“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Política?..hum sociedade talvez!

Ataques aos terreiros, congresso nacional e o Brasil da “nova” iconoclastia

Mundo desencantado? Morte de Deus? Bem, nosso Congresso Nacional atual e os ataques aos terreiros que se intensificam nos últimos anos têm provado o contrário. Tenho profunda pena dos leitores de sociólogos como Max Weber ou filósofos como Nietzsche quando tomam suas ideias como centro de debates profundos sobre a experiência político-social ocidental. Como sempre, a pergunta que deve sempre calhar é para quem o mundo foi/está desencantado? Se fosse vivo Nietzsche teria outro colapso se observasse, em pleno século XXI, como seu diagnóstico de sensibilidade antropológica de uma ameba (ainda que de grande sensibilidade filosófica) de que “Deus está morto” nunca fora tão falso.

terreiro atacado

Como aponta uma entre várias reportagens em fontes diferentes como 247 (http://www.brasil247.com/pt/247/favela247/139065/Viol%C3%AAncia-atinge-terreiros-de-camdombl%C3%A9-e-umbanda.htm) ou uol (http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2014/08/01/no-rio-terreiros-de-candomble-sofrem-ataques/), nosso “monstro católico”, o Brasil, está passando por uma nova mutação religiosa. A rigor a mudança das religiosidades é a constante desde a colonização portuguesa, essa verdadeira hecatombe religiosa, mas nos últimos trinta anos o avanço de alguns neopentecostalismos no país causou uma nova alteração no cenário religioso. Sua principal característica é o aguerrido sentimento apostólico e proselitista que ressuscitou o pior do iconoclasmo de origem judaico-cristã. A prática iconoclasta e a briga das imagens é um padrão ritualístico das religiões cristãs com forte impacto político. A iconoclastia não é um fenômeno somente cristão, havendo muitos exemplos de práticas iconoclastas no continente africano nativo desde o século XVI (bem registrados), os modelos islâmicos, bem como no embate de memórias por regimes políticos que se sucedem, sendo o Brasil um excelente cenário para perceber a mudança das imagens do poder nas sucessivas quedas da monarquia, estado novo, ditadura civil-militar, etc.

Ou seja, iconoclasmo é uma prática cultural, mas no caso do Brasil, por sua herança cristã, esta prática atinge proporções amplas, porque a iconoclastia é muito funcional politicamente, permite marcar território, assediar os adeptos de outros credos simbólica e fisicamente. As invasões de terreiros, os diversos projetos de leis no RS e em São Paulo para proibição de sacrifícios de animais, envolvem uma renovação de práticas antigas de assédio destas religiões cristãs (atualíssimas) neopentecostais que têm na quebra das imagens e nas medidas legais pela proibição de práticas religiosas lados de uma mesma moeda. O famoso episódio do chute na imagem de Nossa Senhora Aparecida pelo bispo Sérgio Von Helde, em 1995, recua no passado nada longínquo, mas revela também que o ataque mudou de foco. Uma vez que as religiões afro-brasileiras não possuem agentes inseridos nos circuitos midiáticos principais (emissoras, jornais, etc.) os ataques aos terreiros que se sucedem não atraem tanta atenção quanto o “Chute da Santa”.

Os ataques são parte da questão. São apenas a iconoclastia em sua face brutal e voltada aos outros do cristianismo. A bateria de livros, programas de rádios, conversas cotidianas, piadas, programas de televisão, blogs, páginas da internet, criou uma instrumentalização que vai além dos clássicos episódios bíblicos iconoclastas, entre os quais de destacam Moisés e Paulo. Existe a elaboração de um conhecimento sistemático iconoclasta anti-pagão, com livros escritos por pastores que articulam uma política (des) informativa de assédio religioso, instauram um regime fóbico para construção de medo e ansiedade com a existência das crenças, cultos e objetos de cultos alheios.

A coisa parece repleta de incongruências. Basicamente as religiões afro-brasileiras estão entre as que menos possuem adeptos no Brasil. Percentualmente não configuram em censos populacionais 1% de nossa população. É estranho que se invista tanto num esforço de atacar terreiros, quando chutar santas poderia ter um efeito proselitista mais certeiro, afinal o catolicismo é que tem mais adeptos no Brasil. A resposta, contudo, não é de guerra religiosa simplesmente. Credos neopentecostais atacam terreiros por mil motivos, entre eles porque não tendo representação política do mesmo nível, os filhos-de-santo e umbandistas não possuem redes de defesas mais eficientes. Conte-se ainda o aspecto racista envolvido, afinal, é mais fácil atacar uma religião de negros e pobres do que o catolicismo efetivo. No final das contas candomblé, umbanda e outros são religiões marcadas pela herança da escravidão e “são atacáveis” não apenas por motivações religiosas.

