“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Coisas da alma

Nel tempio di Kali…

Oggi sono andato al Tempio di Kali, la dea castrante degli uomini. Il tempio é pieno di case dei santi e sembrava molto un tempio del candomblé brasiliano.

Prima, con il giorno alto, ho sentito il tuono. Il cielo minacciava cadere su nostri teste. In voce alta ho detto “Caspita, mia Madre Iansã, dea del lampo e del tuono, come Lei si chiama in questa terra, una volta che sono lontano delle terre dove abita?”. Pioveva, ci abbiamo nascosto in un caffè, ma dopo un tempo. dopo stavamo visitando il Tempio del Tao, in Chinatown. Lì abbiamo trovato un ragazzo brasiliano e lui ha spiegato che il principio principale del Tao era la pace e diminuire il karma coletivo del mondo. Quello mi ha lasciato troppo toccato. Lui ha detto che abbiamo Oggi sono andato al Tempio di Kali, la dea castrante degli uomini. Il tempio é pieno di case dei santi e sembrava molto un tempio del candomblé brasiliano.

Produciamo più cose (machine, persone, palazzi, prodotti, vestiti) da che abbiamo bisogno e tutto quello sta sovraccaricando il mondo. Stiamo perdendo la capacità di fare nostra energia e pace aumentare. Nosta sofferenza, per la sua volta, solo cresce. Pure, è stato lui che ci ha detto che ci sarebbe una cerimonia nel Tempio di Kali alle 17h40. Dopo di alcuni ore, nel Tempio di Kali, ho sentito la potente energia della vita, un axé cosmico nascere in quello posto. Una sensazione molto sembrata come quella che tanti anni fa ho sentito nel candomblé.

Però, Kali, la dea, è un principio di distruzione, la shakti di Shiva, dio di cui l’universo é il proprio ballo. Le due sono facce del tempo. Quella forza mi ha bagnato di cose antichi e nuovi, di spettri del presente e del passato, perché in quello momento, tutti noi eravamo sulla fortuna dell’impermanenza. Ho visto i fantasmi degli miei due amori, ma anche ho visto proprio a me, riflesso nel specchio del fuoco dello mondo che cambia. Ho pregato alla dea e ho sentito le forze che hanno creato la vita chiamarmi della altezza del cielo.

Lo stesso brasiliano che mi ha guidato al Tempio di Kali, mi ha detto, in quello posto, che aveva conosciuto il candomblé in Brasile. E è stato una confluenza cosmica per fare io, al fino del giorno, scoprire qual era il nome locale della dea Iansã – Kali! Però era Kali, altra dea e altra cultura. Scoperto il traduttore, ho bisogno di

Anúncios

Il poema dell’inizio

Giù sta il testo che ancora è un po’ lo specchio della mia anima. È un poema di Mia Couto che ho stampato 8 marzo 2008. Ma non è il più vecchio testo del blog. In realtà, il più vecchio era anche sul un poema di Mia Couto, stampato in agosto 2006. Adesso lo so che questo sito ha 12 anni d’età. Comunque giù è il poema “Albero”, del meraviglioso libro Radici di Rugiata, pieno di versi di Mia Couto:

 

“Cieco

di essere un radice

 

immobile

di me ascendere gambo

 

multiplo 

di essere un foglio

 

imparo

da essere l’albero

mentre

illudo la morte

nel foglio caduto del tempo

 

(MIA COUTO… Altra volta in una brutta tradizione mia)

 

 

 


Il nuovo sogno ricordato

Camminavo su la spiaggia sotto il sole forte e delizioso. La luce accarezzava mia pelle e il vento mormorava il momento. Mi sono sdraiato nella sabbia giù, e il mare ha bagnato miei piedi. È un bello giorno, ho pensato. Quando stavo dormindo nel sogno, subito, miei gatti mi svegliano nel letto. Vado tornare a dormire.

Ma prima, ho pensato così: “da tanti tempo no scrivo sul miei sogni. Perché no li ricordo più? Magari, dopo dormire, se ancora ricordare di loro, scriverei qualcosa”.  Raccontare il sogno è un esercizio letterario che fa con che l’immagini diventino in parole. Mai sarà proprio il sogno, ma neanche sarà solo letteratura.

