“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Mia Couto

suspenso na noite

Vi-me na África, perto de um lago repleto de crocodilos, garças (nem sei se tem lá) e dos flamingos para ler o lindo, o mais belo trecho de O Último Vôo do Flamingo, de Mia Couto. Difícil esquecer do avestruz dizendo que jamais voou, e mesmo carregando as asas como saudades, só pisa felicidades.

Com Mia vi-me vendo o horizonte se fazer vermelho, no anoitecer, o céu se vertebrando no vôo da ave vermelho-rósea. Ouvindo e vendo coisas e coisas, olhei da África imaginária o meu quarto de livros e pensei sobre tudo aquilo, sobre tudo mesmo, sobre isto que tenho sido.

As perguntas vem como a noite que escure, como ondas em vai e vem, perturbam, tiram e deixam o sono com gosto de cinza. Neste instante melancólico, não vejo mais a África do flamingo, ou meu quarto cinzento. Queria apenas parar o instante e curtir essa coisa estranha que às vezes invade o coração, a solidão.

Enfim, deixei Mia na África enquanto penso nos sonhos das paisagens repletas de céu, água, terra, verde, espaço e noite de minha alma. Fico comigo, fechado, esperando a hora de ver o dia nascer.

Enquanto isso a noite vai estranha, mas… não é desagradável!

É como estar suspenso…


O Gato e o Escuro (peça licença para deixar de escrever e deixar Mia falando)

“Vejam, meus filhos, o gatinho preto, sentado no cimo desta história.

Pois ele nem sempre foi dessa cor.

Conta a mãe dele que, antes, tinha sido amarelo, às malhas e às pintas.

Todos lhe chamavam o Pintalgato.

Diz-se que ficou desta aparência, em totalidade negra, por motivo de um susto.

Vou aqui contar como aconteceu essa trespassagem de claro para escuro.

O caso, vos digo, não é nada claro.

Aconteceu assim:

o gatinho gostava de passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite.

Faz de conta o pôr do Sol fosse um muro.

Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente.

A mãe se afligia e pedia:

– Nunca atravesse a luz para o lado de lá.

Essa era a aflição dela, que o seu menino passasse além do pôr de algum Sol. O filho dizia que sim, acenava consentindo.

Mas fingia obediência.

Porque o Pintalgato chegava ao poente e espreitava o lado de lá.

Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.

Certa vez, inspirou coragem e passou uma perna para o lado de lá, onde a noite se enrosca a dormir.

Foi ganhando mais confiança e, de cada vez, se adentrou um bocadinho.

Até que a metade completa dele já passara a fronteira, para além do limite.

Quando regressava de sua desobediência, olhou as patas dianteiras e se assustou.

Estavam pretas, mais que breu.

Escondeu-se num canto, mais enrolado que o pangolim.

Não queria ser visto em flagrante escuridão.

Mesmo assim, no dia seguinte, ele insistiu na brincadeira.

E passou mesmo todo inteiro para o lado de além da claridade.

À medida que avançava seu coração tiquetaqueava.

Temia o castigo. Fechou os olhos e andou assim, sobrancelhado, noite adentro. Andou, andou, atravessando a imensa noitidão.

Só quando desaguou na outra margem do tempo ele ousou despersianar os olhos. Olhou o corpo e viu que já nem a si se via. Que aconteceu? Virara cego?

Por que razão o mundo se embrulhava num pano preto?

Chorou.

Chorou.

E chorou.

Pensava que nunca mais regressaria ao seu original formato.

Foi então que ouviu uma voz dizendo:

– Não chore, gatinho.

– Quem é?

– Sou eu, o escuro. Eu é que devia chorar porque olho tudo e não vejo nada.

Sim, o escuro, coitado. Que vida a dele, sempre afastado da luz!

Não era de sentir pena? Por exemplo, ele se entristecia de não enxergar os lindos olhos do bichano. Nem os seus mesmo ele distinguia, olhos pretos em corpo negro. Nada, nem a cauda nem o arco tenso das costas. Nada sobrava de sua anterior gateza.

E o escuro, triste, desabou em lágrimas.

Estava-se naquele desfile de queixas quando se aproximou uma grande gata. Er a mãe do gato desobediente. O gatinho Pintalgato se arredou, receoso que a mãe lhe trouxesse um castigo. Mas a mãe estava ocupada em consolar o escuro. E lhe disse:

– Pois eu dou licença a teus olhos:

fiquem verdes, tão verdes que amarelos.

E os olhos do escuro de amarelaram. E se viram escorrer, enxofrinhas, duas lagriminhas amarelas em fundo preto.

