“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Manoel de Oliveira

106 anos de Manoel

Oliveira, Manoel de! Poucos olham o mundo com a mesma calma e esperança humanista enquanto marchamos para o algo novo. Manoel de Oliveira ainda enxerga a Europa num canto de esperança vista por sua ponta mais ocidental e atualmente desesperançada: Portugal, ao qual ele acompanha nas transformações dos últimos 100 anos.

O único cineasta vivo que viu e trabalhou no cinema mudo hoje completa 106 anos e tenho esperanças que ele complete os 110 ou mais a nos presentear com um último olhar arriscado sobre as lágrimas da Europa. Ainda lembro do meu “primeiro Manoel”, Viagem ao Princípio do Mundo (1996), aquele que seria o último filme de Marcelo Mastroianni. A câmera demorava-se em planos sequências das estradas lusitanas na busca do cineasta vivido por Marcelo e por um ator francês de ascendência portuguesa, ambos tentando encontrar o princípio de suas vidas.

O fardo do passado é algo pelo que se procura nas fitas de Manoel de Oliveira. Em Viagem ao Princípio do Mundo os palacetes perdidos, as ruas pesadas, as estradas sem fim remetem a uma busca e desejo da ruína, que ela seja capaz de gerar imagem e narrativa, pesos que não se quer abandonar.  Por outro lado, o fardo do passado não é o da história pois aponta para as dificuldades com o presente – não apenas o apego ao que se foi, mas a atenção ao peso do que está.

O cineasta português é um conservador! Suas fitas desconfiam do presente, mas para um Matusalem que viu o século XX e o começo do XXI parece difícil ver o tempo sem melancolia. Curiosamente há algo de modernista nele, eu diria uma fé num cinema lento, meditativo, verbal, com planos longos, poucos close-ups, na ideia de arriscar-se para produzir, ainda que tão preocupado com o passado, um novo e diferente olhar.

Feliz aniversário, Manoel!


Terrível é a palavra non: Oliveira e a ardência do passado

Pode a história ser vista? Pode o passado ser entregue como imagem e não mera simulação? Todo filme documenta antes de tudo o ato de sua própria feitura. Fazer um filme histórico é um registro do ato humano de tentar ver o passado como imagem e não apenas de elaborar imagens a partir do relato histórico tal como ocorre quando escrevemos ou lemos um texto de história. Manoel de Oliveira sabe como poucos como fazer filmes para quem toda a trama está baseada no estranhamento da fita com o próprio espectador. Por vezes, é formidável sua capacidade de fazer-nos estranhar mais do que a fita, mas o seu tema. Cada plano, repito sempre esta sua frase, é um risco, no qual o mundo é visto como imagem. Non ou a vã glória de mandar, fita de Oliveira de 1990, é destes filmes que pensam a história como um risco humano e cinematográfico.

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Non é um dos filmes dos filmes, que nasceram para ser ousado e gigante, um épico histórico no sentido antigo e um filme oliveiriano no sentido de sempre. Como chamou atenção o ator Luís Miguel Cintra, em Non, nenhum personagem de Oliveira é um personagem com profundidade, mas é mais um carácter de um diálogo filosófico. Non é um dos antecessores de Um Filme Falado, uma destas fitas em que as personagens são vozes de um diálogo reflexivo no sentido renascentista do termo, as quais, mais do que pessoas reais, são pessoas-tipos. O pensamento, está claro, só advém da meditação e a meditação implica em pausa, calma e abandono de si. O grande personagem a meditar precisar estancar. Assim são os personagens de Non.

E sobre os personagens de Non meditam? Sobre a história em primeiro lugar! Sobre Portugalem seu sentido mais íntimo, em segundo mas não menos importante! Pensar em Oliveira me lembra outro cineasta que tanto amo, o falecido Angelopoulos para quem olhar a Grécia era pensar sua história. Aliás, que soberbo este empreendimento o Oliveira de sempre pensar seu país a partir da imagem /verbo da história e do passado. Ele sempre volta à nação, cujo coração mostrou como um anjo em outro filme delicioso sobre a história, no qual ele e sua esposa aparecem como vasculhadores do passado: Cristovão Colombo – um enigma.

