“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Literatura poesia música

As linhas da noite: reencontro com Broch

A grande poesia, como o grande cinema ou a grande literatura, é sempre a tentativa de criar um instante de plenitude. Mas só é possível fazer um preenchimento ambíguo, algo que seja, ao mesmo tempo um esvaziamento de tudo aquilo que é pertinente. Para atingir o Empíreo e manter uma fragmentada memória deste, algo que se possa contar para ter uma vaga visão de tudo, a arte coloca-nos à beira do precipício. Mirar a escuridão profunda (tão semelhante ao nada, talvez o próprio) parece ser a eterna solução dos avós, pais, filhos e netos do modernismo.

Parece, afinal, que os tropos da metáfora e da hipérbole são fundamentos de meu discurso sobre uma arte que tomo como referência pessoal para mediar minha relação com a literatura e arte modernas. Agora, retorno a ela pela (re)leitura de Hermann Broch e seu magnífico A Morte de Virgílio, que cruzo com Shakespeare e Whitman, o qual faz-me retornar a Kubrick e Tarkovsky, e, estranhamente, lembra-me Angelopoulos e Hilst. Como um mito da arte que criei para sentir e compreender aquela literatura, meu mito de arte leva-me a compreender Broch como um instante. Poucas vezes leio algo sobre o qual penso que possa alcançar o topo do cânone. Tive essa impressão com poucos artistas – como os citados acima e aos quais acrescentaria bem raros outros companheiros. Comecei A Morte de Virgílio há mais de uma década, e agora, finalmente, estou decidido a concluir a leitura que nunca terminei. Na época, senti medo e estupor, via um grande portal que apresentou toda a pretensão da arte moderna concretizada como palavra literária sublime.

O horror é o espelho do sublime, contudo, e a beleza é o isolamento numinoso entre o instante de um e o hiato do outro, o improvável necessário depois de alcançado. A palavra que gera imagem, a imagem que gera imagem e palavra, a fusão entre eterno e fugidio, este mito da arte moderna, como a poesia que parte mundos pela ação da língua do poeta, esta imagem-texto da escrita de Broch é uma imersão na sensação e no sentido da própria vida, com tudo que de inteiro e de nada ela tenha.

Curiosamente, neste mês em que me reencontro com Broch, li o dossiê sobre Kafka da revista Cult no qual um crítico afirma,  que o escritor tcheco fora do tipo que escrevia sobre o último a apagar a luz ao sair. Curiosamente, quem faz isso de fato é a própria morte. Contra este esquecimento da vela em seu último suspiro na vaga, escreveu Broch:

“Maior que a terra é a luz, maior que o homem é a terra, e jamais poderá o homem durar, enquanto não aspirar o ar da querência, regressando à terra, retornando terrenamente à luz, recebendo na terra terrenamente a luz, sendo recebido pela luz unicamente graças à terra, que se faz luz. E nunca se encontra a terra em mais íntima proximidade da luz, nunca a luz se liga mais familiarmente à terra do que no início do crepúsculo, nas duas divisas da noite.” 

Ousadia esta de pela palavra-imagem encontrar, nas vagas do pôr-do-sol, quando céu e terra se encontram, o último suspiro da luz.

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o Mar depois do mar

“Vem
Sacra carapaça de tartaruga
E torna-te um poema…”

Começa com Safo para passar a este grande poeta que é maior que o céu. Mia Couto novamente diz minha poesia em sua boca:

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

“Idades cidades divindades”


eu sou a memória e a chaga

Nas últimas semanas comecei a entender um novo limite de choque poético, ainda inaudito para mim, algo que posso chamar de poesia da catástrofe, que se trata justamente dos poemas dos sobreviventes da Shoah. Gosto de poesia pre-romântica, alguma coisa do romantismo, poesia modernista brasileira e alemã e certamente poesia renascentista , além é claro, de poesia antiga. Lamento profundamente não poder ler Lucrécio no original e não conhecer profundamente a poesia de Rilke, Spenser e Chapman. Contudo, não leio muita poesia, mas sempre me choca lê-la. Foi o que ocorreu com a descoberta de novos poetas como Elie Wiesel e Paul Celan.

Graças aos deuses eu possuia prepração: a melhor imagem de poesia que conheço sem dúvida são aquelas construídas por Safo, Cecília, Hilda e Adélia, todas poetisas que me mostraram como pensar no eu lírico. Sem elas não teria escudo contra Wiesel. O eu lírico é um topos da poesia, uma forma pela qual o poeta encontra a si próprio para ser poeta e se debater com a tradição. Os poemas dedicados a si entregam algo sobre o próprio ato de poetar, escrever poemas.