Caspita! Sono svegliato e ricordo dei due sogni e adesso scrivo.


Me Chama com Seu Nome ou viver não é preciso

Me chama com seu nome é um filme inesperado. Repleto de imagens novas cuja emoção principal, é como medisse minha irmã, que o nosso melhor vem sempre com o outro. O amor como salto no espaço é um risco, como cada plano deste filme o qual se lançou no voo sobre o abismo e não caiu. Não é uma fita espetacular porque não há um grande espetáculo, mas é grande cinema. Se me perguntassem o que mais gostei no filme é que ele é, acima de tudo, trata sobre o fluir e o aceitar das próprias emoções as quais ardem na alma. Mas é também uma obra de imagens sensoriais, para imaginar os sentidos do corpo. Existem muitos filmes que usam os sentidos, o tato e o paladar, em especial, para mostrar a sensualidade, o erotismo e o sexo, mas este filme de Luca Guadagnino supera muitos deles por pequenas mudanças.

Musica

Começo pelo uso do paladar, por exemplo, da fruta que comida se torna imagem erótica, do hábito de tomar suco e comer o tempo todo. Me Chama com seu nome usa a metáfora do comer como fazer sexo ou amor mostrando um rapaz que desenvolve – e aqui a palavra é importante, ele não descobre, ele desenvolve – a própria sexualidade, o próprio erotismo, usando todos os artifícios. Na fabulosa cena da fruta, Elio (Timothee Chalamet) transforma o que era metáfora em imagem literal e com a chegada de Oliver (Armier Rammer) no quarto o que se segue é dos mais inovadores atos de subversão erótica que um filme indicado ao Oscar já viu desde que Marlon Brando e Maria Scheider fizeram muitas coisas em Último Tango em Paris. O suco do pêssego caindo sobre o corpo de Elio, bem como o fato de que quase Oliver faz o que promete fazer com a fruta comida, transforma tudo em um incômodo erotismo no qual paladar, olfato, cheiro e olhar são mobilizados para chegar onde o toda imagem deseja: encarnar o desejo.

E para encarná-lo, o filme precisa imaginar a si mesmo os sentidos e nos corpos dos personagens, como quando mostra o casal que entra na água fria, seu deambular de bicicleta pelas estradas do norte italiano, no calor que faz a todos estarem sempre suados. Poderíamos dizer que todos sabem que assim é o verão, mas em realidade, assim foi o verão que a película nos mostrou. São detalhes discretos para todos os personagens, como na qual Elio e sua mãe (Amira Casar) conversam e uma indiscreta pizza de suor marca a camisa de sua mãe. São pessoas que estão sempre querendo sair de si mesmas.

Imagem na praia 2

Por isso mesmo o enredo da obra teve que ser narrado em um verão quentíssimo. Partindo do lugar comum do “amor de verão” pleno e sensorial no qual calor e a necessidade da água constante, de banho constante, de estar no sol, faz-se plena. A fita desenvolve um conjunto de imagens a partir dos elementos da natureza, fazendo com o que a paisagem de águas, rochas e matas encarnem os estados de espírito dos personagens. Elio é a alma livre, acolhida como potencialmente livre por sua família inusual. Músico e escritor, ele gosta de água porque a água é o que faz o fluir emocionalmente, faz-lhe tentar e conseguir ser o que ele.  Oliver hesita por ser mais velho, e fabulosa é a cena dos dois se cumprimentando por intermédio do braço da estátua grega reencontrada, pois apenas a mediação de uma cultura como a grega, idealizada como a aceitação do erotismo, podia consolidar uma ponte entre ambos.

Me chamam com seu nome é um filme aquático de melancolia contida. O primeiro beijo de Elio e Oliver ocorre quando eles estão à beira de um riacho, uma imagem perfeita do amor que se permite emergir ao lado das águas. Desde tempos antigos, riachos e fontes são imagens femininas do amor e paixão que flui e segue. Habitados por ninfas ou por Oxum, as águas da paixão banham as pessoas com seus desejos. A inovação do filme foi a modificação da imagem feminina em masculina, pois não podemos deixar de lembrar, na mitologia, os rios eram masculinos. Aceitar suas próprias emoções é, portanto, um ato de coragem, de aceitar o rio do próprio espírito e o coração correrem.