Fica a pergunta, contudo, de por que se ataca os terreiros? A briga pentecostal por adeptos inicialmente focou no catolicismo até os anos 1980. No final desta década em diante houve uma alteração no foco, principalmente quando as religiões neopentecostais investiram num proselitismo mais agressivo, ou seja, aquele que abandona os assédios silenciosos em prol de um assédio mais efetivo e por vezes físico. Na verdade o episódio do “chute na Santa”, aparentemente, era o final desta fase de briga direta com o catolicismo e o voltar-se para a disputa contra o campo afro-brasileiro, ampliando o leque do mercado religioso brasileiro. Registre-se que a notoriedade de candomblé e umbanda no espaço público nacional diminui substancialmente no final dos anos 1980, quando artistas e a classe média de notoriedade pararam de investir, por motivos ainda pouco claros, nos símbolos da cultura afro-brasileira como imagens nacionais, como ocorria desde os anos 1970.

Ainda assim, por que atacar uma religião cujo ganho de adeptos é insignificante? Alguns sociólogos e antropólogos têm tentado explicar o fenômeno afirmando que não se trata de ganhar adeptos. Não se trata de ganhar mais fieis de quem têm menos. Como o contato com o sagrado é sempre volúvel (por mais a ortodoxia religiosa diga que não, os adeptos fazem “o que querem”), aparentemente, as mediações ascéticas com Deus têm desestimulado os devotos. Ou seja, formas religiosas que não envolvem doses altas de afetividade e relações terapêuticas (podemos chamar isso de “fervor”) tendem a não envolver tanto os fieis  –  e aqui estaria uma das razões da “crise” do catolicismo. Já as religiões neopentecostais envolvem outras formas de envolvimento afetivo investindo nas práticas de cura, nas mediações mágicas e na retomada do transe. Elas incorporam os rituais de cura, a magia de diversas formas (os objetos abençoados pelo pastor), o próprio transe e criam novas estratégias de abordagens de devotos. Tornaram a saúde física e mental de seus adeptos uma questão central da vida religiosa e com tudo isso, tornaram o sagrado mais concreto.

Em suma, apropria-se da “cura” como foco, da riqueza como efeito da eleição divina (pois Deus premia os Seus), elege-se o Espírito Santo como visitante privilegiado e Exu como o convidado indesejado, apenas para que seja exorcizado. Portanto, fazem Deus aparecer mais vezes. As religiões que têm práticas religiosas semelhantes são as de matriz africana e mediúnicas. Atacá-las e incorporar seus aspectos consiste em tomar estas qualidades de contato com o sagrado (cura, magia e transe) e criar um monopólio de tais práticas no mercado religioso.

A explicação é funcional. Mas não diz o resto do problema que a meu ver tem mais um foco, relacionado com o topo de modalidade de iconoclastia no mundo contemporâneo. A primeira coisa é observar que a “guerra das imagens” voltou a se ampliar. Não têm sido poucos os casos de denuncia de ataques a igrejas católicas, em Minas Gerais (http://blog.opovo.com.br/ancoradouro/evangelico-destroi-imagens-catolicas-em-igreja-de-montes-claro/), Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte (http://www.paroquiadepiloezinhos.com/evangelico-invade-igreja-catolica-e-quebra-imagens-no-rn/), São Paulo, Piauí (http://blogcleberrocha.blogspot.com.br/2012/03/ataque-de-evangelico-igrejas-catolicas.html) e muitos outros estados.  O ataque às imagens católicas revela que a velha fase da luta contra o catolicismo voltou (se é que fora embora de fato), sem dúvida encorajada pelo apoio de nossa teocrática bancada evangélica nas diversas assembleias legislativas e no congresso nacional. A briga ancestral com este pai maldito, a Igreja Católica, herdeiro direito dos primeiros cristãos, recria-se no cenário desta década de 2010.

