“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Batman

Do infantil e da épica: Batman vs Superman – Dawn of Justice

Não costumo escrever sobre filmes ruins, mas Batman vs Superman: Dawn of justice é uma fita do qual gostei e na qual vi coisas interessantes. Começo pela melhor cena, quando Doomsday derruba Diana no chão e ela se recupera: sorrindo, a personagem levanta e volta à batalha. É o momento mais lúdico da película, no qual se revela a personalidade amazona de alguém que se refestela na batalha. A aparição da Mulher-Maravilha é a melhor coisa num filme de duração excessiva que infantiliza Batman e Superman para que correspondam ao espectador multitelevisivo da geração UFC. Então vamos a obra. A nova película é obra esquizofrênica movendo-se entre ser uma luta do Batman contra o Superman e a formação da liga da justiça, como sugere o título. Escolhi escrever sobre ela apenas por este último lado (a aurora da Liga) e dividi este comentário em três momentos: de onde vieram as histórias; o que foi feito com os principais ícones dela (os protagonistas); o tom do filme.

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As sagas: sãos várias as histórias dos gibis de base nesse filme, todas elas reorganizadas pela apropriação já realizada nos desenhos animados produzidos nos últimos anos – destaco o Justice League: War. Entre elas tem papel forte a minissérie escrita por Frank Miller, Cavaleiro das Trevas, de 1985, na qual Batman e Superman são contrapostos num contexto da guerra Fria. Esta “batalha” dá origem à trama de Dawn of Justice, ainda que e a condução das personagens fosse nela bem melhor do que no filme. Registre-se que o motivo da briga entre os heróis na fita é ridículo e faz valer apenas a necessidade de fazê-los lutar ao estilo UFC.

Outra história importante é A Morte do Superman (de 1993), que fora escrita por Dan Jungers e na qual o Superman enfrenta Doomsday (na tradução brasileira “Apocalipse”). Doomsday era um monstro desconhecido que emergia do fundo da terra, destruindo tudo, derrotando a Liga da Justiça e lutando com Superman até a exaustão fatal de ambos. Com um vilão banal e chato, aquele era um gibi UFC vanguarda, um material adequado à sensibilidade de Snyder. Não surpreende que o diretor tenha escolhido pancadarias para apresentar o primeiro encontro dos heróis no cinema.

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Há evidentemente outras histórias no subconsciente de Dawn of Justice, que remontam àquelas escritas por John Byrne nos anos 1980 e atingem as que foram roteirizadas por Grant Morrison no final dos anos 1990. Entre todas elas, surgiu o desvio de rota produzido por Reino do Amanhã (1995), de Mark Waid, na qual a divergência e semelhança entre Superman, Batman e Mulher-Maravilha reorganizou a disposição dos personagens na Liga da Justiça.  De todas elas tomou-se na nova fita o conceito de uma Liga da Justiça que é uma espécie de colegiado de deuses humanos, ou seres humanos em vias de divinização.

Guarde-se, portanto, a grade de princípios retomadas de forma desigual em Dawn fo Justice: a) a ambígua relação entre Superman e Batman; b) o questionamento do papel do super-herói e sua relação com a sociedade de direito; c) a Liga da Justiça como um encontro de deuses-humanos.

As personagens: talvez seja interessante usar na escrita o fio condutor da homoerótica de Zack Snyder. Seu homoerotismo exibe-se na paixão pelos corpos de Henry Cavill e Ben Affleck. O Superman é uma deidade musculosa e atlética, que quando não aparece seminu, tem o corpo modelado no uniforme colante. A divinização da personagem é construída tanto pela câmera como pelo enredo, uma vez que a narração segue a atribuição pelo ponto de vista daqueles que “cultuam” e veem o personagem do alto (os homens comuns da fábula). O começo da fita mostrando episódios a batalhas de Superman contra Zod no filme anterior, Homem de Aço, mas do ponto de vista dos humanos (e do próprio Bruce Wayne) revela o tratamento dado ao personagem como monumento/gente. A câmera baixa enquanto prédios desabam de cima prende o espectador no chão, ponto de vista, em geral, dado ao Batman.

