“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Imagens fotos e pinturas

a peripécia de Antonioni

Poderia iniciar um delírio sobre a força e o impacto original de Blow Up e como Antonioni levou, num filme antológico, a questão da visualidade e da noção de verdade nas imagens ao nível do sublime.

Os anos passam e Blow Up melhora. Achei uma pequena imagem do protagonista investigando com uma lupa a foto na qual ele acidentalmente descobriu uma cosia intrigante que mais tarde ele descobrirá ser um cadáver. O interessante é pensar como a investigação numa foto transforma essa foto em algo diferente do que ela era originalmente e como o mundo vai sendo revisto e re-investigado conforme a foto original vai sendo deformada.

Quanto mais granulada se torna a investigação, mais assustadora é a trama envolvida e o filme inteiro se torna um enredo de uma das obsessões de Antonioni: a intriga do próprio olhar nas peripécias da imagem.

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Foto e lupa no filme, as imagens vão se reproduzindo umas nas outras conforme avança a investigação. E o mundo vai se  multiplicando em imagens.

Antonioni é a vida.


tarde no Guarujá

Num dia chuvoso do sul paulistano, desci a serra pouco depois de ter chegado a São Paulo. A garoa caia incansável, mas calma, sobre tudo, e algumas belas vistas ficaram melancólicas, correspondendo ao estado de espírito apaixonado e saudoso. Com a pequena e opressora máquina fotográfica do celular registrei alguns desses momentos.

A posse da máquina é dos mais cruéis incentivos que uma pessoa pode ter. Como ter uma máquina e não usá-la?! Como estar numa paisagem que aos olhos é extremamente visual e não pensá-la enquanto imagem, como imagem técnica, feita pela mão e pela máquina, como é o caso da fotografia? Ou da câmera de vídeo? A câmera nada devolve ao olho daquilo que ele viu. A sensação da visão é maior do que a de qualquer imagem, pois ela é carregada do tempo e do momento, do tato e do labor de estar por aí, transitando. Ainda assim qualquer um sabe que uma imagem pode mostrar novidades ou cria outras sensações.

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As fotos que tirei me fizeram lembrar os dias melancólicos de Santos, São Vicente e Guarujá. Prédios tortos, chuvas finas e constantes, saudades, a presença animadora e maravilhosa de Marcos das tempestidades a tornar interessante o que realmente o era (e a fazer suportar um peso que não era dele). As fotos me mostram também que o peso hoje adormeceu. É menor e menos impertinente. Novamente eis-me lentamente dono de mim sozinho, ainda que não seja dono de meu coração.

Mas fotos também me mostraram algo especial, me lembraram, melhor dizendo, a sensação de sentir a chuva finíssima e delicadamente fria na pele do rosto e no suéter, a necessidade de semicerrar os olhos para observar melhor e resistir às gotículas de água que o ar trazia maravilhosamente. E o dia, nublado e chuvoso, melancólico (pois não era somente eu que o estava) e perene parecia envolver o mundo em brumas. O litoral de São Paulo era um espetáculo com um mar revolto no Guarujá, onde, num alto morro pelo qual corria uma ruela que terminava num muro, literalmente á beira mar, tirei algumas das fotos que aqui mostro. E naquele instante apenas eu e Marcos estávamos lá. Apenas nós, o chão, as nuvens, a chuva e o mar.

De repente notei algo: onde estaria Marcos?! Procurei-o e só achei numa foto, a mais linda de todas. Nessa ele não aparece, mas como eu apareço, fora ele quem tirara a foto. Ele está presente enquanto autor da todo. Esta é para mim a foto mais linda, porque é a que me permite olhar o mundo num outro ângulo, rever minha memória daquele instante e escapar dela. Sair da certeza de que se a imagem não me devolveu nada senão minha memória, faz-me, num delírio megalomaníaco, ver que a foto é menos do que vi mas é mais do que o que eu estava fazendo. Ela agora é uma obra que me carrega um pouco.

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Estou no alto do muro do final da ruela que serpenteava o morro no Guarujá. O nível da foto, escura e pouco nítida devido as limitações da câmera, está exatamente no nível das ondas que se arrebentam longe numa praia requintada do Guarujá e cujo nome perdi da lembrança. Meus pés e o muro formam uma linha pequena junto ao mar e estou como que sobre as ondas de Iemanjá. A espuma branca são as madeixas escorridas de seu rosto ancestral, ou poderíam ser também as barbas igualmente velhas de Poseidon…

Por motivos pessoais, a foto me lembra um quadro de Goya, Coloso (1810-12), ou Pânico como ficou conhecido depois, mas cujo título original era simplesmente O Gigante, no qual um gigante literalmente colossal aparece ao horizonte e desespera a população. Queria ser o gigante de Goya e por isso a foto me encanta tanto? Ou me amedronta o próprio gigante? Mas a foto tirada por Marcos é radicalmente diferente. Nela há há pânico. E o sentimento, ele é diferente!

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Nascida aleatoriamente, ela me coloca como um gigante dentro da cena (ao contrário do quadro de Goya), pois terra e mar estão ao fundo. Não há desespero algum pois minha presença não é beligerante ou destrutiva (como poderia ser? seria uma image mentirosa, mas não menos real, se assim o fosse). Há apenas a bruma da chuva que tocava meu rosto e meu corpo, acariciando tanto a mim quanto a meu fotógrafo…e ao muro, às ondas e à praia. No final, chuva e bruma cobriam e misturavam na sombra única todos que apareciam e ou não na foto. Perguntei-me o por quê? “Ah”, percebi, “é por causa das nuvens!”. Elas estão quedadas na forma de névoa chuvosa e criam a liga de tudo que está lá. Todos somos um só nessa foto. E a foto deixa de ser limitada para ser magnífica. 

Curiosamente naquele instante, havia sido essa a sensação. A foto que me permitiu ver isso em cena. Eis sua incrível especialidade. O ponto em que abriu meu coração e me permitiu rever esse passado em imagem e ser outro, mais forte e mais ciente do que passara, do que vejo, do que imagino.