“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

História e doutorado

racialização no Brasil

É bom saber que afinal de contas algumas pessoas já estão chegando as mesmas conclusões que a gente. A professora da UFRJ Mônica Grin acaba de lançar o livro Raça: debate público no Brasil no qual ela fala da promoção da raça como operador político na conquista da cidadania no Brasil. Acompanhando a incorporação das questões raciais nas políticas públicas nacionais nos últimos dez anos, chega à conclusão de um processo de racialização.

Verena Alberti num artigo publicado na revista Estudos Históricos, se não falha a memória, já lançara a questão há alguns anos, refletindo sobre o debate de cotas raciais e o movimento negro. Alberti e Amilcar publicaram o excelente Histórias do Movimento Negro no Brasil, no qual este processo pode ser rastreado.

Cheguei à conclusões semelhantes em minha tese de doutorado (embora meu foco fosse na etnicidade), mas diferente destes interlocutores (só conhecia os trabalhos de Alberti) encontro as bases da racialização no Brasil ainda nos anos 1970, quando começa a introdução da raça como categoria política, um operador lógico que permitia o desenvolvimento de novos discursos que tentam reformular o campo sócio-cultural e político nacional.

Recentemente fiz uma conferência num evento no Piauí intitulada “Cultura Política, Artes e Raça no Brasil” na qual me debruço sobre essa questão de maneira direta, uma vez que a racialização do debate cultura brasileiro se faz paralela, e, talvez anterior à constituição do debtae político convencional. Ocorreu então uma politização da raça na cultura ainda nos idos da década de 1970. Algo que sociólogos e antropólogos como Antônio Alfredo Guimarães, Peter Fry e Yvonne Maggie já haviam alertado.

Bom saber que estamos falando de coisas próximas e convergindo em algumas conclusões. Tenho de publicar a tese…


o lado certo!

Li isso hoje e não podia deixar de escrever aqui, de pensar a respeito. Comentava o filósofo Vinicius de Figueiredo o extraordinário livro Crítica e Crise, de Reinhart Koselleck, obra que tenho batido cabeça tentando compreender.

Atualizando o debate de Koselleck, que se inseria no bojo da guerra fria dos anos 1960, o autor aponta as opções políticas dessa época: o capitalismo liberal e o socialismo marxista. Do lado destes últimos, e nisso concordam quase a unânimidade dos marxistas, de Michel Lowy a Fredric Jameson, de Nikos Poulantzas a Adam Schaff, estaria a moral e a verdadeira crítica, uma vez que seria óbvio que a causa operária era O lado certo a ser seguido por qualquer política que se pretendesse ética.

É no que Figueiredo, seguindo Koselleck, escreve:

“Pois ao efetuar-se em nome da crítica, esse exercício não quer se isentar de todo julgamento propriamente político? Com efeito, não são outras as prerrogativas do governante neocrítico: embora lance mão dos expedientes mais tradicionais da política; justifica-os por estar do lado certo da história; compondo com o que diz ser o que há de refratário na vida pública, alega fazê-lo em nome da emergência do novo; e, quando desqualifica seus oponentes como visionários que ignoram aquilo que afinal está em jogo, define a política como a arte do possível”.[grifos do autor]

A clareza de uma definição da postura arrogante de um certo marxismo aqui foi qualificada com precisão. Nada contra o marxismo em si, mas sim contra seu pretensão de se constituirem no “lado certo” que para se efetuar pode usar de qualquer artimanha.


Johann Martin Chladenius

Tomei como desafio escrever sobre alguns caras. Serão um conjunto de posts chatos para os que não são historiadores e até para estes. Mas como preciso exercitar minha escrita historiográfica pensando em interlocutores reais aqui vai.

Começo por um cara que nunca li Johann Martin Chladenius, filósofo do século XVIII, e um dos mais importantes introdutores de nossa querida história como a pensamos hoje por ter entrado na questão do ponto de vista. E o que ele fez de mais? Simplesmente ele alargou a perspectiva testemunhal para o próprio historiador, fazendo-o perceber que era dotado de um ponto de vista.

Quando começa o século XVIII as histórias confiáveis eram aquelas baseadas no testemunho ocular e auditivo de quem estava nos eventos. Como a obrigação da história era ser verdadeira, só haveria história verdadeir se houvesse testemunha. Chladenius ainda trabalhando a partir dessa forma de pensar a verdade, considerou que as histórias eram velhas a partir do momento em que não houvesse mais testemunhas sobre os eventos. Ou seja, mesmo que estivessemos aqui comentando as chuvas no Maranhão, se de repente todos morressem e não sobrasse quem contasse a história (pois só havia história se ela fosse contada), ela já seria velha.

