pode seguir o bom senso, mas sim o lucro, e por isso, só nos resta aceitar o que veio, e criticar.

Não foi um erro adaptar Watchmen. Ficou apenas um filme amputado.