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Levanto a seguinte possibilidade: e se o problema estiver, na verdade, no vínculo entre violência, iconoclastia e iconofilia na base do dogmatismo cristão? Veja-se que não falo em idolatria, mas em iconofilia! A iconoclastia neopentecostal ataca os “ídolos”, pois retoma uma das três principais estratégias cristãs de demarcação de fronteira de identidade religiosa ao definir a religião do “outro” como feitiçaria, idolatria e seita (não-religião). Estas definições só funcionam com práticas interconectadas de assédio e violência simbólica/física na denuncia dos feiticeiros, na localização e destruição das imagens de culto e na delimitação da anátema de adorar outra coisa que não o Deus cristão. Mas a idolatria não define o único tipo de imagem e os vários objetos mágicos que se reproduzem nos diversos tipos de religiões cristãs, dos quais os tijolos, toalhas e outros objetos abençoados em templos evangélicos é uma variação. Ao lado deles, demonstra-se o papel dos festivais gospel, as personalidades midiáticas evangélicas ou o uso estratégico de programas de televisão, todos revelando entre os adeptos de certo neopentecostalismo brasileiro um amor (iconofilia) por imagens, embora não uma explícita adoração (idolatria) de imagens.

A idolatria, contudo, permite uma triagem das imagens e dos objetos relacionados ao culto. Permite que a iconofilia de alguns seja classificada negativamente e confere uma legitimidade moral aos iconoclastas em localizar e destruir as imagens de outros credos. Os ataques às igrejas e aos terreiros demonstram como o iconoclasmo é uma estratégia historicamente cristã de reação ao poder das imagens e de seus usuários. Já aconteceu antes entre os vários cismas entre Catolicismo romano e catolicismo bizantino, entre os padres de Roma e os do reino dos Francos no Medievo, nas guerras religiosas entre católicos e protestantes na Europa Moderna. Quer dizer que é uma faca de dois-gumes, um perverso estruturante da religiosidade de matriz cristã (não apenas dela), a qual, no momento, está sendo empunhada pelos “evangélicos”, como outrora já fora instrumento “católico romano”, “católico ortodoxo”, “luterano”, “calvinista”, “puritano”. Seus inimigos diretos são os filhos-de-santo, os umbandistas e etc., mas na verdade a faca pode ser usada contra qualquer credo que não esteja agindo conforme os dogmas do culto de origem do adepto iconoclasta.

A presença maior ou menor de iconoclastia religiosa (existem outras, muitas delas relacionadas com a matriz cristã) é um sinal do grau de secularização (não de “Morte de Deus”) de uma sociedade, ou seja, de quando a gestão da esfera pública e comum a todas as pessoas pode deixar de ter no fator religioso o seu centro de poder. A sua escalada atual no Brasil é um sinal de que a esfera temporal está sendo invadida pelo sentimentalismo religioso,  quando o ataque aos credos sinaliza a alteração e enfraquecimento da esfera pública. Sem reforma política os iconoclastas sem desejo de convivência popular diminuirão mais ainda o raio da esfera pública. Sem educação política (não religiosa) esse mesmo iconoclasta terá maior legitimidade moral.


sonhos das 8

Gosto de ver como os filmes brasileiros de hoje têm dificuldade de pensar o Brasil quando partem da sua história. Isso sempre me parece um sinal de como todos que procuram indagar a história e o país sofrem de algum nível de confusão diagnóstica, embora eu ache que o cinema, atualmente, tem mais problemas com isso do que outras áreas da cultura.

Esta noite vi, com atraso de dois anos, A Novela das Oito (2011), filme de Odilon Rocha, com tramas intrincadas (novelescas) de um Brasil de 1978 que se refestelava assistindo  Dancin’ Days na tv globo. A fita acompanha Amanda, prostituta de luxo de São Paulo, que, sem saber, tem Dora, ex-guerrilheira foragida, como sua empregada. Amanda é apaixonada pela novela global e sonha um dia conhecer a boate que batiza a novela. Enquanto isso, Dora assiste manifestações populares anti-regime na TV enquanto Amanda recebe um cliente encarregado de matar, justamente, o ex-amante de Dora, Vicente.

