“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Arquivo para janeiro, 2018

Me Chama com Seu Nome ou viver não é preciso

Me chama com seu nome é um filme inesperado. Repleto de imagens novas cuja emoção principal, é como medisse minha irmã, que o nosso melhor vem sempre com o outro. O amor como salto no espaço é um risco, como cada plano deste filme o qual se lançou no voo sobre o abismo e não caiu. Não é uma fita espetacular porque não há um grande espetáculo, mas é grande cinema. Se me perguntassem o que mais gostei no filme é que ele é, acima de tudo, trata sobre o fluir e o aceitar das próprias emoções as quais ardem na alma. Mas é também uma obra de imagens sensoriais, para imaginar os sentidos do corpo. Existem muitos filmes que usam os sentidos, o tato e o paladar, em especial, para mostrar a sensualidade, o erotismo e o sexo, mas este filme de Luca Guadagnino supera muitos deles por pequenas mudanças.

Musica

Começo pelo uso do paladar, por exemplo, da fruta que comida se torna imagem erótica, do hábito de tomar suco e comer o tempo todo. Me Chama com seu nome usa a metáfora do comer como fazer sexo ou amor mostrando um rapaz que desenvolve – e aqui a palavra é importante, ele não descobre, ele desenvolve – a própria sexualidade, o próprio erotismo, usando todos os artifícios. Na fabulosa cena da fruta, Elio (Timothee Chalamet) transforma o que era metáfora em imagem literal e com a chegada de Oliver (Armier Rammer) no quarto o que se segue é dos mais inovadores atos de subversão erótica que um filme indicado ao Oscar já viu desde que Marlon Brando e Maria Scheider fizeram muitas coisas em Último Tango em Paris. O suco do pêssego caindo sobre o corpo de Elio, bem como o fato de que quase Oliver faz o que promete fazer com a fruta comida, transforma tudo em um incômodo erotismo no qual paladar, olfato, cheiro e olhar são mobilizados para chegar onde o toda imagem deseja: encarnar o desejo.

E para encarná-lo, o filme precisa imaginar a si mesmo os sentidos e nos corpos dos personagens, como quando mostra o casal que entra na água fria, seu deambular de bicicleta pelas estradas do norte italiano, no calor que faz a todos estarem sempre suados. Poderíamos dizer que todos sabem que assim é o verão, mas em realidade, assim foi o verão que a película nos mostrou. São detalhes discretos para todos os personagens, como na qual Elio e sua mãe (Amira Casar) conversam e uma indiscreta pizza de suor marca a camisa de sua mãe. São pessoas que estão sempre querendo sair de si mesmas.

Imagem na praia 2

Por isso mesmo o enredo da obra teve que ser narrado em um verão quentíssimo. Partindo do lugar comum do “amor de verão” pleno e sensorial no qual calor e a necessidade da água constante, de banho constante, de estar no sol, faz-se plena. A fita desenvolve um conjunto de imagens a partir dos elementos da natureza, fazendo com o que a paisagem de águas, rochas e matas encarnem os estados de espírito dos personagens. Elio é a alma livre, acolhida como potencialmente livre por sua família inusual. Músico e escritor, ele gosta de água porque a água é o que faz o fluir emocionalmente, faz-lhe tentar e conseguir ser o que ele.  Oliver hesita por ser mais velho, e fabulosa é a cena dos dois se cumprimentando por intermédio do braço da estátua grega reencontrada, pois apenas a mediação de uma cultura como a grega, idealizada como a aceitação do erotismo, podia consolidar uma ponte entre ambos.

Me chamam com seu nome é um filme aquático de melancolia contida. O primeiro beijo de Elio e Oliver ocorre quando eles estão à beira de um riacho, uma imagem perfeita do amor que se permite emergir ao lado das águas. Desde tempos antigos, riachos e fontes são imagens femininas do amor e paixão que flui e segue. Habitados por ninfas ou por Oxum, as águas da paixão banham as pessoas com seus desejos. A inovação do filme foi a modificação da imagem feminina em masculina, pois não podemos deixar de lembrar, na mitologia, os rios eram masculinos. Aceitar suas próprias emoções é, portanto, um ato de coragem, de aceitar o rio do próprio espírito e o coração correrem.

Por isso a imagem da água a cena fundamental é da cachoeira, quando Elio e Oliver sobem a montanha (porque aquele “amor proibido” deve ser um esforço de conquista) e encontram a si mesmos na explosão da água que cai do alto, que a tudo banha e inunda, mas não afoga a ninguém. Elio e Oliver aceitam ultrapassar o medo e abraçar a coragem quando se lançaram no espaço sem rede que os apare na queda, tal como a água da cachoeira, que lembremos, sempre fura a pedra sobre a qual cai, de tanto cair. Por isso Heráclito, o grande filósofo pré-socrático da impermanência, aparece tanto no filme para nos lembrar que um homem jamais se banha de novo nas mesmas águas de um rio. O tempo é como o amor e a paixão, nele nos banhamos esperando não se afogar.