Por isso a imagem da água a cena fundamental é da cachoeira, quando Elio e Oliver sobem a montanha (porque aquele “amor proibido” deve ser um esforço de conquista) e encontram a si mesmos na explosão da água que cai do alto, que a tudo banha e inunda, mas não afoga a ninguém. Elio e Oliver aceitam ultrapassar o medo e abraçar a coragem quando se lançaram no espaço sem rede que os apare na queda, tal como a água da cachoeira, que lembremos, sempre fura a pedra sobre a qual cai, de tanto cair. Por isso Heráclito, o grande filósofo pré-socrático da impermanência, aparece tanto no filme para nos lembrar que um homem jamais se banha de novo nas mesmas águas de um rio. O tempo é como o amor e a paixão, nele nos banhamos esperando não se afogar.

Contudo, há também ali o fogo pleno que queima como paixão e amor, que sobe e cresce e faz suar pessoas e coisas. O calor da noite para Elio era a ansiedade de quem ama e não se sabe se é correspondido. A grande cena do calor, neste caso, não é nenhuma cena de sexo, as quais no geral o filme é até discreto, mas aquela mesmo momento citado acima, em que os dois amantes se beijam à beira do riacho abrigados do calor à sombra das árvores, um momento ao qual Elio espera que dure para sempre, quase pedindo que a água esbarre de correr.

Casal na beira d'água

E o mais importante é uma obra sobre a palavra e o verbo, sobre a capacidade de dizer não apenas o que sente, mas verbalizar o que retêm aquilo que sentimos. A aproximação de Oliver e Elio é antes fala apenas pelo silêncio de seu olhar e pela música, que era sua principal voz, mas depois pelas conversas nas quais o casal trocas as ingenuidades espontâneas da paixão tola. Oliver, mais velho, cede a ingenuidade e espontaneidade de Elio e ser espontâneo é realmente é que tira o peso das regras que acorrentam o existir. A grande cena da palavra, porém, é a mais extraordinária contribuição deste filme ao cinema contemporâneo, a conversa do pai (Michael Stuhlbarg) com Elio, na qual, segredos são contatos, a homofobia contemporânea é afrontada com os anos de prisão emocional impostos pela misoginia e pelas regras da moralidade heterossexual expostos na franca relação de um pai com um filho.

Realço essa cena porque a conversa não foi com a mãe, desde o início compreensiva com o que vê acontecer com o filho.   O pai é quem afirma compreender o filho, faz-se companheiro dele, o aceita e pede que o jovem se aceite ao dizer-lhe que é reconhecido no olhar daqueles que o criaram. Momento alto do filme, é também o grande momento de cinema. Faz o filme ser politico sem usar falar em palavras “politizadas” como as que uso neste texto (heternormatividade, famílias homoparentais, etc.) que no geral são as expressões para dizer hoje as demandas de ontem, e nos faz pensar quanto tempo nossas famílias perderam em se relacionar com seus filhos marcadas que eram/são pelo veneno do preconceito, do moralismo e da homofobia internalizados. Aquela família ideal e irreal do filme é também uma família possível.

No enredo, tudo ocorria em 1983 em “algum lugar no norte da Itália” porque assim pode acontecer “em qualquer lugar”, desde que se deixe a vida fluir. Mas ao fazer o filme em 1983, marca-se o impossível (para Oliver) de ser feliz amando outro homem. Mas o filme deixa algo claro: Elio não o fará! Ele é a semente de futuro que hoje cultivamos e que tornou Me Chama com Seu Nome possível a arejar de luz uma fria e escura noite de inverno italiano.