Dora logo reconhece o cliente como um de seus torturadores e termina por envenená-lo. Após matar o homem, decide ir avisar Vicente da tocaia da polícia. Amanda, desesperada, segue Dora para o Rio de Janeiro. Lá o espectador é apresentado a toda a subtrama: Brandão, um agente do governo linha-dura insatisfeito com a abertura de Geisel e que persegue os “guerrilheiros”; Caio, filho de Dora e Vicente, criado pelos avós, e que sofre bullying no colégio por ser gay; João Paulo, filho de um médico famoso partidário dos militares, mas que não compactua com o regime.

Amanda, apaixonada pelo sonho novelesco, é o contraponto de uma Dora amarga e incapaz de sonhar. O contraponto entre a novela ópio do povo e a realidade dura dos politizados parece o foco pelo qual A Novela das 8 é conduzido. Ambos são contrapontos constitutivos de certa memória da nação, mas mais do que se render a uma oposição fácil na qual a novela é alienação da realidade, a fita as torna complementares.

A fita, na verdade, é irregular, com um roteiro frouxo e não consegue harmonizar tudo a que se propõe. Diria mesmo que é um filme quase ruim, mas como sempre acredito que não existe imagem pobre (embora nem toda imagem tenha grande riqueza), creio que parte de sua dificuldade está no recorte: 1978. Como lidar com períodos chaves da história brasileira sem cair no abismo de ignorar a memória de uma vivência política que, de fato, passou, em níveis diversos, entre os aficionados de um Brasil não-politizado, e, as dificuldade de participar e construir a própria cidadania num momento de crise? Como, enfim, enfrentar a memória e a história do Brasil?

A escolha do filme foi, talvez, inconsciente, mas optou por desenvolver pequenas alegorias da nação, de maneira a cruzar, ainda que de maneira precária, considerações sobre a memória brasileira. Creio, inclusive, que a palavra certa é esta: “cruzar”! Não se trata de resolver ou diagnosticar uma compreensão efetiva do passado, mas sim de reconhecer e tentar articular os seus elementos.

Quais seriam estes elementos? Entre eles, a paixão pela novela, o desejo de liberdade, a dor da perseguição política, o desejo por cidadania, a decepção com velhas ideologias políticas, a emergência por novas  identidade. A fita não consegue harmonizar estes elementos, mas os detecta como componentes do mesmo passado de um mundo que era um país. E se falo país, quero dizer Brasil, porque, na fita, este é sempre nomeado, lembrado, dito e invocado para justificar Vicente, para demonstrar a fonte de dor de Dora ou as decepções de João Paulo, bem como a dedicação cruel de Brandão à pátria.

O Brasil surge como alegoria óbvia e desarticulada, uma vez que os componentes inelutáveis de seu passado invadem a rememoração que é A Novela das 8. Um filme constrói um enredo como se fosse um mundo e para fazer as pessoas acreditarem que ele é um mundo, apela para o que se convencionalmente se acha como fazendo parte de uma dada realidade. Quando se retrata um tempo passado, busca-se também o que se convencionalmente se acha que fazia parte do passado e assim entram em cena todos os componentes citados acima.

A questão é que é difícil fazê-los construir um quadro coerente: mais parece um quadro que deseja encontrar uma coerência do que oferecê-la. A força mais poderosa em atuação na fita é um diagnóstico sobre o passado, o qual, no fundo, é uma síntese sobre o próprio presente. A excelente (ao mesmo tempo ingênua) conversa de Dora com Vicente é ilustrativa de como, hoje,vê-se os personagens politizados de antes como sonhadores inveterados sem pragmatismo, que ao elevarem ao extremo um ideal coletivo, viviam sua própria ideologia como se fosse um sonho das oito, tal qual Amanda via Dancin Days. Contra essa alienação emocional de Vicente, Dora confronta sua visão crua de que não vale a pena lutar uma batalha inútil e mais valeria se recolher e esperar a tempestade da ditadura passar para que pudesse reencontrar o seu filho.

Contra a política convencional assumida (de Vicente) ou abandonada (de Dora), emerge Caio, o filho dos dois, menino que se assume gay e oferece a própria identidade como uma fonte de força, inaugurando assim uma nova arena política. Vicente morre torturado por Brandão, mas tanto Dora verá morrer seu assassino, como ela própria sobreviverá para ver a ditadura ter fim. Já Caio terá seu futuro, ao descobrir um amor em João Paulo.

