“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Arquivo para junho 11, 2017

Mulher-maravilha: como ser/não-ser da geração UFC

Escrever sobre Mulher-Maravilha permite pensar o prazer, o fracasso e o incômodo político que senti com o filme. Fiquei feliz com o sua suavidade e intensidade e acima de tudo, adorei muitos dos momentos que encarnaram minha imaginação para o mundo de Diana que remete ao desenho dos Superamigos. Acabaram saindo dois textos, dos quais este é dedicado à adaptação cinematográfica com suas virtudes e defeitos. A fita é muito divertida e tola, mas ousaria dizer que, por motivos não cinematográficos, esta é talvez a mais importante obra do gênero de super-herói já feita, apesar de seus claros defeitos e das (muitas) cenas de gosto duvidoso. Ao mesmo tempo o filme é um problema político, o que será tópico do segundo texto.

(o próprio enfrentamento da misoginia é discutível no filme, como veremos em outro texto.)

A minha maior alegria com Mulher-Maravilha foi a manutenção da difícil mitologia da personagem. Parece haver uma dificuldade fílmica de mulheres assumirem a posição de heroína que tem por dom o uso do corpo como arma. Os heróis de lutas, aqueles mais conhecidos por seus socos, pontapés e pulos usam o próprio corpo como instrumento e controlam minimamente o ambiente ao seu redor – todos geralmente são homens. Desde Duro de Matar (1991) cada vez mais os heróis homens se caracterizam pelo domínio do espaço, por usar o ambiente a paisagem localizando seus elementos e controlando-o nas situações mais adversas, inclusive quando tudo parece perdido. Isso foi elevado ao extremo com Missão Impossível (1999), dirigido por John Woo estendendo-se até as versões mais complexas dos super-heróis como Batman, Superman, Capitão América e Homem de Ferro. Existe, portanto, uma encenação e uma cenografia própria do herói nos filmes e ela está relacionada ao uso ilimitado do domínio masculino sobre o próprio corpo e o ambiente.

gal gadot

Quando olhamos para as mulheres, o quadro é desalentador: exceto por duas ou três exceções – em que se destacam as subestimadas duas sequências de As Panteras (2000 e 2003), a Triniti de Matrix (1999), os excelentes volumes de Kill Bill (2003 e 2004) e os bobos Tomb Raider (2001 e 2003) – as mulheres nunca têm o mesmo controle do próprio corpo e do espaço. Os filmes de super-heróis, em especial, são absolutamente falocráticos e usam de enredos misóginos, localizam as mulheres como foco amoroso do herói, como uma personagem coadjuvante frequentemente subaproveitada (Tempestade ou Jean Grey) ou vilãs (Mística) e nunca como o centro da narrativa. A menção honrosa vai para a versão da Mística em Dias de um Futuro Esquecido (2015) que divide o núcleo da fita junto com Charles Xavier. Até Mulher-Maravilha, em nenhum deles, a narrativa fora sobre uma mulher dona do próprio corpo, caracterizada pelos mesmos socos, pontapés, pulos e força física e toda a estética da pancada que caracteriza o modelo de herói cinematográfico exposto acima e típico desse público aficcionado por UFC.

O corpo como instrumento e posse pela qual se controla o espaço: este é um traço da estética visual e cênica dos filmes de super-herói, perfeitamente notável pela cena de batalha de Diana com as Amazonas em Themiscera, quando ela consegue vencer todas as oponentes, e que se repetirá na batalha na trincheira. Essa “pró-atividade” faz com uma mulher assuma posições até aqui ocupadas por corpos e olhares masculinos que revelam um dado fundamental: a mulher como dona de si – e no caso de Diana possuindo a força de Superman. Diana, a primeira lutadora dos quadrinhos junto com a Mulher-Gavião (ambas foram criadas em 1941) tornou-se a heroína arquetípica e surgiu com identidade própria, não como uma versão feminina, parente ou namorada de algum homem importante. Ela usava/usa o corpo como arma pela força e não pela sedução.

Para mim o grande sucesso visual de Mulher-Maravilha está ligado com a construção de marcas físicas e gestuais que individualizam a personagem sem abusar da beleza física de Gal Gadot (que numa análise mais enxuta –já havia comentado isso – tem o corpo de uma top model e não de uma guerreira), fazendo do filme muito interessante como espetáculo visual. A câmera explora menos seus dotes físicos, preferindo seu rosto e simpatia do que suas coxas e seio, enfatizando a presença da espada e do escudo, bem como do laço e da vestimenta. O uso dos braceletes e do laço conferem a Diana uma identidade no meio de todos os personagens super-heróis que se comportam como galos de briga da atual geração UFC. Eles implicam numa gestualidade singular para a personagem que vai desde o  seu uso dos braceletes para rebater balas (marca da personagem) com sua percepção aguçada, ao golpe do choque dos braceletes, além de uma serie de outros atributos gestuais que evidenciam habilidade e criam ocasiões visuais para exibição de ações e efeitos visuais. Em suma, o que Diana faz é mais importante do que o quanto ela é capaz de destruir e mostra um expediente do filme: na mesma medida em que conta a história de uma deusa, ele a aproxima das pessoas comuns ao fazê-la descer para sua batalha e lutar no mesmo nível que elas, algo que não ocorre com nenhum herói no momento, exceto Batman e Homem-Aranha (e olhe lá!). A exibição do poder de destruição, as cenas-catástrofes que marcam a identidade dos filmes de super-heróis perdem importância em Mulher-Maravilha e não temos as cidades devastadas como ocorre pateticamente em Avengers, Thor, Homem de Aço, Hulk, Guerra Civil ou Batman vs Superman, fitas condenadas todas a tentarem se superar umas às outras em megalomania masculina. Nestes, quem mostra a maior catástrofe (o maior pênis, por assim dizer) é o herói/filme mais impressionante.