Contudo, há também ali o fogo pleno que queima como paixão e amor, que sobe e cresce e faz suar pessoas e coisas. O calor da noite para Elio era a ansiedade de quem ama e não se sabe se é correspondido. A grande cena do calor, neste caso, não é nenhuma cena de sexo, as quais no geral o filme é até discreto, mas aquela mesmo momento citado acima, em que os dois amantes se beijam à beira do riacho abrigados do calor à sombra das árvores, um momento ao qual Elio espera que dure para sempre, quase pedindo que a água esbarre de correr.

Casal na beira d'água

E o mais importante é uma obra sobre a palavra e o verbo, sobre a capacidade de dizer não apenas o que sente, mas verbalizar o que retêm aquilo que sentimos. A aproximação de Oliver e Elio é antes fala apenas pelo silêncio de seu olhar e pela música, que era sua principal voz, mas depois pelas conversas nas quais o casal trocas as ingenuidades espontâneas da paixão tola. Oliver, mais velho, cede a ingenuidade e espontaneidade de Elio e ser espontâneo é realmente é que tira o peso das regras que acorrentam o existir. A grande cena da palavra, porém, é a mais extraordinária contribuição deste filme ao cinema contemporâneo, a conversa do pai (Michael Stuhlbarg) com Elio, na qual, segredos são contatos, a homofobia contemporânea é afrontada com os anos de prisão emocional impostos pela misoginia e pelas regras da moralidade heterossexual expostos na franca relação de um pai com um filho.

Realço essa cena porque a conversa não foi com a mãe, desde o início compreensiva com o que vê acontecer com o filho.   O pai é quem afirma compreender o filho, faz-se companheiro dele, o aceita e pede que o jovem se aceite ao dizer-lhe que é reconhecido no olhar daqueles que o criaram. Momento alto do filme, é também o grande momento de cinema. Faz o filme ser politico sem usar falar em palavras “politizadas” como as que uso neste texto (heternormatividade, famílias homoparentais, etc.) que no geral são as expressões para dizer hoje as demandas de ontem, e nos faz pensar quanto tempo nossas famílias perderam em se relacionar com seus filhos marcadas que eram/são pelo veneno do preconceito, do moralismo e da homofobia internalizados. Aquela família ideal e irreal do filme é também uma família possível.

No enredo, tudo ocorria em 1983 em “algum lugar no norte da Itália” porque assim pode acontecer “em qualquer lugar”, desde que se deixe a vida fluir. Mas ao fazer o filme em 1983, marca-se o impossível (para Oliver) de ser feliz amando outro homem. Mas o filme deixa algo claro: Elio não o fará! Ele é a semente de futuro que hoje cultivamos e que tornou Me Chama com Seu Nome possível a arejar de luz uma fria e escura noite de inverno italiano.

***

Durante décadas não me interessei por filmes apenas porque retratavam casais gays. Para mim, como para Almodovar, filmes não tem sexualidade, mas há 12 anos atrás publiquei um texto revoltado contra Brokeback Mountain, dirigido de forma sensível por Ang Lee. Na época pedia que fosse feito um filme no qual a vitória da homofobia não fosse o mote e que o amor entre dois homens pudesse se realizar sem seguir aquela tradição de filmes marcados pela moralidade homofobóbica, que sempre puniam os personagens gays/lésbicas. Estes sempre eram ou o desviante/abjeto/anormal ou como o herói trágico, e ambos geralmente terminavam infelizes ou mortos. A quantidade de filmes seria imensa a ser apontada, mas vale a pena citar apenas o norte-americano O Pecado de Todos Nós, ou o japonês Tabu como representantes do “gay abjeto” ou Beijo da Mulher-Aranha, Filadélfia e o próprio Brokeback Mountain, como representantes desse “gay/herói trágico”. Fitas como O Banquete de Casamento (1992), também de Ang Lee, eram muito raras.

Cinco anos atrás eu vi o pequeno curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, dirigido por Daniel Pereira, e minha esperança se renovou. Talvez Moonlinght e Me chama com seu nome sejam como alegrias que respondem a minha queixa de jovem adulto de 26 anos, que odiava ver seus amigos e conhecidos morrerem na vida e no cinema. E a despeito de toda a tristeza que me trazem estes filmes, particularmente este último, eles me lembram, cada qual a seu  modo, o verso certeiro do poeta Fernando Pessoa e sua ideia de que “navegar é preciso, viver não é preciso”.

 

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