Na sequência central da história todos se encontram na Dancin’ Days carioca. Lá Amanda descobre definitivamente que a vida não é uma novela, mas também lá, Dora compreende que seu filho tem um novo tipo de coragem. Ali ela, tragicamente, reaprende a sonhar. O final do filme encara a o final da ditadura pelo horizonte do futuro e da esperança: num amanhecer à beira mar, Caio reencontra João Paulo, e, Dora, dirigindo, segue uma estrada sem fim.

Brasil, país do futuro?! Talvez este seja o último quebra-cabeça dessa alegoria de nação que encarna, nos dramas de seus míseros personagens, o destino de todo um povo. A Novela das 8 retoma a tradição do cinema nacional de enfrentar a história por meio da alegoria do futuro, sem deixar de identificar as experiências sociais. De certa forma, a película transforma a novela em um espelho invertido, menos da alienação brasileira e mais dos sonhos de um Brasil irrealizado. A Novela das 8 é uma fita de classe, que ignora a desigualdade social, tem dificuldade de encarar seu passado, domestica a memória do país quando a desarticula, mas é contraditória tal qual o país que retrata.

E talvez seja possível pensar que toda história seja, no final, uma memória dos sonhos irrealizados de todos os homens, inclusive na forma de novelas.


Lee, Eastwood e um discurso caduco

Vejo-me de volta com a tolice novamente. Uma polêmica recente fez com que Clint Eastwood tivesse audiência em cima da declaração infeliz de Spike Lee sobre a presença de negros, ou melhor, sua ausência nos recentes Cartas de Iwo Jima e A Conquista da Honra. Lee novamente escorrega ao exigir de uma história que ela tenha um lado que não possui em nome de um politicamente correto caduco de sentido. Seria um combate racial entre brancos e negros?

Não, não seria! Embora certamente este fosse o objetivo de Spike ao falar o que falou. Racializar o debate é uma excelente forma de acusar o outro de racismo e preconceito.

Acho interessante haver políticas de representação de negros, seja no cinema ou televisão norte-americanos, e não vejo, até agora, problemas para uma coisa destas no Brasil. Mas daí exigir que um filme de norte-americanos que foca sobre japoneses, tentando fazer a proeza de enxergar uma batalha contra norte-americanos pelo olhar japonês, tenha atores negros é ir contra a realidade. Certamente, na opinião de Lee, haveriam muitos negros entre os soldados japoneses que enfrentaram as tropas os EUA no pacífico oriental. E eles ainda deveriam falar entre si em quimbundo ou alguma outra língua.

Óbvio que Spike Lee conseguiu o que queria: atrair audiência para sua causa na luta contra a sub-representação de negros na mídia norte-americana. Fez isso às custas de sua própria inteligência, mas talvez todo esforço seja justificado na tentativa de enfrentar uma terra com racismo tão institucionalizado como os EUA. Ainda assim não é necessário posar de tolo apenas para chamar atenção para uma causa nobre. E exigir que Iwo Jima ou Conquista da Honra tenham negros em seus elencos para promoção da imagem do negro é perpetrar uma falsificação deslavada da história em prol de um presente que não sabe como lidar com sua ausência de imagens de negros.

Nunca me importei necessariamente com “falsificações”, no sentido fraco do termo, em tramas cinematográficas. Elas são quase inevitáveis numa arte tão sintetizadora como o cinema. Tais empreedimentos são mais legitimos quanto mais se afaste de intenções historicamente fiéis que tentem evitar anacronismos. Algumas delas são catastróficas, todavia, quando se quer que representação não seja anacronica e fiel, mas altere um aspecto que pode anacronizar o discurso.

O melhor a fazer é respeitar que em determinadas tramas da história européia ou asiática é normal que não apareçam negros, enquanto seria normal que em algumas tramas da história americana e africana seria normal que não aparecessem brancos.

A polêmica não trás nada de novo, infelizmente, no que se refere a Spike Lee, que já criticara cineastas brancos por fazerem filmes sobre negros. Na sua lógica absurda e sociologicamente irreal, brancos não poderiam compreender ou tinham legitimidade para contar uma história de negros. Perguntaria se ele, sendo negro, teria alguma legitimidade para criticar Eastwood sobre uma história que não era de negros. Em tese, se sua idéia estivesse correta (e não está), o pobre Clint nem poderia ter feito Iwo Jima, afinal era sobre japoneses. Essa triste posição é bem próxima de alguns radicais defensores da negritude e do movimento negro no Brasil.