O escuro ainda chorava:

– Sou feio. Não há quem goste de mim.

– Mentira, você é lindo. Tanto como os outros.

– Então porque não figuro nem no arco-íris?

– Você figura no meu arco-íris.

– Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.

– Os meninos não sabem que o escuro só existe é dentro de nós.

– Não entendo, Dona Gata.

– Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende?

– Não estou claro, Dona Gata.

– Não é você que me te medo. Somos nós que enchemos o escuro com nosso medos.

A mãe gata sorriu bondades, ronronou ternuras, esfregou carinho no corpo do escuro.

E foram carícias que ela lhe dedicou, muitas e tantas que o escuro adormeceu. Quando despertou viu que as suas costas estavam das cores todas da luz.

Metade do seu corpo brilhava, arco-iriscando. Afinal?

O espanto ainda o abraçava quando escutou a voz da gata grande:

– Você quer ser meu filho?

O escuro se encolheu, ataratonto.

Filho?

Mas ele nem chegava a ser coisa alguma, nem sequer antecoisa.

– Como posso ser seu filho se eu nem sou gato?

– E quem lhe disse que não é?

E o escuro sacudiu o corpo e sentiu a cauda, serpenteando o espaço. Esticou a perna e viu brilhar as unhas, disparadas como repentinas lâminas.

O Pintalgato até se arrepiou, vendo um irmão tão recente.

– Mas, mãe:

sou irmão disso aí?

– Duvida, Pintalgatito?

Pois vou-lhe provar que sou mãe dos dois.

Olhe bem para os meus olhos e verá.

Pintalgato fitou o fundo dos olhos da sua mãe, como se se debruçasse num poço escuro. De rompante, quase se derrubou, lhe surgiu como que um relâmpago atravessando a noite.

Pintalgato acordou, todo estremolhado, e viu que, afinal, tudo tinha sido um sonho. Chamou pela mãe. Ela se aproximou e ele notou seus olhos, viu uma estranheza nunca antes reparada. Quando olhava o escuro, a mãe ficava com os olhos pretos. Pareciam encheram de escuro. Como se engravidassem de breu, a abarrotar de pupilas.

Ante a luz, porém, seus olhos todos se amarelavam, claros e luminosos, salvo uma estreitinha fenda preta.

Então, o gatinho Pintalgato espreitou nessa fenda escura como se vislumbrasse o abismo.

Por detrás dessa fenda o que é que ele viu?

Adivinham?

Pois ele viu um gato preto, enroscado do outro lado do mundo.”

Mia Couto


Deixando e voltando

Tenho saudades. A palavra pouco diz sobre esta, contudo sei que meu coração está querendo dizê-la. Há qualquer empolgação por novamente entrar em sala de aula. Certa felicidade pela aventura de ver mentes novas e falar de coisas interessas sobre fotografias de candomblé, de caranguejeiros e sobre objetos curiosos pré-hispânicos chamados cemíes. Só a saudade permanece e não consigo dizê-la. A palavra falha, mas será que falha sempre?

O querido Mia Couto diz assim que “nenhuma palavra alcança o mundo/ eu sei/ mas ainda assim/ escrevo”!

Também escrevo porque é linda a “falência” da palavra. Não escrevo como poeta, mas penso que ainda que ela falhe, o próprio ato de se lançar demanda a possibilidade de criar na imaginação o alcance que a letra almeja. A palavra não falha, apenas não se executa plenamente.

Acima de tudo, a palavra, como diria o filósofo, sempre volta ao mundo para dizer porque o deixou!


Traço de um beijo na saudade

Nunca me considerei uma pessoa “do mato”, mas sempre fico surpreso com manifestações inesperadas de amor e carinho. Já falei disso neste blog. As ações provam o quanto somos importantes para algumas pessoas, mas as vezes, ouvir é tão importante! Essa semana tive três presentes seguidos: num primeiro, João e Elis demonstraram um cuidado lindo comigo pelo qual fiquei profundamente emocionado. Noutra vez, Pedro me disse uma coisa feia e me pediu desculpas e foi muito bonitinho. Essa noite recebi um telefonema esperado de Gibbons, mas com um conjunto de declarações que me deixaram sem ação.

Existe uma característica daqueles que têm uma Árvore-deus no coração: como todas as árvores, elas dão sombras pelo seu próprio existir. Não é uma função, é uma realidade e ação involuntária e gratuita. Claro que existem tipos de ávores, mas acho que sou daquelas mais cheias de folhas. A questão é que se ficamos plantadas no chão, se tomamos do sol pelas folhas e recebemos as chuvas de galhos abertos, em geral não encontramos sombras e ficamos surpresos quando o amor e a sombra nos chega.