O filósofo partia da noção de que é o espaço contemporâneo da experiência é o centro das histórias, ou seja, o testemunho é elaborado a partir de alguém que a vivenciou contemporaneamente o evento. Todo relato que se fazia era fragmentado, fraturado pela perspectiva de quem relatava. Assim era perfeitamente possível que duas pessoas distintas advogassem “a” verdade para seus testemunhos. Como não é possível dizer que não há verdade nos relatos apenas porque são diferentes, Johann Martin Chladenius concluiu que: 1) todo julgamento é relativo a perspectiva de uma experiência, pois conhecemos uma coisa de uma maneira x por causa do ponto de vista que possuímos; 2) a perspectiva da investigação histórica usa por base a análise do testemunho e uma vez que as circunstãncias nas quais se deram os acontecimentos não podem mais ser recuperadas o ponto de vista limita a testemunha e por tabela o historiador.

O historiador assim teria que recortar entre testemunhos, escolher, abreviar, sintetizar, o que implica que ele deve interpretar o que encontra. As histórias escritas pelos historiadores então são dotadas de verossimilhança montadas sobre interpretações que tencionam a verdade, a forma particular de verdade da história.

Ou seja, Johann Martin Chladenius inseriu o ponto de vistra na história e deixou evidente que ele antes de abater a força dela, era uma de suas forças. Afinal, não se pode obter imparcialidade sem ter um ponto de vista e nem se imparcialidade pode significar a ausência de ponto de vista. O homem simplesmente deixou claro que ao formar um juízo de algo sob um ponto de vista a partir de um ponto de vista não é o mesmo que imparcialidade. A análise das fontes garante que o ponto de vista não possa ser o mesmo que parcial pois as fontes limitam o que um historiador pode dizer a respeito do que ele estuda. Um historiador não pode simplesmente dizer que o Titanic não afundou já que os restos do navio e os testemunhos diversos provam o contrário.

Chladenius mostrou que o historiador não era imparcial a partir da própria parcialidade de suas fontes, mas sua interpretação permitia que avaliasse causas, montasse circunstâncias dos acontecimentos, e construísse sistemas cabíveis ao que descobria. A partir daí, como coloca Koselleck, o historiador podia fazer considerações além de suas próprias histórias sobre os próprios pressupostos de todas as histórias. E assim estava montado a base da filosofia da história do XVIII.

Chldenius refletiu sobre as condições do conhecimento histórico e reinaugurou uma proposta de teoria da história.


tão perto e tão longe

Estava eu a pensar sobre a relação entre minha pesquisa de doutorado e os estudos culturais. A resistência que tenho aos estudos culturais possui duas origens: a primeira devido a minha trajetória como estudante de cinema, sempre preocupado em como as dimensões estéticas se fazem históricas e historicizáveis (não estou aqui apartando a estética da história, mas seguindo a boa definição de simbólo de Ricoeur, o símbolo é transcendental e a estética tem que dar conta minimamente disso), segundo ao fato de que eles sempre me pareceram imediatos demais em suas conclusões.
Hoje reconheço que houve uma sensível modificação na qualidade dos estudos culturais e que se passei a ler muito mais sobre eles por causa do doutorado, as semelhanças começaram a ficar gritantes entre o que me proponho a fazer e o que eles se propõem. Hoje lendo um livro magnífico chamado Reis Negros no Brasil Escravista, de Mariza de Melo e souza, ficou evidente o limite de minhas preocupações, as aproximações e semelhanças que escreverei aqui para não esquecer.

Por uma lado aproximo-me tanto dos estudos culturais que se fosse dois anos me envergonharia. Lido com questões como identidade, representação, etnia, negritude, cinema, etc. Isso é tão sério que pensei realmente que os estudos de Robert Stam e Ismail Xavier seriam os definitivos sobre os temas que me preocupavam. Nada como a antropologia para nos afastar das análises ricas, porém positivas demais dos estudos culturais para me fazer compreender algumas coisas. Nada também como a história social interessada na etnia e na configuração do campo religioso no Brasil para devastar fáceis achismos.

Ora, os estudos culturais deixaram-me claro que ao lidar com identidade e cinema, o filme era em si o terreno das contradições por excelência. Mesmo quando pensando coisas altamente complexas como a composição polifônica dos textos midiáticos (Robert Stam), ou a construção de contra-discursos dentro de um mesmo texto (Ismail Xavier) ou a composição ideológica contraditória de filmes (Gina Marchetti), parece-me que há um apego ao que chamarei aqui, por falta de termo melhor, de dimensão imanente do filme (pego aqui o termo por tê-lo ouvido de um aluno da USP empolgado em complicar o que pode ser mais simples) tornou o texto superpotente e capaz de abrigar o processo pelo qual a recepção pode construir multiplas leituras de um mesmo filme.