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Non apresenta 5 episódios da história portuguesa, todos observados pelo estigma da derrota e da irrealização do sonho histórico: o primeiro, a partir do qual o filme é organizado e que o encerrará, é a estada do Alferes Cabrita (Luís Miguel Sintra) num comboio militar junto com muitos soldados portugueses em Angola. Os outros quatro episódios são narrados pelo próprio Cabrita aos seus companheiros, ele um historiador e filósofo da história e são retratados no filme: o assassinato do ancestral português Viriato em 139 d.C.; a morte de D. Afonso em 1490; a viagem de Vasco da Gama à Índia; e o desaparecimento de Dom Sebastião na batalha de Alcácer-Quivir em 1578. A partir deles, Non mostra o inusitado de uma nação conquistadora e reprimida pela história, marcada pelo desejo de expansão e pela construção do inferno colonial, maior glória é o legado. Como afirma Cabrita: o que se dá é mais importante do que o que se tira do encontro dos povos. Mas há uma leve ironia nesta expressão ao se lembrar que os portugueses e os europeus em geral deram aos povos do mundo, junto com seu espírito, o céu e o inferno.

A contradição continua em soldados numa guerra colonial africana enquanto discutem o amargo do passado. Estariam eles próprios condenados à derrota tal como os heróis portugueses? No terço final da fita uma batalha ceifará a vida do Alferes e quando o guardião da memória começa a morrer, Dom Sebastião, o Encoberto, surge perante ele segurando o fio de sua espada com as mãos sangrando. O olhar fixo e belo de Sebastião fita o espectador-Cabrita e parece que se trata da presença do rei-mito que jamais retornará, mas sempre será o Desejado. Este filme que retoma Camões, mostrando inclusive o episódio da Ilha dos Amores dos Lusíadas, bem como Antônio Vieira, lembra-nos que o desejo de poder é fonte de glória e miséria e que se existe uma verdade da história, ela é o bater de seu vento nas asas da humanidade, que é varrida para o esquecimento se não lançar-se no esforço contínuo de restaurar a si mesma por meio da rememoração. Para Oliveira, o anjo de Paul Klee não seria a história a reunir os destroços, mas a humanidade que é carregada pelo vento do tempo.

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O princípio humanista de Oliveira e sua cultura erudita fazem-se na mais épica e medieval cena de derrota já filmada: Dom Afonso avança numa batalha na qual não esteve, Alcácer-Quivir, e vê uma cena convencional de morte e destroços humanos. Um soldado ferido levanta-se da morte e começa a declamar o poderoso texto de Antônio Vieira, uma machucadura retornada dos mortos, vinda de um tempo antigo num aparição ardente num filme do século XX. Non ou a vã glória de mandar torna-se assim um amálgama de tempos em conflito: o dos mortos que sumiram, mas deixaram suas palavras como legado; o do presente que pode retomar as falas dos mortos; o do futuro, que se tenta reorientar a partir deste presente espelhado no passado; além de todos os outros tempos que se queira tomar. Neste momento as imagens-palavras incendeiam e não custa trazer este lindo e aterrador texto de volta: “Terrível palavra é um Non. Não tem direito nem avesso. Por qualquer lado que o tomeis sempre soa e diz o mesmo. Lêde-o do princípio para o fim ou do fim para o princípio, sempre Non. Quando a vara de Moisés se converteu naquela serpente tão feroz que fugiu para que não o mordesse, logo perdeu a figura, a ferocidade e a peçonha. O Non não é assim. Por qualquer parte que o tomeis sempre é serpente, sempre morde, sempre fere, sempre leva o veneno consigo. Mata a esperança, que é o último remédio que a natureza deixou a todos os males. Não há correctivo que o modere, nem arte que o abrande, nem lisonja que o adoce. Por mais que o confeiteis um Non sempre amarga. Por mais que o doreis sempre é de ferro”.

No final, percebemos que Cabrita morre no dia da Revolução dos Cravos. Oliveira pergunta, incômodo, se não teria sido este momento de quebra com Salazar mais um episódio de derrota (ou vitória) nos destroços deixados pelo tempo.

Sobrevive, enfim, a primeira imagem do filme, o plano travelling de mais de 2 minutos de uma alta e frondosa árvore angolana que é exibida de um ponto de vista de um barco num rio. A árvore é, como em toda grande história, uma Árvore do Mundo ou uma Árvore da Vida, uma ponte entre céu e terra que encaminha o homem no rumo do conhecer sua glória e miséria. Antoine de Baecque afirmou que esta árvore é uma forma cinematográfica da história, um momento de ardência da história. Eu diria que é um momento de retorno no tempo, por todas as Árvores do Mundo que ela espelha.

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Toda árvore toma do sol pelas folhas e recebe as chuvas de galhos abertos. Ela resiste como imagem viva dos elos entre sonhos e enraizamentos. Junto a ela, o poderoso olhar de Sebastião encarando Cabrita (o espectador) nos lembra que o conhecimento bebido da fonte da vida (a árvore e o sangue) é a certeza da morte – e a necessidade da memória. Lembrar é trazer o passado, o nosso e o dos outros. Mostrar o passado é juntar novamente imagem e palavra na memória para refazer o espírito do homem.