Na “poesia da catástrofe” descobri um novo eu lírico, devastado menos por experiência subjetivas terríveis, mas um trauma coletivo e por uma vergonha, de certa forma, de sobreviver aos mortos que viram morrer. isso porque essa poesia é também testemunhal, se podemos chamá-la assim. Tende a ser mais fraca de metáforas, mais direta em suas imagens, busca quase como uma metáfora do literal que se ergue contra um esquecimento, um protesto contra a morte coletiva. Lida com o que é difícil, senão impossível de representar, para conferir-lhe uma perpetuação na linguagem e evitar, a todo custo, o apagamento da memória.

Mas é também uma melancolia sem fim, um trabalho de luto que não se conclui e que no enfrentamento do trauma torna-se mais e mais ela própria traumatizada. Nestes poemas, o passado parece nunca passar, sendo revivido poeticamente como a dor na memória. Veio da pena de Elie Wiesel, este que um é dos mais impressionantes poemas que já li:

Jamais je n’oublierai cette nuit, la première nuit de camp, qui a fait de ma 
vie une nuit longue et sept fois verrouillée. 
Jamais je n’oublierai cette fumée. 
Jamais je n’oublierai les petits visages des enfants dont j’avais vu les corps 
se transformer en volutes sous un azur muet.
Jamais je n’oublierai ces flammes qui consumèrent pour toujours ma Foi.
Jamais je n’oublierai ce silence nocturne qui m’a privé pour l’étermité du désir de vivre.
Jamais je n’oublierai ces instants qui assassinèrent mon Dieu et mon âme,
et rêves qui prirent le visage du désert,
Jamais je n’oublierai cela, même si j’étais condamné à vivre aussi longtemps que Dieu lui-même. Jamais. 

 

Na tradução de Lya Luft:

 

Não esquecerei jamais essa noite, a primeira noite de acampamento que fez de minha vida uma longa noite sete vezes amaldiçoada.
Não esquecerei jamais essa fumaça.
Não esquecerei jamais os rostinhos das crianças cujos corpos se transformaram em volutas de fumo sob o azul mudo.
Não esquecerei jamais as chamas que consumiram para sempre a minha Fé.
Não esquecerei jamais esse silêncio noturno que me roubou para sempre a vontade de viver.
Não esquecerei jamais os instantes que assassinaram o meu Deus e a minha alma, meus sonhos que viraram areia no deserto.
Não esquecerei jamais aquilo, mesmo que seja condenado a viver tanto tempo quanto o próprio Deus. Jamais.

 

A negação dupla (Jamais je n’oublierai) encontra-se a aterradora imagem de algo que não se pode deixar pelo rio Lete. Não se trata simplesmente de rememoração como negação explícita do esquecimento, mas de uma necessidade ético-existencial impossível de ser abandonada pelo eu lírico, o qual se confunde com o próprio poeta pelo caráter testemunhal. Mais do que evidenciar o imperativo de todos se lembrarem num esforço coletivo de jamais deixarem de repetir e narrar a história, reforça-se o próprio pesadelo vivido como rememoração interminável, de maneira que o trabalho do luto jamais se conclui.

Num paradoxo absurdo como o evento que aponta (a Shoah), é sempre preciso não esquecer nunca das crianças virando cinzas frente a impassividade dos céus e de Deus, que nada fez para proteger seus milhões de filhos. Contudo, ele não o fez porque ele próprio, que vivia na rememoração daqueles que se acreditam seu povo, estava sendo morto no aniquilamento de Seus filhos. O judaísmo (e o cristianismo) é uma religião da rememoração, lembrar-se de Deus sempre faz com que Deus jamais se esqueça dos filhos. Mas e quando os filhos são mortos em massa? E quando se reduz a quase zero a possibilidade da rememoração? Como poderia ser Deus lembrado? Também Iavé fora assassinado.