Esse apego tem uma história que está na raiz dos próprios estudos culturais. Da passagem de suas origens com Raymond Williams, Edward Thompson e Richard Hoggartz até as primeiras elaborações de Stuart Hall, o estudo da cultura de consumo passou da destruição do texto como forma ativa sobre espectadores passivos para um espectador ativo que subvertiam os textos com suas leituras na vertente sui generis de estudos culturais nascidos das análises de Michel De Certeau. Hall, em especial, reconstruiu o modelo dessa nova proposta disciplinar em Codificação/Decodificação propondo uma nova teoria da comunicação, na qual a recepção é uma reconstrução textual e na qual isso ocorre porque o texto em si é contraditório, abarcando outras o campo da briga das ideologias em busca de hegemonia, no que se faz sentir Gramsci. E é neste texto ideal que abarca as contradições em sua própria estrutura – no Brasil exempleficado a perfeição (sem influência de Hall até onde lembro) por Ismail Xavier em Sertão-Mar – repousa o apego a dimensão da imanência.

Meu afastamento começa por ai. Na verdade a idéia de um texto imanente começou a ser questionada a partir de meu pensar sobre a metodologia estruturalista e do narrativismo cognitivista. Comecei a colocar que o texto possui uma dimensão imanente sem dúvida, mas existem um conjunto de categorias culturais (entre elas as de etnia) que não podem ser abarcadas pela composição textual que abarca polifônicamente as vozes sociais que entram em conflito no filme. Hoje, parece-me que existem vozes que entram em conflito no filme porque entram em conflito fora deste, ou explicando melhor: é na relação com uma audiência que questiona uma imagem num determinado sentido que faz com que aquele texto passe abarque uma nova dimensão. Nenhum texto é capaz de conter em si todas as dimensões sociais que frequentemente que espectadores e analistas procuramos.

Neste caso a imanência é parte da composição da significação social de um dado texto (e da significância para usar um termo “barthesiano”) mas não só não a resume, mas justamente por não conter algumas categorias que não atendem a determinados interesses sociais, mas estes se constroem numa relação representacional. Trata-se de colocar a imanência, talvez dentro da relação social. Ela encontra sempre uma barreira no limite, algo que se oferece como horizonte que a torce: a imagem e sua abertura visual. Eis meu afastamento inicial e concreto dos estudos culturais.


historiografia brasileira e os “loucos” da teoria – II

Quem faz teoria da história no Brasil? Durante muito anos praticamente só José Honório Rodrigues e Ciro Cardoso escreviam sobre o tema. Havia e sempre houve outros escritos aqui ou ali, mas era Rodrigues, cujas publicações são antigas, e Cardoso, mais recentes, quem mais escreviam sobre o tema. Do último o maior exemplar de sua contribuição no momento do boom do que estou chamando aqui de “clareira” de discussão teórica no Brasil, a partir dos anos 1980, o famoso Ensaios Racionalistas (1988). Antes haviam seus famosos manuais, mas Cardoso escrevia sobre classes sociais, modos de produção, etc. E praticamente só ele.

A provável solidão de Cardoso é indicativa de que se se escrevia pouco sobre teoria e metodologia da história no Brasil, escrevia-se menos ainda. O grande ausente nessas discussões era sem dúvida a epistemologia da história. Quase ninguém escrevia coisa alguma. Todavia fora do país rolavam altas discussões que eram conhecidas por inúmeros historiadores locais. A partir dos anos 1980 Francisco Falcon, Ciro Cardoso , Arno Wehling e alguns outros começam a explorar os sentidos dessa bibliografia, que desde finais dos anos 1960 colocava a própria história em cheque. As traduções de textos teóricos chaves da nova História como História: novos temas, abordagens e objetos (publicados nos anos 1970, mas cujo impacto só se fez sentir na década seguinte), além de artigos e livros a partir dos anos 1980 de Carlo Ginzburg, Roger Chartier, Robert Darnton, Michel De Certeau, Edward Thompson, Peter Burke, Michel Foucault e na década seguinte das obras de Natalie Zenon Davis, Hayden White, Paul Ricoeur e tantos outros, colocou em novo patamar a discussão de epistemologia da história e do que podemos chamar aqui de teoria da história hard.