Exageros à parte, precisamos controlar nossa ânsia pelo politicamente correto quando ele é falsificador do passado no sentido da má fé. É preciso aceitar que existem realmente histórias de outros.

A doença de Lee é outra, todavia: é acreditar, como tantos outros, que raça seja uma coisa essencial e não uma construção social. Infelizmente, para ele, e para nós.


mais institucionalização

Certas coisas são importantes , ainda que representam uma triste resposta a uma situação de exclusão. Ontem o Presidente da República participou da cerimônia de formatura da Unipalmares quando 126 pessoas, sendo 110 negros (auto-declarados presumo) se formaram.

Lula assumiu a importância daquele fato, reclamando do preconceito, racismo e da necessidade de que os negros possam chegar em ocupações como médicos e advogados com naturalidade. Lula se reclamou de sua dificuldade para conseguir a nomeação ao STF de um negro. Ao menos nas reportagens sobre o evento não houve menção à raça negra, um grande desserviço ao país.

Reconhecer um povo negro é interessante e medidas de integração numa sociedade estratificada como a nossa fazem-se necessárias e urgentes. A existência da Unipalmares é uma iniciativa boa e curiosa. Mas me faz pensar na ambiguidade das cores o Brasil e nas implicações dessa iniciativas. A pergunta seria: como uma resposta possível (e necessária) que alguns importantes segmentos sociais encontraram para tentarem se articular frente um problema maior, pode ter repercussões pouco desejáveis como a institucionalização bipolar do país?

Deixemos ao tempo essa resposta. A história será nossa mãe neste caso. Assim como foi nosso pai e carrasco.


sequência 2 – aparição

1. Novamente o homem gay! Mais um gay no Big Brother, versão 8. O tal Marcelo assumiu publicamente o que chamou espalhafatosa e dramaticamente de o segredo de sua vida: ele é gay!

2. Pela primeira vez nos EUA, uma mulher negra e lésbica ‘assumida’ é eleita prefeita de uma cidade. A cidade: Cambridge!

3. Uma das mais representativas paróquias Anglicanas Canadenses, a Santíssima Trindade de Toronto, polemiza com os conservadores ao se colocar ao lado dos casamentos gays.

4. Estudo nos EUA aponta que relacionamentos gays são mais saudáveis do que os heterossexuais. Resta saber qual o critério de saudável no estudo, quem o fez e principalmente, qual a fórmula porque só deve ser nos EUA porque aqui no Brasil as coisas não me parecem tãoooo saudáveis.

Fora o óbvio que todas esses causos se dão no mundo atlântico, esse mundo extremamente ocidentalizado e conservador, mas espaço de tensões entre diferenças incrivel, fiquei particularmente sensibilizado pelo fato de que cada vez mais as imagens do que se chama de gays estão mais presentes.

Essas imagens não são as próprias pessoas, mas sim diferenciações delas. São imagens que tocam o mundo real e que apresentam o gay não apenas para os não-gays, mas para os próprios, dilatando o quadro das referências. São imagens que se destacam porque são ainda singulares no meio da banalidade senso comum pois são poucas as visibilizações de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo.

O mais importante é que são notícias! Não são ficcões, filmes, telenovelas ou séries. São cortes do mundo que não se quer ficcional, embora seja um tanto fabulado e por vezes ‘simulacrado’ (Big Brother). Cortes que forçam as pessoas a rever a realidade ao seu redor.

Poderíam ser cortes melhores, mas são ainda significativos.


sequência 1 – a interdição

1. O prefeito de Moscou ocupa o cargo desde 1992. Nada posso dizer de seu governo, mas certamente sua homofobia atravessou os continentes e os mares, ao considerar que as Paradas do Orgulho Gay são eventos satânicos. Recentemente tentaram deter ativistas gays em manifestação na capital russa mas foram liberados.

2. Na China uma matéria sobre homossexualidade no principal jornal do país, o China Daily, causa polêmica por ser ilustrada com fotos de homens se beijando. A interdição de certos atos faz com que eles fiquem mais poderosos quando são publicizados.

3. No Camarões, 3 pessoas são condenadas a trabalhos forçados acusadas de serem homossexuais. Este absurdo fatalmente tem alguma raiz cultural específica, que deve ser compreendidas antropológicamente para ser sumariamente desfeita.

