“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Alejandro Iñaurritu

O Regresso, a carne a e terra

Já estava prejudicado quando fui ver O Regresso. O mais prejudicial foi que boa parte das surpresas do filme foi destruída pelo péssimo trailer, que revelava quase toda o enredo. Mal o filme começa, logo após a fuga dos caçadores, já sabia tudo que iria acontecer por causa do “belo” resumo que o trailer fez. Minhas palavras sobre o filme vão se perder no tempo também porque o vi com atraso e poucos dias antes do Oscar e ouvi zilhões de comentários. Então, ao contrário de muitas das pessoas, não me emocionei tanto com a fita, embora plasticamente ela seja muito bela e se insira na tradição da história do cinema de uma forma inusitada. Escreverei ao redor de palavras-chaves em dupla que me permitem organizar m pouco minha impressão sobre a fita:

Intensidade/paisagem: tal como os filmes anteriores de Alejandro Iñaurritu, este trabalha diretamente a intensidade emocional por meio de um enredo sofrido. Mas se no passado o diretor mexicano ainda estava no registro do sofrimento que desmembra o homem no horror da faminta cidade, do tráfico ou violência, O Regresso é seu mais ousado filme, tomando como base a forma plástica da paisagem do norte-oeste americano gravada como poucas vezes se viu. Desta vez a câmera, a fotografia e o enquadramento juntaram-se num mesmo crescendo que criou profunda intensidade visual-sensorial enquanto acompanhamos o enredo de um sobrevivente abandonado pelos seus. Se nos filmes anteriores o que era intenso era a estória, neste é o próprio modo de mostrá-la em meio à espetacular indiferença da natureza que conta. A natureza/paisagem muda conforma as agruras de Glass vão se avolumando, passando instantes chaves de profunda beleza que contrastam com seu incrível sofrimento.

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Herzog/natureza: essa intensidade faz-se em grandes elementais que reverberam o próprio coração humano: rocha, mata e água – entregues na visão das montanhas, das florestas e dos rios. Uma paisagem dotada de memória ancestral, que em sua indiferença, serve de cenário ao drama humano. Estamos próximos das idealizações da natureza, que tal como a morte em Beautiful, excede o mundo humano enquanto o minimiza frente às grandezas da terra. Aqui estamos mais próximos das florestas quase-maldições de Aguirre – a cólera dos deuses ou de Fitzcarraldo, ambos de Werner Herzog. Aguirre, em especial, é uma lembrança imediata quando vemos os caçadores fugindo pelo e olham às margens na espera do ataque dos nativos. Diferente de Werner Herzog, contudo, não é a megalomania conquistadora que guia os protagonistas. Em O Regresso o personagem Glass, vivido por Leonardo Dicaprio é dotado de força da vida assustadora, a qual o move na sobrevivência que não o abandona. Evidentemente, o principal combustível dessa sobrevida é o mais velho dos temperos das narrativas: a vingança! O Regresso é a nova roupagem, neste sentido, da mais velha das estórias de vingança depois da descida ao inferno. A natureza é, neste caso, indiferente e redentora, pois tal qual a morte, clareia o trajeto de nosso personagem numa transformação interior. No final, quando o embate entre antagonista e protagonista finalmente ocorre, a câmera realça a profundidade de campo: eles estão à margem de um riacho, que serpenteia do primeiro plano ao fundo da tela. O sol começa a iluminar ao fundo, quando uma luz dourada anuncia a proximidade do fim da estória, cortando o branco e o cinza da neve. Ali a morte será servida e as águas guardarão os desejos do homem.

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Tarkovsky/memória: o elemento lírico do filme fica por conta dos sonhos do protagonista. A espetacular abertura da fita remete diretamente, no lindo plano-sequência que inicia a projeção, à integração água e mata, num movimento da imagem por cima das águas que transbordam em meio a finas árvores. A câmera sobe e avança e lembramos imediatamente da famosa sequência do sonho em Stalker (1979) do cineasta russo Andrei Tarkovsky. Quando se pensava que seria uma homenagem involuntária, os inúmeros sonhos-refúgio de Glass são belas sequências mistas de memórias e desejos, como quando ele está dentro de uma ruína de igreja em cujas paredes estão pintados afrescos de santos e de Cristo. As paredes do pequeno templo estão em pé com um pequeno sino no topo, mas a nave está aberta para o céu e o chão esburacado, com poças de água, havendo ainda uma árvore dentro da construção caída, perto da qual Glass encontra seu filho. Sonho e memória, tal qual em Nostalgia (1983), também de Tarkovsky, quando o poeta protagonista reencontra a Rússia da qual estava exilado no interior de uma catedral italiana em ruínas. Há outro pathos parecido ali que também remete ao diretor russo, como a indígena que fora esposa de Glass, a qual aparece a flutuar sobre ele em outro sonho-memória, remetendo às lembranças cinematográficas de Espelho (1975) ou Sacrifício (1985). Regresso é repleto dessas fórmulas visuais como momentos mágicos circunscritos em instantes-memórias repletos de traços oníricos. A fita demonstra encanto pelas chamas, encanto pelas águas, pela neve e pela mata congelada, revelando apego ao mundo natural como imagem de intensa presença de espírito.