Todavia a maioria das vezes, como colocado anteriormente, não havia um exame aprofundado dos temas, mas sim compêndios que realizavam avaliações transversais sobre as temáticas dominantes e em geral publicados primeiro na forma de revista: assim eram os famosos dossiês publicados na Revista Brasileira de História, Estudos Históricos, Tempo, Revista de História, quando finalmente apareciam no Brasil textos de autores de quem primeiro só se ouvia falar e que mais tarde tiveram textos traduzidos no Brasil (caso de Hayden White e Reinhart Kosseleck – este só muito recentemente) ou aqueles que nunca seriam traduzidos exceto um ou outro (como Dominick LaCapra). Eram dossiês sobre “Teoria da História”, “Historiografia Brasileira”, “História e Literatura”, “História das Idéias”, “História e Narrativa”.

Nos anos 1990, principalmente na segunda metade da década surgiram as coletâneas, da qual a mais emblemática (todavia das mais superficiais) foi a Domínios da História, organizado por Ronaldo Vainfas e Ciro Cardoso, mais um manual na linha já feita por estes últimos. Todavia outros começaram a lançar suas contribuições como as organizadas por Jurandir Malerba: A Velha História: teoria, método e historiografia (1996); Representações: contribuições para um debate transdisciplinar? (2000), organizado junto a Ciro Cardoso; e o recente A História Escrita: teoria e história da historiografia (2006).

Fique claro que Ciro Cardoso continuou lançando seus livros de discussão teórica entre os quais Narrativa, Sentido, História (1997) e mais recentemente, Um Historiador Fala de Teoria (2005). Todavia, enquanto o debate se ampliava em muitos sentidos, Cardoso construiu uma trincheira anti-pós-moderna, na qual está acompanhado de muitos historiadores como Ronaldo Vainfas e Jurandir Malerba. Essa trincheira evidencia um dos caracteres primários da maioria desses compêndios: o seguimento de uma linha de afinidades teóricas nas quais os debates sempre se constroem frente um “outro” de quem querem se afastar teoricamente.

Num “vício” estranho o exame vertical e exaustivo de uma questão por si só é substituído pela afinidade transversal e exames cuidadosos, todavia que jamais vão muito além do que a reunião de artigos sobre um mesmo tema. Servem como portas para as discussões, mas jamais as exploram plenamente.

Os anos 2000 são marcadas por mais alternativas. Das trincheiras anti-pós-modernas abriram-se espaços para discussão da nova história cultural, discutida de forma qualquer coisa obtusa, quando sozinha e apesar de sua incrível erudição, pela sua maior “publicitária”, Sandra Pesavento. Todavia, essa autora organizou compêndios que apresentam muitas reflexões teóricas de diversos autores, numa lista quase interminável, tais como Leituras Cruzadas: diálogos da história com a literatura (2000); História Cultural: experiências de pesquisas (2003); História e Linguagens: texto, imagem, oralidade e representações (2006); Imagens na História (2008), organizado junto a Alcides Freire Ramos e Rosângela Patriota. Estas e outras coletâneas não discutem propriamente a teoria da história mas flertam com ela.

Outras coletâneas mais concisas na direção da teoria hard da história são Estudos Sobre a Escrita da História (2007), organizado por Luis Manoel Salgado, e a obra individual de Durval Muniz, História: a arte de inventar o passado (2007). A reflexão deste todavia vai noutro sentido completamente diferente, pois partindo do horizonte tão-chamado pós-estruturalista, constrói uma proposta historiográfica ampla que faz reflexões alternativas as lugar comum das reflexões teóricas brasileiras.

E o que seria esse lugar-comum. Diria que parece ter cinco características principais: 1) reflexão teórica ligada a herurística e propedêutica historiográfica; 2) reflexão transversal marcada mais por exames pouco verticalizados das questões teóricas; 3) pouco debate teórico devido a demarcação entre horizontes teóricos “inimigos” e não debatedores ou mesmo “adversários”; 4) personalismo; 5) falta de maturação dos temas. Os dois primeiros já fora em alguma medida explorados. Já o terceiro conforma os debatedores dentro de posturas obtusas. Marcado por ataques constantes, o mundo chega a ser dividido entre racionalistas iluminados e irracionalistas obscurantistas como ocorre na abertura de Domínios da História. A posição de Cardoso neste ensaio é emblemática: de um lado há uns certos e outros errados e como a designação pode ser dada de forma sumária, sem compasso de compreensão, fica evidente que se trata de um vício.