4. Na Espanha 70% dos michês são brasileiros. Mais interessante: por opção. Lembro de um amigo meu que esteve lá e conheceu um brasileiro que havia lhe dito que estava lá para fazer o que todo mundo do Brasil faz lá: ser michê. Para além das questões multiculturais envolvidas, ou da situação ‘pós-colonial’, Brasil e Espanha estão alinhados no mesmo problema.

5. Bactéria decide endoidar e se espalha por meio do sexo em meio a gays em São Francisco. A matéria da FSP é tão mal-escrita que parece que a bactéria sabe que está em gays, tornando-se uma praga sexual que ressuscita os famigerados grupos de risco.

….

Essa sequência de dados colhidos quase todos no Mixbrasil me faz pensar sobre algumas coisas. A primeira delas é como situações tão distantes podem fazer parte de nossas vidas. Existe afinal uma questão identitária sendo construída pelo Mixbrasil, mas mais importante: a construção é planetária e demonstra planetariamente o quanto de interdito existe nos campos sociais de diferentes sociedades quando o assunto é o relacionamento sexual e amoroso de pessoas do mesmo sexo. Polêmicas na China, Rússia ou Camarões, assinalam em 3 continentes as dificuldades que parecem que devem ser combatidas ao nivel local e global.

Combater como? É uma questão imediata e terrível. Como dizer que a prisão em Camarões é errada? Estou aqui supondo que exista um quadro cultural de repressão justificada, como algumas interdições às mulheres para algumas tradições islâmicas mais ortodoxas. Respeitado o nível da compreensão antropológica, ou seja, o sentido de determinadas repressões em certas sociedades, devemos escapar desse entendimento objetificante, que não aprende com a cultura que observa e a culturaobservaodra, e colocar a emergência do encontro do que nos diz respeito. Se em Camarões é legítimo, no Brasil não o é, ou não deve ser, não apenas porque os sentidos são diferentes, mas porque é preciso agitar o meio social para que os sentidos possam ser diferentes.

A história é marcada de retrocessos em aquisição de cidadania. Se por um lado a defesa de direitos sexuais, de gênero e étnicos ampliou o espectro da atuação política e de seus efeitos sociais, por outro, ninguém pode considerar o quadro como ganho. Notícias em contrário podem alimentar almas reacionárias e por isso devem haver notícias e mais discussão. Afinal a interdição ocorre na África e nos círculos familiares brasileiros e as bactérias gostam de trazer fantasmas de volta se não forem bem entendidas. Compreender que cada ato está num meio social não nos exima de compreender o efeito de um ato distante em nosso próprio meio.


para não dizer que não me interesso pelo planeta

Vi uma matéria sobre a visita de Lula a Fidel. A matéria é vazia como tudo que Lula fala. Já o apego de nosso presidente à figura de Fidel é anacrônico.

“Penso que Fidel está pronto para assumir o papel político que ele tem em Cuba”, disse Lula. O que impressiona é que a doença de Fidel não causou abalos sismícos no regime cubano. Talvez o regime sobreviva ao ditador para se transformar em algo diferente. Lula terá idéia disso? Quem sabe?! Suas falas são tão vazias que não dá pra entender o que ele chama de “papel político”.

Há temores de recessão nos EUA e iso causou queda nas bolsas asiáticas. Os dados são tão específicos que cansam, mas sei que a queda é um dado importante, oscilando como sempre oscilam os mercados de capitais internacionais.

Uma moça caiu a poucos dias de um avião porque lhe tiraram a escada. O avião estava parado e a coitada morreu uma morte estúpida. O que procurou a pobre faxineira, senão uma escada para descer?! Nem queria la viajar. Esta triste história serve a uma cruel metáfora da condição social da senhora quedada.

Cada vez mais me interesso pela URSS. As revelações do ‘segundo homem’ da KGB, Nikolai Sergeievitch Leonov, em interessante entrevista à FSP deste domingo (13/01/2008) mostram qual intrincado é o quadro das relações internacionais e o quanto nos escapam muitos dos movimentos da História.

O pior das revelações dele foi que o Brasil pouco importava à ex-URSS. Há quem pense que ele importa a muito poucos. Contudo é curioso pensar que aos olhos de Moscou erámos apenas uma nação de direita, não importa se ditatorial ou não, que mais servia como sede de espionagem para o resto da América Latina. Segundo Leonov, a esquerda brasileira não tinha grande representação internacional nos pós-1945. Coisas a pensar.