Entendam que não há dúvida, mas é sempre lindo quando aqueles que tu amas mostram que és uma pessoa querida. Elogios e amores são preciosidades quando ditos pela voz que vc preza ou feitos pelo corpo de quem se gosta, quando gestos mínimos trazem sua presença. Quando Marcos me liga para contar qualquer coisa, manda um pequeno e-mail perguntando o que há, quando Lundi liga para falar de uma frase bonita que leu, quando Cathy me diz “saudades”, quando me pedem desculpas, quando Salve manda um sopro no vento, ou Nil liga para dar boas vindas, eis que se desvela essa dimensão maravilhosa que é do bem-querer que torna mais fácil isso de ser árvore.

………………………….

Trago um beijo de saudade para Gibbons agora. Isso de ter um coração é um fardo deliciosamente pesado.

Hoje pela madrugada meu amor me ligou e disse coisinhas que me tiraram a voz. Não respondi coisa com coisa, me embaracei todo, mas estou aqui colocando em dígitos uma grande alegria. Nada do que está escrito corresponde ao vivido, mas não é menos verdadeiro. Alma, cor, gesto, sombra, luz, som, tom, textura magníficos.

Para ele, quem sabe Mia Couto diga o que não consigo. Na mágica da citação trago as palavras de outro poeta e as faço minhas, “recorto do ar” meu bem querer e digo nos traços e rabiscos que são meus o que só meu abraço e beijo poderíam realizar:

Pergunta-me

se ainda és o meu fogo

se ascendes ainda

o minuto de cinzas

e despertas

a ave magoada

que se queda

na árvore do meu sangue

Pergunta-me

se o vento não traz nada

se o vento tudo arrasta

na quietude do lago

repousaram a fúria

e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me

se te voltei a encontrar

de todas as vezes que me detive

junto das pontes enevoadas

se eras tu

quem eu via

na infinita dispersão do meu ser

se eras tu

que reunia pedaços do meu poema

reconstruindo

a folha rasgada

na minha mão descrente

Qualquer coisa

Pergunta-me qualquer coisa

uma tolice

um mistério indecifrável

simplesmente

para que eu saiba

que queres ainda saber

para que mesmo sem te responder

saibas o que te quero dizer


Couto novamente

De volta a Mia Couto. Ele e um poeta de elementos, talvez por ser tão ligado a uma noção pessoal de suas origens, sua terra, o Moçambique, do qual acaba fazendo o microcosmo do mundo.

Ele faz grande poesia como Pessoa, Cecília, Adélia, Bandeira, Drumond e tantos outros neste idioma lindo que o português.  E ele escreveu um dos poemas que sou eu, como algumas fotos e filmes. A arte é isso, essa capacidade de superando a si mesma ser algo mais do que suas palavras sendo elas mesmas e permitir a quem as lê ou ouve sentir-se mais e menos, mas acima de tudo, derrubar os preconceitos e rever o mundo.

Eis o poema-meu, o primeiro de Mia Couto que li anos atrás no belo perfil de Teca no orkut. Foi ali que descobri o poeta. E desde então tenho uma apixão platônica por ele, que me devolve a esperança de que há tanto para ser dito…

“ÁRVORE

cego

de ser raiz

imóvel

de me ascender caule

múltiplo

de ser folha

aprendo

a ser arvore

enquanto

iludo a morte

na folha tombada no tempo”

 

Somos do país o Fogo, sabem?! Somos meio que como habitantes da vila oculta da Folha enfrentando os perigos e vivendo nossos deveres e amores com toda a força pessoal que tivermos e tentando lidar com essa força mágica que é o tempo.


Voltando à terra

Minha paixão agora é Mia Couto. Eu o acreditava mulher e o descobri homem. Mais do que isso o descobri imenso, mais do que lembrava. Desde que o via no perfil de Árbole ele me encantava com sua visão do tempo, desse eterno passar, pela atenção ao transcorrer.
Agora volto de uma viagem a um país distante, renovado e saudoso. Nos dias ordinários vejo, no véu do mundo, onde quero ir, se quero ir, quais são meus caminhos. Oscilando entre vigilia e devaneios tateio as veredas. Eu que já nasci árvore, tecendo plantas e olhares em todas as direções. Meu nome quer passear pelo vento…

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidênciapara que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combate
sem que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser onteme é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome
(Mia Couto)