Senão vejamos exemplos das características do debate brasileiro:a cruzada anti-pós-moderna assume várias roupagens como nas coletâneas Representações e A História Escrita. Em ambas é demarcado claramente um universo a ser rechaçado: o que podemos chamar de o horizonte “textualista” que tem em Hayden White, Jacques Derrida, Michel Foucault e Richard Rorty seus defensores. Na primeira coletânea, o conceito de representação é abordado segundo várias perspectivas que fazem exames em alguma medida aprofundados, mas que não têm a mínima intenção de propor uma exploração exaustiva do tema. E justo historiadores acostumados a fazerem levantamentos exaustivos de fontes. Basta detectar algum elemento: os limites do textualismo, os limites do conceito de representação, as possibilidades (ou não) oferecidas pelo modelo sociológico de Norbert Elias ou pelo pragmatismo de Rorty, etc., que o texto não passa disso. Trata-se mais de dizer que Elias é melhor do que Rorty (de fato é, mas não vem ao caso aqui) e do que Chartier e mostrar o porquê que se está satisfeito. Todavia um exame acurado da questão não ocorre. A coletânea inteira marca uma questão “adversária” que não é acompanhada pelo exame desta no universo teórico no qual ela é formulada.

A segunda coletânea é marcada pelas mesmas características. Ela permite todavia observar o rechaço do maior inimigo da historiografia anti-pós-moderna: Hayden White. Republicando um texto clássico de White e de Ginzburg no qual a questão da validade de narrativas históricas sobre eventos considerados limites, como o Holocausto, Malerba tenta dinamitar as propostas do primeiro via o ataque do segundo. White – não só ele – é a persona no grata de todos os compêndios e livros dedicaos a epistemologia da história brasileira e que de alguma forma estão ligadas a figura de Ciro Cardoso. Nenhum deles, todavia, fez um exame acurado, sequer uma resenha ampla das idéias do próprio White fazendo avaliações críticas ponto a ponto. A despeito do smuitos pontos criticaveis na obra do crítico americano (conceito de fição, idéia de eficácia da narrativa, enredamento como responsável pela explicação historiográfica, etc.) um exame vertical de sua tese é inesxistente na teoria da história escrita no Brasil, seja pelo lado de seus detratores, seja do lado de seus defensores.

O que vale para White, vale para quase todos os autores estrangeiros ou nacionais. Não há exame profundo, apenas observações, muitas delas muito ricas, sobre as idéias das quais se quer exorcizar ou apoiar. Exceto em alguns pontos da própria obra de Cardoso o exame em geral, é viciado e frequentemente resvala no personalismo, no ataque a integridade ética dos autores discutidos. Esse tema foi denunciado por Durval Muniz em texto publicado na coletânea organizada por Manoel Salgado citada acima.

O grande problema neste sentido é a ausência de amadurecimento das discussões. Mal os brasileiros se apropriam da história das mentalidades e ela está obsoleta. Temos de dar conta da novidade e sua críticas, mas quando se trata de questões teóricas, algumas delas merecem um exame mais compassado e lento. Como poucos no Brasil realizam análises aprofundadas que crescem exponenciamento, ao menos do ponto de vista da teoria, no final das contas, não amadurecemos nossas próprias reflexões, pois mal nos recuperamos do pós-estruturalismo, já temos que saber o que é a nova onda hermeneutica francesa ou qual a contribuição dos estudos visuais americanos. E nos acostumamos a ficar repetindo essa forma de lidar com pensar teórico da história.

Quero aqui abrir duas excessões: as obras de João Carlos Reis e Luiz Costa Lima. Estes são os únicos epsitemológos da história que frequentemente fazem teoria da história hard no Brasil e não parecem dedicados a exorcizar algum inimigo público, apesar de cada um ter suas desavenças, como a de Lima com os estudos culturais. O primeiro por um interesse genuinamente filosófico sobre sua profissão de historiador. O segundo por ter encontrado questões da historiografia. Quando necessário a alguma questão mais importante com a qual encontram, ambos fazem exames mais contidos e desenvolvem uma obra ampla e importante. Em especial, a obra de Costa Lima segue como a mais original realizada no Brasil, num horizonte de pensamento próprio e que tira a história de seu próprio eixo sem igualá-la à literatura.

Outro nomes poderiam ser citados pois contribuiram grandemente para o debate teórico brasileiro: Michel Zaidan e sua Crise da Razão Histórica, (1989); Ronaldo Vainfas e seu Micro-história ou protagonistas anônimos da história (2002); História Cultural (2002), de Francisco Falcon, entre outros. Ainda assim são debates teóricos que examinam questões específicas que lidam com teoria da história, mas que não resumem a ela própria.