Para o Homem-Morcego o diretor perde vários minutos mostrando seu treinamento como um fuzileiro de luta-livre, sequência ridícula que deve servir à satisfação de algum instinto não confessado de Rock Balboa. Batman é o herói humano, ricaço fodão, corpo escultural e uma milícia de homem só conhecedor de artes de luta. Snyder escolheu transformá-lo num moleque briguento para quem os fins justificam os meios. O uniforme de Batman oferece menos oportunidades de modelagem homoerótica, mas o corpo do ator Affleck em treinamento como Bruce Wayne permite a mirada da virilidade. Bruce Wayne/Batman  é o personagem cuja potência e virilidade o espectador pode desejar para si, nos dois sentidos do termo: de tornar-se um Batman ou ter sexualmente o Batman – nesta lógica o Superman só poderia ser desejado e jamais alcançado… ou não!

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Esse amor pela estética do masculino transparece até no personagem visualmente mais difícil, a Mulher-Maravilha, que usa uma serie de vestidos sensuais e femininos no decorrer do filme e exibe a armadura-maiô kitsch no final enquanto empunha espadas e escudos. De fato trata-se de uma personagem na fronteira dos gêneros que incorpora o próprio do masculino no subgênero dos filmes de super-heróis (a batalha, as armas, a guerra, o socar e golpear), mas com a feminilidade corporal quase delicada demais para caracterizar uma grande guerreira. Se para Superman e Batman a força e potência físicas são literalizadas pelos corpos hipertrofiados de academia, para a Mulher-Maravilha da atriz Gal Gadot ignorou-se a estética da mulher UFC (que existe!) em prol de uma supermodel que se transveste de amazona quando põe o maiô e empunha uma ou duas armas fálicas. Não por acaso ela é primeiro apresentada como “mulher” para depois surgir como amazona “maravilha”.

Fora de rota, pela primeira vez, temos o jovem Lex Luthor de Jesse Eisenberg. Tal qual o Alfred de Jeromy Irons e a Diana Prince de Gal Gadot ele é um dos pontos altos do filme. Fiquei ressentindo pela sociopatia de Luthor no filme (que o aproxima muito do Coringa e tira muito de sua identidade como vilão), uma vez que nos gibis Lex é um personagem sofisticado e genioso, mais um ricaço mau caráter de alto QI do que um “doente” mental. Mas devo admitir que Eisenberg foi simpático, empático e sólido, correspondendo as expectativas da geração nerd leitora assídua dos quadrinhos estereotipados. Um ganho e uma perda.

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Evidentemente deve-se levar em conta que a estética dos quadrinhos de super-heróis trabalha contra a adaptação cinematográfica. Os gibis são a um só tempo kitschs e bregas, dificílimos de adaptar ao cinema sem cair no ridículo. Não por acaso as cores de uniformes e outros recursos visuais são esmaecidas ou ficam mais soturnos nos vários filmes já feitos. Apenas uma boa trama consegue suportar (e até superar) essas limitações e poucos conseguiram fazê-lo, o que tem sido até hoje bem raro.

Contra Zack Snyder, especificamente, trabalha seu estilo barroco excessivo (sem pleonasmo), bem como a trajetória dos filmes de super-heróis atuais, que a cada nova fita elevam o nível do espetáculo até um patamar mais exagerado, com batalhas (mais) mirabolantes, cenários exuberantes, ameaças intratáveis e um incrível prazer visual pela catástrofe das cidades – a mesma libido dos filmes de Godzilla, com menos papelão e mais dinheiro. Dawn of Justice “precisava” ser ainda mais espetacular que seus antecessores e concorrentes e talvez por isso Snyder tenha imaginado que teria que sacrificar grande parte dos qualidades dos personagens. Sua alternativa foi infantilizar e inserir o que a fita tem de melhor: uma épica.