***

Durante décadas não me interessei por filmes apenas porque retratavam casais gays. Para mim, como para Almodovar, filmes não tem sexualidade, mas há 12 anos atrás publiquei um texto revoltado contra Brokeback Mountain, dirigido de forma sensível por Ang Lee. Na época pedia que fosse feito um filme no qual a vitória da homofobia não fosse o mote e que o amor entre dois homens pudesse se realizar sem seguir aquela tradição de filmes marcados pela moralidade homofobóbica, que sempre puniam os personagens gays/lésbicas. Estes sempre eram ou o desviante/abjeto/anormal ou como o herói trágico, e ambos geralmente terminavam infelizes ou mortos. A quantidade de filmes seria imensa a ser apontada, mas vale a pena citar apenas o norte-americano O Pecado de Todos Nós, ou o japonês Tabu como representantes do “gay abjeto” ou Beijo da Mulher-Aranha, Filadélfia e o próprio Brokeback Mountain, como representantes desse “gay/herói trágico”. Fitas como O Banquete de Casamento (1992), também de Ang Lee, eram muito raras.

Cinco anos atrás eu vi o pequeno curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, dirigido por Daniel Pereira, e minha esperança se renovou. Talvez Moonlinght e Me chama com seu nome sejam como alegrias que respondem a minha queixa de jovem adulto de 26 anos, que odiava ver seus amigos e conhecidos morrerem na vida e no cinema. E a despeito de toda a tristeza que me trazem estes filmes, particularmente este último, eles me lembram, cada qual a seu  modo, o verso certeiro do poeta Fernando Pessoa e sua ideia de que “navegar é preciso, viver não é preciso”.

 


As linhas da noite: reencontro com Broch

A grande poesia, como o grande cinema ou a grande literatura, é sempre a tentativa de criar um instante de plenitude. Mas só é possível fazer um preenchimento ambíguo, algo que seja, ao mesmo tempo um esvaziamento de tudo aquilo que é pertinente. Para atingir o Empíreo e manter uma fragmentada memória deste, algo que se possa contar para ter uma vaga visão de tudo, a arte coloca-nos à beira do precipício. Mirar a escuridão profunda (tão semelhante ao nada, talvez o próprio) parece ser a eterna solução dos avós, pais, filhos e netos do modernismo.

Parece, afinal, que os tropos da metáfora e da hipérbole são fundamentos de meu discurso sobre uma arte que tomo como referência pessoal para mediar minha relação com a literatura e arte modernas. Agora, retorno a ela pela (re)leitura de Hermann Broch e seu magnífico A Morte de Virgílio, que cruzo com Shakespeare e Whitman, o qual faz-me retornar a Kubrick e Tarkovsky, e, estranhamente, lembra-me Angelopoulos e Hilst. Como um mito da arte que criei para sentir e compreender aquela literatura, meu mito de arte leva-me a compreender Broch como um instante. Poucas vezes leio algo sobre o qual penso que possa alcançar o topo do cânone. Tive essa impressão com poucos artistas – como os citados acima e aos quais acrescentaria bem raros outros companheiros. Comecei A Morte de Virgílio há mais de uma década, e agora, finalmente, estou decidido a concluir a leitura que nunca terminei. Na época, senti medo e estupor, via um grande portal que apresentou toda a pretensão da arte moderna concretizada como palavra literária sublime.

O horror é o espelho do sublime, contudo, e a beleza é o isolamento numinoso entre o instante de um e o hiato do outro, o improvável necessário depois de alcançado. A palavra que gera imagem, a imagem que gera imagem e palavra, a fusão entre eterno e fugidio, este mito da arte moderna, como a poesia que parte mundos pela ação da língua do poeta, esta imagem-texto da escrita de Broch é uma imersão na sensação e no sentido da própria vida, com tudo que de inteiro e de nada ela tenha.

Curiosamente, neste mês em que me reencontro com Broch, li o dossiê sobre Kafka da revista Cult no qual um crítico afirma,  que o escritor tcheco fora do tipo que escrevia sobre o último a apagar a luz ao sair. Curiosamente, quem faz isso de fato é a própria morte. Contra este esquecimento da vela em seu último suspiro na vaga, escreveu Broch:

“Maior que a terra é a luz, maior que o homem é a terra, e jamais poderá o homem durar, enquanto não aspirar o ar da querência, regressando à terra, retornando terrenamente à luz, recebendo na terra terrenamente a luz, sendo recebido pela luz unicamente graças à terra, que se faz luz. E nunca se encontra a terra em mais íntima proximidade da luz, nunca a luz se liga mais familiarmente à terra do que no início do crepúsculo, nas duas divisas da noite.” 