As considerações acima são bastante idiossincráticas. Nasceram de leituras que agora estou tentando sistematizar noutro sentido. Não carregam verdades, mas mais impressões. E trata-se de um quadro em mundanças…quem sabe o que vem do futuro?


historiografia brasileira e os “loucos” da teoria – I

Quero aqui fazer algumas questões sobre teoria da história e historiografia. São observações ainda me formação, por mais que parecam já acabadas em si. Elas contem trechos vulgarmente reduzidos de um artigo programado para publicação. Quantos pensadores temos no Brasil na área de História? Muitos. Quantos pensadores no Brasil se dedicam a pensar a teoria da História? Poucos, bem poucos. Destes, quantos se dedicam a escrever sobre o tema? Bem menos dos bem poucos, quase ninguém.

Se por um lado muita gente escreve sobre as influências teóricas de fulano ou sicrano, nossa tradição historiográfica é avessa a discussão teórica, talvez mais até do que deveria, uma vez que historiadores como profissionais parecem ser avessos a teorização. O que há muito no Brasil é resenhas de influências de importantes conceitos analiticos ou metodológicos que se tornaram importantes na historiografia brasileiras. Assim são mais comuns textos sobre cultura, circularidade cultural, micro-história, história vista de baixo, o conceito de experiência em Thompson, imaginário, representações, classes sociais, modo de produção, ideologia, consciência de classe, etc.

É algo comum no Brasil, então a feitura de textos do tipo “Norbert Elias e sua contribuição para a história”, “a reviravolta na história social pela história vista de baixo”, “o que é micro-história”, “o carnaval e inversão cultural na historiografia”, “o conceito de ideologia em Gramsci”, etc., enfim, as versões contemporâneas dos debates que seguem a velha tradição brasileira de só se preocupar com conceitos quando alguma coisa os torna problemáticos, principalmente num confronto com algum avanço bibliográfico estrangeiro. O exemplo mais famoso destes debates, entre tantos outros, é a lendária polêmica se o sistema colonial brasileiro era ou não uma forma de feudalismo, ocasião na qual de Fernando Novais a Ciro Cardoso a historiografia brasileira, aquela época bem mais interessada no Brasil colonial do que em outros tempos, se debruçou prontamente sobre conceitos variados como modo de produção, classes sociais, mercantilização e tantos mais.

Conceitos, só no que eles parecem estritamente necessários para construir uma rede de ligações entre os fatos observados pela documentação. Novamente o corolário pode ser aqui o do famoso sistema colonial brasileiro como voltado para o acúmulo de capital primitivo, tal magnificamente bem colocado por Novais décadas atrás.

Hoje as possibilidades de constituição de uma perspectiva historiográfica são variadíssimas pela quantidade de horizontes teóricos-metodológicos e por suas próprias variações internas. Assim um historiador “marxista” (as aspas correspondem aqui as autonomeações de cada um e seu choque com as minhas nomeações) pode trabalhar de maneira mais ortodoxa como Theo Lombarinhas, que segue as considerações de Antonio Gramsci e Nikos Poulantzas, ou seguir as trilhas abertas por Edward Thompson, como Silvia Lara ou Sidney Chalhoub. E assim podem ser tantos outros.

Hoje as idéias do grande Novais estão sendo sumariamente atacadas graças as novas pesquisas de historiadores do porte de um Luiz Felipe de Alencastro, que reescreveu o sentido da colonização em O Trato dos Viventes, ou de outros nomes não tão… “apoteocóticos” como João Fragoso e o próprio Lombarinhas. Novamente conceitos são visitados, mas sempre tendo como ponto focal o que as fontes permitem antever conforme as novas perspectivas hoje possíveis na historiografia.

Ao que tudo indica foi a apropriação de novas preocupações e temas na nossa historiografia o fato responsável pela melhoria de nossa atenção com discussão teórica. Sim, por mesmo em nível metodológico, foi quado novos temas, objetos, mais problemáticos que outros, foram incorporados, através de novas abordagens, que os historiadores começaram a pensar mais a respeito de suas práticas. A deixa poderia ser seguida através de alguns trabalhos chaves publicados nos anos 1980, os quais, cada um a seu modo colocou em questão novas preocupações que requisitaram um novo pensar teórico. Posso citar alguns, sendo injusto com tantos outros que não aparecerão aqui: O Diabo e a Terra de Santa Cruz (1987), de Laura de Melo Souza, talvez um das mais importantes reviravoltas na nossa historiografia; Rebelião Escrava no Brasil (1986), de João José Reis, uma redefinição dos trabalhos sobre a escravidão; A Invenção do Trabalhismo (1988), de Ângela de Castro Gomes. Haveriam outros tantos ainda tais como O Silêncio dos Vencidos (1981), de Edgar De Decca, Norte Agrário e Império (1984), de Evaldo Cabral de Mello, Do Cabaré ao Lar (1985), de Margareth Rago; Trabalho Lar e Botequim, de Sydney Chalhoub, etc.