A areia do deserto é a cinza que se eleva no vento, apagando os traços das passagens das pessoas aniquiladas pela “solução final”. Contra este apagamento, ergue-se o poeta pelo poema, que deverá se repetir pelo tempo do divino (eternamente?), a única duração capaz de purgar tamanha calamidade. Jamais deixar de repetir, jamais deixar esquecer, com lembrou Harald Weinrich, não é o mesmo que ativar uma arte da memória, mas sim uma faceta angustiante do próprio esquecimento. Este, por mais estranho que seja, seria como uma Graça se afinal o poeta pudesse deixar de reviver como poesia/memória a dor física e espiritual que passara. Sua tentativa vã de testemunhar pelas outras testemunhas, as ‘verdadeiras’, ou seja, aquelas que morreram no inferno nazista, coloca-no na posição de dizer que os outros morreram lá nos campos. O eu lírico é menos importante por atestar a sua sobrevivência do que por apontar a morte dos outros, estes sim mudos e desaparecidos.

O poema é então um túmulo aberto, não um monumento ou lápide. É um revirar de ossos para perturbar os vivos com sua vergonha. O poeta que jamais esquecerá, que jamais deixará ninguém esquecer, condena-se a viver o pesadelo, pois, se para a memória do coletivo dos mortos é preciso perturbar aos vivos com as areias da história, para o poeta significa mergulhar no turbilhão da dor, evitando justamente o alívio do esquecimento. A poesia é aqui então, transformada em maldição!

Graças aos deuses, ao contrário de Celan, Wiesel não se matou…


Mil arthurs…

Os romances históricos são empolgantes pela forma de criar curiosidade sobre o que de fato pode ter acontecido numa determinada época. Caso o livro se debruce sobre algum tema cuja base do que se sabe dele seja alguma narrativa mágica, tal como a lenda do rei Arthur, e se o texto não tem pretensões históricas, ficamos satisfeito com a ficção que não se quer nada mais do que um novo relato da lenda. A magia, e sua capacidade tão próxima da ficção de nos livrar das amarras da visão naturalista ou (mais recentemente) digital do mundo, sempre parece no lugar certo em lendas, mitos e velhas estórias dotadas de valores perdidos e alguns que ainda compartilhamos.
Acabei de ler O Inimigo de Deus, segundo volume das Crônicas do Rei Arthur, de autoria de Bernard Cronwell, um romance histórico diferente as narrativas mágicas ao tentar criar uma versão baseada nos levantamentos de pesquisas históricas e literárias sobre Camelot, Excalibur, Merlin, Lancelot, Merlin, Guinevere, Morgana, Arthur, e outros. Isso significa que estamos longe da tentativa de criar uma magia realista como ocorre no filme Excalibur, de John Borman, de 1981, um dos filmes da minha infância, no qual Arthur, Lancelot, Merlin, Morgana e Guinevere são belos e extraordinários e no qual a busca do Graal rendeu ao cinema um dos seus mais belos momentos míticos quando Persival, o mais puro dos cavaleiros o encontra, e ele, nu, dá de beber do cálice sagrado ao seu rei e o restaura.

Estamos longe do anime japonês quie criou uma das Morganas mais assustadoras que já vi. Nunca esqueci quando os cavaleiros mostram o olho de dragão roubado aos monstros da bruxa, cuja luz os destrói. Estamos longe também dos quadrinhos da DC, no qual Merlin é filho do demônio e oferece sua ajuda a Arthur, ou daquele releitura oitentista, a Camelot 3000, bem ao gosto do decadentismo da década de Margareth Tatcher, no qual Tristan reencarna como mulher e é obrigado a virar lésbica (o), que Merlin é capturado, Arthur, novamente, corneada, Morgana está com câncer e a Inglaterra está arrasada.
Em todas elas haviam constantes: a traição de Arthur por seu melhor amigo e sua amada esposa; a busca do Graal; Merlin sempre extraordinário e terrível; a espada mágica, um falo superpoderoso do rei; e Morgana, a inimiga.
Em termos de romance, a estória de Marin Zimmer Bradley ainda permanece mais original, embora talvez, menos excitante, em comparação com os livros de Cronwell. As Brumas de Avalon é uma visão feminina da lenda, que concatena o romance antigo em todos os elementos só que agora ressignifica-a segundo os mitos celtas da Grande Deusa, que fez de Morgana a protagonista, uma vilã que foi a maior aliada, amor e inimiga de Arthur. Sua maior originalidade está no ponto de vista feminino, o qual, curiosamente, só é possível, quando se torna o cristianismo como adversário, tirando da lenda mais comum sua caracterização extremamente cristã. E este é o outro ponto de ousadia maior. As Brumas, não tinha interesse histórico. Pelo contrário, mais parece obra de uma escritora que re-leu, pelo olhar feminino O Senhor dos Anéis, e absorveu a compreensão de magia que ali havia, tornou todos os homens ali como personagens secundários, e fez de Igraine, Viviane, Morgana, Morgause e Guinevere as protagonistas. A magia é como o poder do corpo que se faz em silêncio, já nos mostrava Tolkien, de vez em quando com um pouco de luz, névoa, visões, empurrões ou vontade. Magia é sobreposição de vontade, Bradley também aprendeu com Tolkien. Ainda não esqueci imagens poderosas: Viviane sendo morta na frente de Arthur ou Mordrer e Arthur lutando enquanto suas espadas atravessam o espectro de Morgana.
Como tinha muito de masculino nas lendas de Arthur, havia menos de masculino nas Brumas, e por isso o livro parece aquém do que deveria ser.
Curiosamente, nas tramas de perspectivas masculinas, o centro da trama geralmente são Merlin, Arthur e seu infinito amor por Guinevere. E claro a traição desta com Lancelot que deflagra a decadência que torna obrigatória a busca do Graal. Cronwell não muda isso, mas seguinda a esteira de Bradley olha a lenda pela chegada do cristianismo, torna-o um dos vilões da estória, evidencia o fanatismo religioso como um problema, e coloca a velha religião celta na defensiva contra o Carpinteiro pregado na cruz.
Só que As Crônicas do Rei Arthur nos perturba por colocar em evidência seu esforço a um só tempo historiográfico e anacrônico: tentando colocar o que se sabe sobre que realidade poderia ter existido, ele se aproxima do mundo medieval, e, em posfácios e notas, nos alerta para que personagens poderiam ter existido, ao mesmo tempo que aponta seus anacronismos, seus acréscimos. De maneira que sabemos que se tivessemos a História original, não teríamos a história em romance. Vemos um livro que ao dizer que não é histórico, nos faz pensar na História.

