“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Suportar uma costela de Adão: Mulher-Maravilha

Existem aspectos incômodos e abusivos em Mulher-Maravilha. Qualquer observador mais atento identifica as coincidências e consequências da criação dos super-heróis ter sido contemporânea da ruína dos impérios coloniais europeus e da guerra fria. A maioria dos espectadores detecta imediatamente o patriotismo nas cores dos uniformes, por exemplo. Durante anos também os quadrinhos usaram muitas imagens do exotismo e da nostalgia do mundo colonial ligados a certa formulação de gênero. Este segundo texto sobre Mulher-Maravilha contempla as soluções contra a misoginia típica do gênero de super-herói e sua relação com o patriarcado e as questões ambíguas da geopolítica imperial ali contidas.

Os romances e narrativas americanas e inglesas estão marcadas pelo encontro com as várias culturas diferentes no mundo. No cinema, filmes como os inúmeros Indianas Jones, A Múmia, As Minhas do Rei Salomão entre tantos revelam o ocidental em seu encontro com a Ásia, África e Oceania. Todas essas histórias que celebram o arqueólogo (Indiana Jones), o explorador (A Múmia, As Minas do Rei Salomão), o colonizador “civilizado” são obras nostálgicas do mundo colonial, da época em que britânicos e franceses dominaram o mundo. O “outro” colonizado (africano, asiático, árabe, indiano, chinês, etc.) era geralmente imaginado como antiquado, primitivo, gregário, provinciano, ligado à natureza, adorador de forças ancestrais, fetichista, lascivo, não confiável.  E frequentemente os colonizadores lançaram metáforas de gênero para falar desses “outros”, “feminilizando” populações representadas como “primitivas”.

Mulher-Maravilha também está marcada por essa nostalgia. Themiscera é uma terra imaculada, “virgem” que ainda não fora penetrada pelo homem (antigo ou moderno), tal como foram as matas das Américas. O mito da “terra virgem” é uma imagem fálica que ignora completamente a presença do nativo. A soberania destes nunca é reconhecida como propriedade pelo invasor europeu ou americano, que sempre feminiliza a terra descoberta para tomá-la a força numa metáfora legitimada do estupro. No caso do filme, a Ilha não é apenas uma Terra Virgem, mas uma Terra somente de mulheres o que torna a metáfora do estupro uma possibilidade literal, com a diferença que estas mulheres, as amazonas, são capazes de defender sua própria casa, tal como os nativos americanos o fizeram até sucumbir.

WONDER WOMAN

O filme, porém, desloca a imagem da Terra Virgem. Embora seja Hipólita a reconhecer que o refúgio é um Paraíso, quem a chama de “Ilha Paraíso” é Steven Trevor, o primeiro homem a entrar no santuário. A ideia de um lugar paradisíaco onde existam mulheres maravilhosas remete também a outro imaginário, o do Harém, que permeia os sonhos eróticos do colonizador pela abundância de mulheres disponíveis como se fossem bens e terras. Não podemos esquecer que o mito da amazonas é uma história da Grécia Antiga que revela uma paranoia masculina de uma sociedade em que mulheres matam os filhos homens, escravizam estes e cumprem papeis masculinos, notadamente as atividades da guerra e do governo. No mundo grego sua cidade era uma terra inculta e vencer as indomáveis amazonas era submeter as forças ancestrais tal como fizeram grandes heróis como Teseu e Hércules. Mas William Moulton, o criador da Mulher-Maravilha, criou um deslocamento quando fez a Ilha das Amazonas como um refúgio para onde as mulheres fugiram do mundo dos homens. Ele transformou o masculino em um problema, premissa que perseguirá para sempre todos os enredos da personagem. Por um lado, montou um paraíso feminino e potencial harém dos sonhos masculinos, por outro usou uma imagem paranoica, a “Ilha Paraíso” das amazonas, que é um misto de medo e desejo por mulheres únicas. Ao fazer isso instituiu o homem como alteridade pela disputa da soberania.