Todavia parece-me que os três trabalhos citados são emblemáticos do novo momento, na medida em que, como pesquisas de história social lançaram-se ao mesmo tempo, primeiro numa revisão da própria historiografia brasileira ao retomarem cada qual de forma sui generis nossa tradição de lugares comuns historiográficos, e segundo, numa revisão de princípios teóricos. Relativo ao primeiro ponto ocorre uma retomada do debate com sobre da colonização, revisando a “visão plástica” do português de Sergio Buarque e Gilberto Freyre e o papel de negros e indígenas por Laura de Mello (embora seja mais evidente a complementaridade que haveria entre o imaginário paradisíaco de Sergio com o imaginário demoníaco colocado por Laura); uma ‘revisão’ sobre as posturas clássicas historiográficas sobre escravos e crioulos em diferentes niveis de interação na sociedade brasileira por João Reis; e a revisão do lugar comum da bibliografia da história republicana no primeiro abalo do populismo tão comum nas análises historiográficas, sociológicas e da ciência política por Ângela Gomes. Cada qual, por sua vez, mostrava a que veio com novas abordagens teóricas e metodológicas: Laura colocava em ação uma mescla tupiniquin de história das mentalidades francesa (já revisada criticamente e representada), a história das religiões inglesa e a micro-história italiana, representadas em sua bibliografia por nomes como Jacques Le Goff, Georges Duby, mas principalmente Carlo Ginzburg e Keith Thomas, além do largo uso de trabalhos antropológicos de Roger Bastide, Gilberto Freyre, etc; João colocava em ação as novas perspectivas sobre comunidades diaspóricas a partir das considerações sobre a crioulagem, estudadas nos EUA, aliadas a um uso sui generis das apropriação do cruzamento das idéis de Edward Thompson com a antropologia (também); e finalmente, Angela de Castro que usando da antropologia de Marcel Mauss (também) a Edward Thompson propós uma revisão teórica do populismo ao repensar o tal “pacto” a partir de considerações sobre apropriações das classes sociais.

Estes livros refletem (e ajudam a construir) o boom de revisão conceitual da historiografia brasileira que se tornou mais comum a partir dali. Como se lidavam com novos conceitos dado o flerte entre história social e análises da cultura como realizado nestes trabalhos, e novos conceitos com os quais os historiadores não estavam familiarizados, se tornaram mais comuns artigos dedicados a questões teóricas. Questões como mentalidades imaginário, circularidade cultural, identidade, práticas, representações, experiência, antropologia histórica foram se tornando mais e mais comuns. Não conheço, todavia um único compêndio dedicado a fazer exames exaustivos de qualquer destes conceitos. Os únicos que existem não fazem exames verticais, apenas um conjunto de considerações que se cruzam transversalmente (voltarei a este ponto).

Ainda assim e novamente era uma questão de melhorar o trabalhos com as fontes. Não parece que possa ser negado todavia que essa nova onda de trabalhos dos oitenta abriu uma clareira de discussão teórica no Brasil, colocando em ação outros pensadores preocupados com mais questões do que simplesmente as que dizem respeito a propedêutica do trabalho historiográfico. Essa nova clareira que foi lentamente lançando as bases de uma discussão de teoria da história do Brasil.


visualidade e visual studies ou como repensar meus horizontes teóricos

Atingido por mais uma de minhas indagações teóricas, repentinamente acho uma nova tradição, que é muito velha, na qual sem querer me filiei. Estava a pensar sobre a nova moda dos visual studies e sua recente propagação no Brasil. Assintido aula no ano passado de um professor de Pernambuco da comunicação o vi subscrever uma idéia que se tornou comum no Brasil ao reproduzir as perspectivas de Nicholas Mirzoeff, Joseph Mitchell e alguns outros estudiosos que os estudos visuais são uma ramificação do estudos culturais que institucionalizaram o estudo da visualidade nas academias ocidentais. Essa mesma idéia é defendida de forma difusa num texto interessantíssimo de Paulo Knauss.