A épica: a concepção de divinização dos heróis encontrou no histrionismo de Snyder o veículo barroco ideal. Snyder aceitou a impossibilidade como condição de existência das personagens: num mundo onde vivem os seres da Liga da Justiça, estes são o equivalente dos novos deuses da Era Google. A épica é a base de Dawn os Justice e da maioria dos filmes de super-heróis, mas em nenhum destes até então a opção por heróis como deuses havia ficado tão clara.

O flerte entre culto, divinização e violência marca a fita, que infantiliza o cidadão – e em alguma medida o espectador. Conceito impossível, o super-herói no mundo real só poderia ocupar o lugar de deus, pelo menos de um a divindade caída na condição terrena. As palavras de Luthor remetem a isso quando afirma, em mais de um momento, que qualquer coisa que escape do humano rumo ao divino só pode, ao viver entre homens, ser também um perigo e um demônio. Aproveitando-se dos traços de demasiada humanidade dessas divinas personagens, Snyder fez um filme que narra um misto de aceitação & dúvida por algo tão fora de moda como o super-herói numa Era cínica como a nossa.

Quando a liga “se forma”, o amanhecer da Justiça surge da lealdade de Batman, Superman e Mulher-Maravilha forjada na batalha (típica da narrativa épica), do sacrifício de todos e na doação última do Superman. Bryan Singer já havia explicitado este último elemento no final de Superman: o retorno quando o protagonista flutuava e caia do espaço inconsciente, de braços abertos remetendo diretamente à imagem de (um novo) Cristo. Superman é um deus que escolhe ser homem e se sacrificar. Snyder criou uma ameaça teológica, alguém que é um duplo divino/falso: não é deus, mas como salvador superpoderoso entre homens ocupa o lugar daquele. Pior, como um conhecido deus de histórias bíblicas conhecidas (sabemos!) também ressuscitará. O Jesus da sociedade do espetáculo não é um cordeiro, mas o bom moço com alma de fuzileiro e visão de calor!

A épica é a história dos homens que flertam com deuses para marcar-se na memória da humanidade. O filme insiste no épico na tentativa de construir algo como exemplar: uma orientação e regeneração social produzida pelos “heróis”. Se o cinema americano abusa do épico o tempo todo, fitas como Dawn os Justice realiza uma batalha por uma épica não-histórica de mundos impossíveis e paranoicos dos super-homens, mulheres-maravilhas, mutantes, etc. devolvendo mitos encarnados.

Finalmente, fiquei tocado quando Dawn os Justice toma as lendas na saída do anonimato. A linha entre visível e invisível é vislumbrada pelas gravações de câmera de segurança enviadas por e-mail de um personagem a outro. A imagem digital de vigilância, a mesma que é onipresente em nossas vidas, é o curioso lugar da visualização dos futuros deuses que tentam esconder-se e manter-se invisíveis, inclusive quando zelam pelos outros. É um elemento de ironia refinada, ainda que algo óbvia. Mas a “saída do armário” só ocorre quando todos enfrentam a ameaça de Doomsday. Foi no instante da batalha que aparece a Mulher-Maravilha que a épica atingiu o nível máximo e a fita renasce. O hedonismo hipnótico visual da destruição de Metrópolis e o carisma das personagens revela o prazer com a épica como espetáculo que escapou dos gibis e encarnou em película.  Fico feliz que Dawn of Justice traga a encarnação de um imaginário que me acompanha desde o desenho animado dos Superamigos, embora tenha ficado longe da doçura deste e da inteligência dos gibis.

Aqueles que suportaram o filme até a “aurora do encontro” dos três personagens contra Doomsday podem ficar felizes – ou não! Seguindo Sêneca esvaziei minhas expectativas com Batman vs. Superman e faço o mesmo quanto aos futuros filmes. Poderei colher, quem sabe, os bons frutos caso surjam. Neste ainda consegui.

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