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Profundidade/proximidade: é difícil construir a intensidade sem transpor a difícil fronteira dos limites do estilo de fazer e montar filmes atuais. Nossa época é marcada por uma redução da encenação em favor da montagem de velocidade, marcada por planos mais curtos e pelo abuso dos primeiros-planos e close ups. Os belos olhos azuis de Dicaprio se destacam justamente nestes close ups, compondo grande parte da atuação dele junto a uma boca bufante e aos seus dentes amarelados. A maquiagem na fita é parte fundante da atuação, pois o primeiro-plano é uma das características mais comuns de O Regresso, no que ele segue os filmes de ação atuais. Mas sendo um filme incrivelmente plástico, O Regresso passa da proximidade do primeiro plano à profundidade de campo com cuidado, devolvendo ao espectador uma encenação mais bem cuidada. Está anunciado logo na sequência de abertura, em que estamos próximos a água junto com a câmera, a qual logo se abre para o fundo da floresta e Hawk e Glass emergem nos flancos da tela. Também quando Fitzgerald está carregando os cavalos com as peles que acabaram de tirar do barco, a câmera está no lombo do animal, filmando a beira do penhasco, a floresta e as montanhas ao fundo. Proximidade e profundidade conferem abertura e dimensão ao plano cinematográfico, o que faz de O Regresso uma pequena obra-prima da montagem de cena.

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Nativo/terra/carne: no começo parece que veremos o mais do mesmo sobre o herói americano, mas com um cuidado técnico e fotografia melhores. O americano que viveu entre indígenas e conhece as técnicas destes mais do que os próprios, sobrevive como ninguém sobreviveria e mostra a indígenas, franceses e traidores como se pode viver e se vingar. Mas Glass não é uma pessoa, é uma entidade que sabe que o grande problema ao seu redor são as pessoas. Um caçador, ele é quase um “nativo”. Se o grande chefe Arikara surge como “vilão”, logo se percebe que a terra é o grande objeto de disputa, havendo uma má distribuição do poder graças às invasões francesa e americana. O herói Glass como sobrevivente da conquista da América é uma imagem-contradição das origens violentas, segregadoras, racistas e genocidas dos EUA. Este é um legado europeu também, em mais de um momento, indígenas e seus agrupamentos são dizimados por norte-americanos e franceses. A terra dos nativos fora usurpada e para os indígenas resta o reconhecimento dos iguais. Quando quase pensei que Glass seria um novo Dunbar (o personagem de Kevin Costner em Dança com Lobos, de 1990), numa inversão formidável era o cruel chefe Arikara (Anthonye Starlight) quem inverte a herança do western, quando ao buscar sua filha Pawaqa acaba por ocupar o lugar que era de John Wayne em Rastros do Ódio (1956). Naquela magnífica fita de John Ford, Wayne vivia o amargo Ethan, enlouquecido em resgatar sua sobrinha raptada pelos “índios”. Agora é Pawaqa (Melaw Nakehk’o) quem ocupa o lugar de Debbie (Natalie Wood) e produz uma mudança dos tempos: se em Rastros do Ódio, Debbie fora assimilada como indígena e teve sua vida e dignidade preservadas, em O Regresso, Powaqa foi transformada em escrava sexual, sendo estuprada continuamente pelos mercenários franceses, revelando a face da brutalidade.  O rosto do Chefe Arikara é uma imagem poderosa de ancestralidade negada à América. Brutal e intenso, evidencia na pele tatuada a carne que é a própria corpo do passado remoto que até o século XIX povoava o continente. Como agradecimento, o Chefe contribui para a vingança de Glass e encontra na brutalidade da vingança algo que iguala os homens na neve.

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Parece que mesmo à beira do ocaso, o clamor da vingança pode ser ouvido e permite igualar aos homens na retribuição ao mal sofrido. O antagonista Fiztgerald, de quem pouco falei, é o motor dessa aproximação.