Tal perspectiva causou-me estranhamento quando pensando minha própria relação com os estudos de imagens, ficava claro que a origem de minhas impressões sobre o visualidade tinham outra origem. Parei e pensei: quais origens? De certa forma ela era oblíqua pois se fazia tanto por leituras contemporâneas de pessoas como Jonathan Crary como de Ernest Gombrich, e não dessa vertente dos visual studies, que imperialistamente (não no sentido político) parecemn querer estabelecer um novo marco zero para os estudos de imagens dentro de um pretenso novo paradigma. Pensando mais um pouco minha formação remetia a outra matrizes as quais posso vulgarmente relacionar em torno de 3 horizontes: a) historiográfico, marcado pelos interesses da história das mentalidades e imaginário que não problematizavam o visual ou a imagem, mas forneciam novas direções; b) a teoria do cinema, que de Eisenstein, Vertov e Metz me conduziam a Gilles Deleuze e André Parente; c) finalmente a obra de Carlo Ginzburg que me serviu de porta para a história da arte no legado de Aby Warbug.

Explorando as duas últimas vertentes os estudos de, fica claro que embora não esteja denominado por este nome, a teoria do cinema desde Eisenstein constrói idéias sobre visualidades e explora seus limites. Mesmo suas ramificações mais obsessivamente paranóicas como os estudos do dispositivos à Baudry sobre influência de Althusser demonstram essa perspectiva. Aliás, como coloca Jacques Aumont a idéia de dispositivo relacionava “a imagem com seu modo de produção e com seu modo de consumo”, mostrando como a “técnica de produção das imagens” repercute nas apropriações destas. Eis uma das matrizes e um dos legados dessa fase desconstrucionista que repercute diretamente nos estudos visuais – não é a toa que em The Visual Culture Reader, Mirzoeff reservou um pedaço do seu calhaço aos antecedentes (não apenas desconstrucionistas) dos estudos visuais com trechos de Marx, Foucault, Althusser, etc.

Assim da teoria do cinema teve um impacto fundamental pois me permitiu rever o mundo enquanto imagem cinematográfica. O mais curioso é que a tradição da teoria do cinema dialoga com a filosofia há muito mais tempo e por isso as incrementações e refinamento das análises por vezes são invejáveis.

Todavia foram os estudos da história da arte os que sedimentaram alguns outros conceitos e aos quais, sem perceber me alinhavei mais no quesito pensar o mundo em função da visualidade. Tendo como mestre de cerimônias iniciais a obra de Ginzburg, fui (re) conhecer Erwin Panofsky (que já havia lido bastante), Ernest Gombrich e tantos outros. Sem perceber muitas filiações, encaminhei-me na leitura de alguns dos que trabalharam a partir do legado do Instituto Warburg lendo nomes variados como Gombrich, Ginzburg, Panofsky, Michael Baxandall, Georges Didi-Huberman, além ampliando minhas próprias impressões e a partir deles revendo muitas posturas.

Embora deva muito também a um conhecimento difuso assumido em disciplinas com Iara Lins e Etienne Samain na UNICAMP no qual estudamos a significação e visualidade através dos estudos de Jean-Pierre Vernant, Jonathan Crary, Roland Barthes e alguns outros, de fato, foram os estudos da tradição Warburg que mais me conformação uma visão concisa de visualidade.

Pergunto-me agora sobre o significado disso tudo. A melhor conclusão a que cheguei é que por mais que os visual studies estejam adquirindo uma tradição, o pensar da visualidade e da cultura visual ainda é mais claro nas tradições (principalmente as do que chamo aqui de horizonte Warburg) nas quais me formei, mais pelo refinamento de suas reflexões e menos pela boa vontade ou amplitude teórica (que é vasta nos estudos visuais). Existe na verdade uma tradição de estudos visuais, na acepção contemporânea, nesse “horizonte Warburg” e que formou uma concepção anterior de visualidade que rivaliza com as formulações filosóficas que seguiram de Sartre, passando pelo panoptico de Michel Foucault, aos estudos que de Crary e Martin Jay que desembocaram nas atuais perpscetivas de Mirzoeff & Cia (Friedric Jameson explorou o tema num artigo interessante, embora algo prolixo demais).

Aqui deixo de fora propositalmente as obras capitais que pensaram conceitos importantes da imagem e visualidade como Walter Benjamin e Maurice Merleau-Ponty. Assim como não menciono a incrível variedade e tradição que as obras de Dudley Andrew, Jacques Aumont, David Bordwell, Raymond Bellour, Noel Carroll, Francesco Casseti, Kendall Walton e outros teóricos do cinema tem criado e que nada ou pouco devem aos visual studies.

Enfim, sinto-me devedor de mais fontes do que posso citar, mas que certamente criam novas persctivas sobre quais são as possibilidade de compreensão de visualidade e cultura visual que estão disponiveis no mercado das Academias contemporâneas.