E aí sabemos que personagens desaparecera (como Derfel, o narrador de Cronwell), que Arthur provavelmente foi pagão e era odiado pelos cristãos, que provavelmente a busca do Graal nasceu da busca de um Caldeirão mágico (tema caro aos mitos celtas), que Nimue era a versão original de Viviane, que Lancelot, Tristan e Isolda não devem ter sido contemporâneos de Arthur, que Excalidur não era Excalidur, que Merlin provavelmente era um druida sacrificador de seres humanos e que os pagãos eram tão sujos, imundos quanto os cristãos.
Cronwell destruiu a leveza do mito, que Bradley deixara intacta, pois suas mulheres tinham de ser tão extraordinárias quanto seus homens. Agora, na dureza do fedor, apenas Arthur permanece inteiro como um rei que nunca foi rei, líder extraordinário, mas, ainda, perdidamente apaixonado por Guinevere que se entrega a Lancelot, agora inimigo de Arthur que se deixou fingir de amigo. Explicando-nos tudo, Cromwell cria uma trama excitante (que inclusive não me deixou estudar), e apresenta-nos uma visão que, como sempre, mais nos revela sobre nossa época do que sobre o passado. Ou sobre a lenda!
A religião vira uma fonte de problemas, o fanatismo é tratado como uma imbecilidade flagrante, Arthur vira quase um precursor democrata, e a magia é quase esvaziada, exceto pelas manifestações de êxtase (o êxtase é sempre uma coisa perturbadora para qualquer escritor que se preze e não se deixe enganar pelo discurso psiquiátrico).
O melhor d’O Inimigo de Deus são três ocasiões: a busca da Estrada Escura, na qual o Caldeirão é encontrado, a surra de Mordrer por Derfel logo após Lancelot o trair e a conversa de Nimue com Derfel sobre a traição de Guinevere. Esta última é uma leitura atenta das personalidades. Novamente o nosso tempo: traidora, mas não prostituta. Coisa aprendida com Bradley: quando uma mulher deseja como homem, faz como um, e continua sendo mulher, ela vira prostituta (ou bruxa). E o autor nos explica o que aconteceu com as vilãs femininas da lenda medieval e de como nosso mundo reescreveu a história.
Entretanto, As Crônicas do Rei Arthur, há algo que é inovador em relação a todos os outros: a desmistificação de quase tudo que era sagrado, inclusive da realeza de Arthur, a revelação de um mundo cru que pode ter sido a época vivida. Mas romances históricos, revelam mais de nosso tempo do que do passado: a crueza do mundo e a débil magia ali presentes revelam o quanto nossa imaginação gosta de aterrissar nossas lendas, o quanto queremos também saber o que pode ter sido, porque a lenda em si já não nos parece mais trágica o suficiente. Temos de tragificar nossas crenças porque é uma das formas pelas quais lidamos com o mundo.
E mesmo assim, algumas narrativas permanecem: o fascínio de Arthur é pelo imaginário que o fez mágico e de continuar nos encantando, por mais histórico que seja. Mais histórico, mais imperfeito! Mais gente?! Ele sempre o foi, mudou a forma como queremos que nossos personagens correspondam às nossas imperfeições.


