“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Pedro Almodóvar

A Pele que Habito

Procuro não falar de filmes que não gosto para não lhes conferir maior atenção do que merecem. Vez por outra faço o contrário, mas resisti, por exemplo, a falar mal de “Os Imortais”, um dos mais sérios candidatos a pior filme do século XXI. Se retorno agora A Pele que Habito é porque acredito que Almodóvar merece atenção até quando erra. Por fim, o filme tem uns elementos interessantes… e retorno à carga após rememorá-lo recentemente numa conversa de facebook.

A verdade é que detestei A Pele que Habito. Embora as qualidades de Pedro Almodóvar e de alguns de seus filmes continuem lá, e embora ele continue sendo alguém de quem valha a pena ver imagens, este seu novo filme é um enfado. Trata-se de obra chata e longa, que poderia perfeitamente ter meia hora a menos, sem ritmo ou empatia. É certo que seja o filme mais cru de PA, mas é também dos mais previsíveis.

O filme transforma seu princípio em psicologia barata: o Robert (Antônio Banderas) é um personagem que procura substituir o objeto de amor perdido. Quando perde a mulher, mantêm a filha, mas esta acaba por enlouquecer, e, como alguém traumatizado por uma sucessão de infortúnios, localiza aquele que acredita ser o algoz da filha. Primeiro faz da vingança a substituição do amor perdido, alterando o corpo do pobre Vicente (Jan Cornet), transformando-o em mulher. Até aí o filme é interessante, mas Almodóvar não se revela capaz de manter a frieza da trama, a qual fica frígida quando, previsivelmente, Robert se apaixona pelo novo Vicente, agora a linda pele de Elena Anaya (melhor coisa do filme), que é a cara da Penélope Cruz. Houvesse um mérito seria o de mostrar o homoerotismo sutil de um personagem inescrupuloso que transforma um rapaz em mulher para se vingar e (previsivelmente) se apaixonar por ela (ele).

No final só restam duas alternativas à fita e nenhuma delas poderia surpreender o espectador, não depois de tudo que acontece com a moça/rapaz: ou ela/ele sofreria de síndrome de Estocolmo e passaria a amar seu sequestrador ou fingiria amá-lo para então o matar, ainda que tenha que se sujeitar ao sexo com quem detesta. Não antes de ser estuprada, claro. O roteiro escolhe a segunda opção – a mais previsível delas justamente porque é a que mais encaixa no ciclo de vingança ali contido.

Nesse processo, a fita seca, perde seu interesse. Acho que Almodóvar nunca acerta o ponto quando é apenas cru ou seco, pois sempre que o faz, o resultado é um filme frígido, que incomoda pelo mostra, não pelo que expressa. Não consegue ser “frio”, no sentido de que é preciso habilidade para manter-se à distância de sua trama e fazê-la produzir algo mais do que incômodo, mostrar acontecimentos imorais que na verdade nada tem de imorais, mas sim de patológicos. A frieza é uma qualidade de muitos filmes, mas como os piores trechos do Má Educação, A Pele que Habito tenta ser um “soco no estômago” e só impressiona quem é sugestionável (não é de hoje que desconfio de quase todos os filmes com pretensão de ser “soco no estômago”). Essa sugestão é tão mais forte quanto se reflete sobre a relação entre identidade e corpo que ameaça ser rompida pela transformação cirúrgica de Vicente, tema de fato poderoso.

É um filme bonito de ver, bem encenado, metalinguístico como sempre, cujo maior mérito foi ter rompido as expectativas do que se espera de um filme de Almodóvar. Este Pele que Habito é interessante pela trama, mas não pela forma e pela emoção que carrega e gera. Para mim, tornou-se evidente, depois de Má Educação, que Almodóvar não é eficiente e expressivo quando trabalha com patologia psíquica ou moral, quando lida com a falta de escrúpulos como tal. Quanta trata o comportamento de desvio como desvio, seus filmes perdem força emocional. O que seu cinema tem de mais interessante é escarnecer de nós, seus espetadores, mostrando o mais patológico ou imoral ou inescrupuloso dos atos das pessoas como algo de mais humano e natural.

Alguns saudaram esta nova fita como um retorno aos filmes dos anos 1980 pela crueza da situação exposta. Bobagem: naquela época o escroto e o grotesco faziam parte de um universo absolutamente humano, e por isso não havia tanta previsibilidade. Quando o estupro, o assassinato, o escárnio, o vício, a traição são tratados como naturais e normais e não como patológicos ou desviante (como ocorre em A Pele que Habito) suas fitas são muito mais poderosas, porque realizam a empatia que coloca que faz o espectador parceiro do assassino. Como notou Pauline Kael a respeito de A Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick, isso é muito mais subversivo.

A Pele que Habito nos mantêm distantes e “outros” da trama. Ela não ocorreria conosco; não nos desafia porque podemos ficar impressionados com que vemos sem nos sentir parte daquilo. Criamos uma defesa contra o filme. Acho que este é o ponto: não há defesa possível quando Carmen Maura escolhe continuar morta e viver como um fantasma, um comportamento patológico de fobia social extrema, mas ao qual Volver confere tal humanidade que pensamos que não poderia ser de outra forma e que aquilo poderia ser conosco.

Enfim…

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Almodóvar outra vez

Ouvindo músicas de Alberto Iglesias, relembrando as imagens de “Todo sobre mi madre” me convenço cada vez mais de como este filme é superlativo. Eis sua dedicatória:

“A Bette Davis, Gena Rowlands, Romy Schneider… para todas as atrizes que interpretaram atrizes, para todas as mulheres que representam, para todos os homens que representam e se tornam mulheres, para todos aqueles que querem ser mães e, para a minha mãe.”

Para minha mãe também. Há tanto humanismo em “Mi Madre” (com trocadilho). Mas acima de tudo, dedicar algo tão lindo e que não faz distinção e respeita a todos os que são diferentes é um ato de humanismo. O diretor e o filme são muitos humanos. Só isso é suficiente para amá-los.

Este filme é um belo tratado sobre a atuação, sobre os esforços que se faz todo dia para se ser quem se é. “Mi Madre” é a vida!

E novamente falo de Almodovar e de Tudo Sobre Minha Mãe aqui, com todos os ecos cinematográficos (A Malvada, Uma Rua Chamada Pecado, O Importante é Amar) e do cotidiano (minha Mãe e todas as outras que conheci) que eles trazem.


Almodóvar e minha mãe

Vendo as imagens de Almodovar e ouvindo as palavras de Lorca, só posso falar mesmo de minha mãe. Não há palavras e imagens suficientes para dizê-la ou mostrá-la.

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Lorca: (Tem gente que pensa que os filhos são coisas de um dia. Mas nos demora muito, muito. Por isso é tão terrível ver o sangue de um filho derramado no chão. Uma fonte que corre durante um minuto e que a nós nos custou anos…)

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(…Quando encontrei meu filho estava tombado no meio da rua. Eu molhei as mãos de sangue e as lambi com a língua. Porque era meu sangue! Os animais lambem, não é mesmo?! Eu não tenho njo de meu filho. Você não sabe o que é isso. Em um ostensório de cristal e topázios eu colocaria a terra empapada com o seu sangue!)