Mas o colonialismo sobrevive em outras coisas também: a Ilha é feminina e pagã, nela se adoram deuses e potências arcaicas, não apresenta desenvolvimento tecnológico e está fora da história da civilização. Como uma grande xangrilá, o tempo ficou anacrônico ali, preso ao passado. A história (da civilização) irrompe pela invasão e guerra, assaltando a Ilha com a chegada do americano Steven Trevor e dos alemães. Desta vez o mal ressurge pelo lado do homem, a serpente que leva o ódio, a morte e a guerra ao lugar de mulheres imortais. Aquele que leva a fruto do conhecimento para as amazonas, que lhes mostra o quanto elas ficaram obsoletas, por mais fantásticas que sejam, que seu tempo é anacrônico, e que as ameaça de Queda é, justamente, um homem. O mito do Éden retorna e a serpente é o masculino colonizador.

poster Mulher-maravilha

Apenas Diana decide assumir a Queda no mundo e vai a Guerra para deter o último deus da velha mitologia. Ela entende que Ares, um princípio masculino beligerante é a fonte do mal e do ódio que ameaça a todos e a seu Lar. Diana acredita na fábula que lhe fora contada de que fora criada como uma boneca de barro, uma mulher pura sem cromossomo masculino. Uma mulher sem costela de Adão, ideal fantástico que estava na raiz das narrativas de William Moulton. O enredo do filme, porém, lhe arranca essa lenda infantil e lhe revela que se trata de uma deusa nascida do encontro da imortal Hipólita com Zeus, o Senhor dos Deuses. Esse desvio de rota produzida recentemente nos gibis pelo roteirista Brian Azzarelllo tirou a mitológica pureza feminina da personagem e a substituiu por um legado de realeza divina de procedência… masculina! Fez dela, por assim dizer, mais humana, menos pura e mais contemporânea, afinal como tantas mulheres, Diana cresceu sem pai, mas diferente de tantas, ela teve mil mães.

O confronto com Ares, neste sentido, é uma forma interessante de combater duas referências masculinas importantes no filme e marcar seu olhar: o Deus da Guerra é um modelo de masculinidade tóxica, uma agressão e destruição sem princípio; Zeus, por sua vez, é um modelo de masculinidade patronal, ordenadora e dadivosa. A idealização de Zeus na narrativa é curiosa, afinal ele esteve entre os maiores sedutores e estupradores da mitologia antiga. No filme, como Pai Ausente ele pôde ser idealizado como fonte de poder, mas por outro lado não serve de horizonte de ação da personagem. Incomoda que o poder feminino proceda da bondade e dádiva de Zeus e uma alteração significativa do papel das deusas mitológicas que sucessivamente foram pertinentes em todas as estórias da Mulher-Maravilha (Afrodite, Atena, Ártemis), mas estão completamente ausentes no filme. Parece que ao personagem ao mundo contemporâneo foi preciso, no cálculo dos roteiristas, devolver-lhe a costela de Adão para que ela pudesse suportar o fardo de ser mulher na história.

Interessantemente o filme não mostra Diana interagindo com mulheres de destaque no Mundo dos Homens. Quando chega a Londres e entra no mundo da história (civilização) explora-se pouco seu choque com as mulheres, que são tratadas de maneira geral e domesticada. Aliás há apenas menção ao movimento sufragista e nada ao feminismo. A fita prefere aproximar Diana dos povos que foram destruídos pelo avanço ocidental no grupo montado por Steven Trevor: um tem procedência árabe, queria ser ator, mas sua cor não era aceitável; o outro é um indígena cujo povo fora dizimado pelos americanos. Nenhum deles é sexualmente atraente, Exceto o norte-americano. Contra TODOS os tipos de homens, Steven Trevor, é o homem que tem potencial para reconhecer Diana como plena dona de si e aceita, paulatinamente, o crescimento de seu protagonismo. Enquanto todos os outros a recebem como louca ou deslocada, apenas Steven reconhece sua cidadania como pessoa embora duvide dela em vários pontos e a ache ingênua. Os outros, por sua vez, só a aceitarão no quebra-quebra da guerra. E claro, apenas Steven, o norte-americano, será o eleito para desposá-la, vivendo a fantasia colonial masculina de fazer sexo com a única virgem (de sexo heterossexual, frise-se) da Ilha e viver a fantasia sexual não como estupro, mas como consentimento.