Sidarta e a palavra inútil

Terminei “Sidarta”. Terminei meu primeiro romance de 2007. Livro fácil e bem escrito, pacifista, e que segundo me parece tem uma visão não muito mítica do Buda, mas concebe sua estória em esquema mítico, com todas as decidas ao inferno que deve passar o herói antes de sua iluminação. Ainda que sem privilegiar o mito, o livro de Herman Hesse tem um final curioso, quase anti-clímax, no qual Sidarta explica a Govinda o que pensa do mundo. Suas palavras dão voltas e o próprio personagem afirma que as palavras são falsas, que não dizem o que importa, o essencial é incomunicável, apenas vivível. Mesmo o Nirvana pouco diz como antítese da Sansara.

É evidente contudo que, ao final do livro, narrador e personagem (e ouso arriscar, o próprio autor) têm uma “mensagem” ou interpretação unívoca sobre o que Buda representa e o que pode ser dito. A materialidade da existência em seus terrores é aceita e a superação de tudo isso, a saída da sansara é a aceitação, a certeza de que o tempo é uma ilusão e que a única forma de destruir o ego é aceitando sua mesquinhez frente as contradições do mundo. Assumir seu diminuto, seu papel de fluxo, mas jamais de inexistência passada e existência futura, pois tudo é sempre agora. Não há tempo pois tudo está sobreposto no instante, tudo é único.

Que seria pois o “nirvana”? O que Hesse faz é mostrar que a iluminação de Sidarta nada tem a haver com um instante de Graça, pois essa seria uma interpretação ocidental, mas com uma percepção e sentimento concomitantes. E este estado é incapaz de vazar às palavras, de se apresentar ou dizer, por isso Sidarta jamais se propõe a seguir doutrinas religiosas.

Só que a pergunta sobre o que é essa iluminação intermitente persiste. As perguntas essenciais da filosofia se perdem frente a grandeza de Buda, que carrega no gesto, no olhar, no tom de voz e na respiração sua própria luz. Sidarta era carismático, por isso seria seguido. A palavra é fraca e inútil frente ele, o essencial é não verbal.

A pergunta suprema (e ocidental) seria a seguinte: que vem depois da morte? A resposta de Buda é apenas inferencial para quem lê o romance, mas diria que seria um “não importa!”. Aos mortos seus assuntos e aos vivos os deles. No caso de Sidarta, parece que só os assuntos dos vivos podem lhe interessar. O nirvana é do reino sublunar!

Mas pelo visto há tantos budismos. Apenas uma cabeça alemã e ocidental poderia abraçar o que do budismo há de mais racional e desmistificar o mito. Falta ainda uma bela visão ocidental sobre o mito para contrabalançar.


Mar de Bethânia

O mar, outra imagem do tempo. Quem viu o mar sabe, viu o brilho de Poseidon ou os cachos brancos de Iemanjá. Bethania canta ao mar da Rainha do Mar:

Onde ela vive? Onde ela mora?Nas águas, no roca de pedra, num palácio encantado no fundo do mar!

O que ela gosta? O que ela adora?

Perfume, flor, espelho e pente, toda sorte de presente pra ela se enfeitar!

Qual é seu dia, Nossa Senhora?

É dia 02 de fevereiro quando na beira da praia eu vou me abençoar!

O que ela canta? Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita, chora quando fica aflita se você chorar!


Voltando à terra

Minha paixão agora é Mia Couto. Eu o acreditava mulher e o descobri homem. Mais do que isso o descobri imenso, mais do que lembrava. Desde que o via no perfil de Árbole ele me encantava com sua visão do tempo, desse eterno passar, pela atenção ao transcorrer.
Agora volto de uma viagem a um país distante, renovado e saudoso. Nos dias ordinários vejo, no véu do mundo, onde quero ir, se quero ir, quais são meus caminhos. Oscilando entre vigilia e devaneios tateio as veredas. Eu que já nasci árvore, tecendo plantas e olhares em todas as direções. Meu nome quer passear pelo vento…

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidênciapara que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combate
sem que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser onteme é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome
(Mia Couto)