Ousadia esta de pela palavra-imagem encontrar, nas vagas do pôr-do-sol, quando céu e terra se encontram, o último suspiro da luz.


Meus quintais

É como olhar para si ao ouvir. Não tenho outra definição possível e mais sintética para Meus Quintais, último álbum de Maria Bethânia que ouço copiosamente há dois dias. Não tenho o hábito de escrever sobre música. Não me sinto à vontade. Uma vez que é mais sensorial das artes, sinto-me meio desarmado por ela. Há necessidade de reaprender o vocabulário, muito específico, sobre o ouvir. Mas arrisco-me pela intimidade que tenho com esta cantora.

Íntimo sim, porque o canto é a única coisa que partilhamos com todos os cantores, por mais desafinados que sejamos. E a julgar pela Bíblia e pelos mitos helênicos, é a única coisa que partilhamos com anjos, bardos, monstros e deuses. Ouço Bethânia há muitos anos, apresentado que fui por minha irmã (que me mostrou boa parte das coisas que me deixam feliz). Algo mudou substancialmente de 2001 para cá, quando ela lançou Brasileirinho, uma obra-prima da canção em qualquer idioma. Todos os elementos que faziam parte dela no decorrer da carreira foram realinhados na busca pela brasilidade. Depois dele vieram os invencíveis Pirata (2006)  e o aquoso e desesperador Mar de Sofia (2006). Alguns anos atrás algo mudou de novo no Oásis (2012), embora já possa ser percebido no Tua. Naquele, Bethânia voltou à interioridade, iniciando uma certa exposição que se concretizou que inesperadamente agora se completa.

Quando pensei em escrever algo sobre Meus Quintais, li a reportagem no Globo na qual Bethânia dava palavras as muitas das minhas sensações/impressões/afetos. Senti-me como um garoto a acompanhar a nudez de uma mulher pela fresta da porta ou janela. Envergonhado, depois pensei também que fora ela quem se desnudara ao cantar. Senti sua melancolia, sua tristeza, a perda de sua mãe (é o primeiro álbum depois da morte de Dona Canô), mas também a busca por si, por sua própria força, por uma chama nas veredas da noite. Como diz na magnífica canção que Chico César escreveu para ela, Arco da Velha Índia: “O arco a flecha de fogo / Que incendeia o escuro”.

Ouvi um voltar-se para dentro, para os quintais, lembrando a linda cena da casa pegando fogo em O Espelho, de Tarkovsky, um filme-memória sobre a infância de um homem. Como Bethânia poderia saber? Bem, ela não poderia, mas soube, pois este é o poder supremo da arte, de fazer-nos idealmente iguais aos artistas sem que jamais possamos nos confundir com eles. Na verdade não há nada além da música. Mas… ainda assim há.
Emociona muito o fato de que ela acredita na capacidade dos mitos modernistas brasileiros, no índio, o sangue da terra, para reencontrar  a si mesma. Uma vez ouvi alguém dizer que a arte brasileira jamais alcançara o universal, pois se preocupada demasiado com a identidade do Brasil. Seria a nossa “forma difícil”. Faltou-lhe ler melhor Oswald, e acima de tudo, ouvir Maria Bethânia a encontrar a preciosidade de si em sua nudez e força, a ser o caminho para a individualidade suprema de expor-se sem saber o “que o canto encerra”.

Maria a achar-se nos nomes das tribos, no arco teso de uma índia, ou numa Iara, clássica e cabocla (“Iara, a que canta a citéria / Ai daquele que cai na tragédia / Da nudeza do seu véu “) como na acachapante canção-ndandalunda-indígena-Lispector Iara, perigosa Iara, canção que me apresentou o álbum, enviada por um maravilhoso amigo – é absurdo. Enfim, ficarei a ouvir um pouco mais esta coisa magnífica que é o canto da Iara que faz-me quintal.


o Mar depois do mar

“Vem
Sacra carapaça de tartaruga
E torna-te um poema…”

Começa com Safo para passar a este grande poeta que é maior que o céu. Mia Couto novamente diz minha poesia em sua boca:

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

“Idades cidades divindades”