pine a gadot

Quando pensamos nessa alteridade fica claro a integração de Diana com o jogo geopolítico encenado na Guerra. Trevor deve impedir a criação de uma bomba de gás capaz de destruir a população de uma cidade. O avião que aparece no final do filme é montado pelos alemães e está repleto do gás fatal que será lançado sobre Londres, o centro da resistência contra a Tríplice Aliança na Grande Guerra. Trevor, por sua vez, é o homem justo que se sacrifica para impedir a catástrofe. Ele foi também o homem justo que alertou o Paraíso das Amazonas do assédio da História produzido pela guerra entre as potenciais europeias. Também será Trevor o herói do dia, pois ele impede a catástrofe humana mostrando um protagonismo de coadjuvante amoroso na história de Diana que não acontece em nenhum outro filme de super-herói. Quando Lois Lane, as amantes de Batman ou de Thor ou Mary Jane conseguem salvá-los? A maioria dos super-heróis não costumam ter sorte no amor, mas apenas Diana perdeu o amor da vida na batalha.

O principal, porém é que não deixa de ser irônico que Steven tente impedir uma grande arma capaz de destruição em massa nunca vista, justamente o mesmo tipo de arma que os norte-americanos usaram contra o Japão na Segunda Guerra Mundial. Ao lançar a Mulher-Maravilha no passado como guerreira na Grande Guerra Mundial, do lado dos aliados, o filme a faz lutar contra uma ameaça divina (Ares) e uma arma de proporções divinas (a bomba de gás). Uma vez que Diana é o equivalente do Superman em poderes, apenas uma grande ameaça justificaria sua intervenção, mas em vez de selecionar um evidente cenário histórico no qual Ares atuaria na construção de uma arma definitiva e real, a bomba atômica, o roteiro recuou no tempo à Grande Guerra de 1914. Quer dizer, inventou-se uma arma no passado porque não se queria a real arma do passado de 1945: a bomba atômica. Isso evidentemente foi uma escolha moral e política, afinal a personagem em outro cenário teria que impedir Ares e o Exército Americano, o que não soaria bem em tempos de Donald Trump. Evita um problema moral, mantem a integridade da personagem e garante a geopolítica imperial.

Lembro-me aqui de duas histórias em quadrinhos: nos anos 1980, o desenhista e roteirista George Pérez contou a história da Mulher-Maravilha. Diana vai combater Ares, que está no mundo dos homens fazendo maldades, saindo de Themiscera após Trevor cair na ilha. Ares estava fazendo os exércitos americanos e soviéticos iniciarem a Terceira Guerra Mundial com os arsenais atômicos. Ela combate fundamentalmente oficiais rebelados das forças norte-americanas e sua bomba atômica! Naqueles tempos,  os quadrinhos manifestaram claramente um contraponto ao abuso atômico da “Era Reagan”.  Nos anos 1990, na “Operação Tempestade Galática”, os Vingadores tentam impedir Lilandra, Imperatriz do Império Shiar, de lançar uma bomba cósmica que devasta o mundo dos Krees, seu então Império inimigo. A bomba é lançada, bilhões morrem e apenas o Capitão América ficou estarrecido com a escolha genocida ali feita. Recentemente, foi ele quem se rebelou contra o sistema no enfadonho Guerra Civil. O mundo dá voltas: Mulher-Maravilha entra no sistema e Capitão América meio que sai. Será a herança de Adão?!

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