“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Nanni Moretti

A perda materna em “Mia madre”, de Nanni Moretti

(Este texto está escrito há meses, mas só agora pude retomar e terminar)

Um filme realmente belo é algo raro de se ver e Mia Madre é dos mais belos filmes que já vi. Belo no sentido pequeno/profundo, quando a obra toca em um sentimento e memória que existe dentro de nosso coração. Toda visão/emoção da obra de arte é, já dizia um cineasta russo já falecido, como um mergulho na memória – e acrescento: memória de si e da arte. Mia Madre (2015), de Nanni Moretti, é a última obra no qual rememorei a mim mesmo e pude perguntar ao écran: “como ele poderia saber?” Achar uma memória vivida com minha própria mãe e ver uma expectativa fatal é algo medonho… e belo.

E o que relembro? Primeiro das lindas imagens das mães nas quais reconheci minha mãe, como no poema de Vinicius de Morais, no qual todas as mães se reconheciam. Destaco a presença constante de Mãe e Filho, de Aleksander Sokurov, na qual um filho se despedia de sua mãe enquanto tentava se (des)consolar nas pradarias pictóricas do paleta do diretor. Pictórico demais, Mãe e Filho era emocionante e pessoal, mas pouco verbal e as pessoas (leia-se eu) precisam de palavra e narrativa, por mais precárias que possam ser. Mia Madre mostra justamente essa resistência com a palavra/imagem que expõe a dor, marcada por sua imediata necessidade. Fita feita com amor, mostra como dois filhos são obrigados a se despedir de sua querida mãe quando são avisadas de sua morte. A impotência e a dor, as necessidades do dia a dia impondo-se e impedindo toda vontade de estar apenas ao lado dela, enquanto, simultaneamente, eles não querem estar ao lado para vê-la fenecer. Triste decisão!

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De certa forma, o filme é sobre todas as perdas. Lembrei da minha mãe, graças aos deuses ainda muito viva e bem, que queria que meu tio João Paulo estivesse em casa com seus irmãos e parentes, quando o extraordinário e maldito final chegasse. Lembrei de minhas tias Dadá e Rita, a primeira descansa há tanto tempo e a segunda, Rita, faz pouco mais de um ano que nos deixou. Tia Rita, que foi também a melhor amiga de minha mãe. Vejo nos meus primos o rosto deles a persistir e enfrentar não apenas a impermanência de tudo, mas também a ausência de quem mais se ama. Obviamente vem a mente as memórias de minhas avós, primeiro a vovó Hilda, desaparecida num hospital, enquanto minha mãe, que já sofria uma mudança de vida catastrófica, passaria a sofrer a perda da própria mãe; depois vovó Bernarda, já com mente ressequida. Bernarda, tia Rita, infelizmente, não pude estar lá para enterrar.

Nanni Moretti teve que criar um alter-ego para enfrentar a perda na ficção. Com a ajuda da ótima atriz Margherita Buy criou Margherita, uma mulher cineasta (como ele próprio) e nela inscreveu toda resistência, toda neurose e paranoia cotidianas que compõem os seres humanos urbanos deste início de século XXI. Nela colocou a necessidade de falar da sua Itália, mas também do assalto que é continuar apegado a um trabalho enquanto a mãe, Ada (Giulia Lazzarini) outrora ativa e poderosa professora de Latim e Letras Vernáculas, se vai. Moretti acaba refletindo sobre o sentido e o não sentido do existir e da ausência premeditadas. Sua personagem contempla a sala de sua mãe professora de línguas latinas. Ela quer que sua filha aprenda a língua como uma continuidade da própria mãe e avó.

Num dos momentos mais avassaladores da fita, Margherita conversa em italiano com o ator norte-americano Barry Higghis (John Turturro), que participa do filme que ela própria está filmando, mas o qual só entende inglês. É o único momento, além de seus sonhos, nos quais a cineasta se permite existir e sentir plenamente. Deixando de resistir à palavra e à dor, pergunta para Barry: para que servem todos aqueles livros de autores clássicos e antigos de sua mãe, o que fará com eles quando ela morrer? O que fará com o legado de sua mãe, com sua memória, que só lhe causa dor? A conversa se dá no meio de uma tomada do filme dentro do filme, suspendendo a filmagem e a equipe, tal como nós, os espectadores, só pode esperar: que ela termine de falar e finalmente sua mãe faleça. O filme dentro do filme recomeça e Margherita retorna à ficção da vida que finge sobre si mesma que é pode continuar correndo a despeito de seus escombros emocionais.

Mas Moretti, o diretor, também está no filme. Seu personagem Giovanni é o irmão de Margherita, aquele que deixará o emprego para tentar cuidar dela quando de sua piora. Giovanni é o outro pedaço do alter-ego do diretor, um homem grande profissional que quando deixa sua empresa, é avisado que dificilmente conseguirá outro emprego. Mas ele o faz assim mesmo, pois, recorda, ali não há sentido. O filme é atravessado pela presença de ambos os filhos, Giovanni como o incansável e quase silencioso filho/irmão que tenta amparar quem pode, Margherita como a incansável e inquebrável diretora que fez do trabalho uma muleta especial. A vida e o sonho de viver tentando lidar com elos a se partirem.

A cena magnífica do sonho de Margherita no hospital enquanto sua mãe está no hospital jamais me sairá da mente. Ela vai ajudar sua mãe a ir ao banheiro, mas ela não consegue andar. Irritada, a cineasta briga e grita com a mãe. Ela acorda desesperada e percebe a raiva e o ódio que sente de toda a situação, emoções nascidos da impotência de frente a finitude. Tudo isso Moretti mostra com atenção e cuidado, jamais caindo no drama, no exagero. Sabemos de tudo, vemos tudo, nos é dito tudo com discrição e sentimento. talvez seja isso… o filme tem sentimentos.

A arte nos prepara para a morte, mas nunca é/será o suficiente. Ela lida com a memória e a espera. Somos precários – resta-nos apenas a memória e a expectativa de darmos conta do recado…