Laço

Em especial o Laço foi quase tudo que imaginei que deveria ser visualmente: uma forma viva, algo como uma serpente ou corrente viva e cuja potencialidade só pode ser mostrada se bem usada. O Laço de Héstia, que confere o saber da verdade, sempre fez de Diana a mais impossível e utópica das personagens, aquela que não pode tolerar mentiras porque ela própria é como uma espécie de Deusa da Verdade (nos quadrinhos John Byrne explorou isso bem), incapaz de mentir para si mesma. O filme caracteriza isso bem na dificuldade de Diana em aceitar as mentiras e a covardia ao seu redor , inclusive as de Steven Trevor. Na batalha contra Ares, o uso do laço, braceletes e o aprendizado de Diana no uso dos poderes conferem algumas vantagens que suavizam os aspectos negativos ligados ao uso algo patético da estética pobre à Zack Snyder, com o slow montion das cenas de batalhas que servem para evidenciar o quanto a personagem é mais rápida do que seus adversários e que cansa (muito). Aparentemente essa estética (escura, slow, poser) é uma tentativa de dar identidade visual aos (péssimos) filmes feitos pela Warner para a DC – um amigo me disse que o estúdio destruirá a DC, o que não duvidaria.

Entrando no mérito da adaptação cinematográfica o filme tomou a versão mais atual roteirizada nos quadrinhos por Brian Azzarello, o qual fez de Diana uma filha bastarda de Zeus. Em outra ocasião escreverei sobre as versões do mito de Diana, mas digamos por hora que a adaptação cinematográfica foi feliz em mostrá-la como alguém que descobre a si mesma como pessoa de carne/sangue. Ela cresceu acreditando numa fábula infantil e se descobre, em vez de uma mulher pura, imaculada pelo pecado do sexo em sua própria concepção, como fruto de uma união carnal entre o Rei dos Deuses e a Rainha das Amazonas. Como todos os filhos de Zeus é repleta de galhardia, dona de si e possui uma fibra ética sobre-humana. O caráter, essa utópica qualidade dos super-heróis, sempre foi a grande marca destes heróis e o filme escolheu manter isso em Diana.

Themyscera

Mas Mulher-Maravilha foi prejudicado pelos trailers. Afinal todos sabiam que ela era filha de Zeus e depois de ver todos os três trailers lançados era impossível não saber como o filme iria se desenrolar. A novidade seria como apareceria o vilão Ares, o que, para manter algum suspense, significou a impossibilidade de fazer o espectador empatizar com o personagem, que permanece oculto até o final do filme. O roteiro optou pela novidade ser o choque de Diana com a realidade do mundo do patriarcado e a Grande Guerra em meio a sua relação com Steven Trevor. O que implica em dizer que Diana descobre a si mesmo pela sexualidade e desenvolvimento afetivo. O mérito aqui é um roteiro bem escrito no que se refere ao desenvolvimento (exageradamente) lento, mas seguro da empatia entre ela e Steven. Mérito também da simpatia e fotogenia completa de Chris Pine e Gal Gadot como Steven e Diana respectivamente.  Ambos são simpáticos e cativantes. O roteiro amarra bem a forma como Steven se impressiona com Diana e não se sente diminuído pela “mulher-maravilha”. Caído no que ele chama de “Ilha Paraíso” (importante notar que é ele quem enuncia essa expressão pela primeira vez) nota-se que Steven é um homem diferente e que se esforça para admitir que Diana não é uma mulher convencional.

É na relação entre os dois que o filme realiza suas melhores piadas, confronta os mundos do patriarcado e do matriarcado e explora a domesticação feminina com uma mulher não domesticada em cenas como a da loja de roupas ou quando Trevor apresenta Diana como sua secretária aos generais, função que antes, ironicamente, a própria amazona havia comparado com a de “escrava”. A escolha de mostrar o cenário histórico do início do século XX chama atenção ao contraste entre as mulheres burguesas e uma guerreira arcaica, acentuando o descrédito dado a Diana, o qual, porém, é proporcional a confiança inabalável que ela tem de si mesma. Desta forma, louca para quase todos (exceto Trevor, que começa a lhe dar crédito), ela consegue seu lugar, na batalha, pela antiga imagem perturbadora da amazona (“o” guerreiro que não é homem e participa da atividade mais vedada às mulheres, a frente de guerra). Não se deve deixar de notar que o filme menciona a questão sufragista, mas não permite a Diana encontrar nenhuma mulher protagonista desta luta, o que demonstra seu distanciamento do debate feminista.

Fica evidente a novidade deste filme em relação aos de super-heróis já feitos: a trama emocional é tão importante para o desenvolvimento das decisões quanto as grandes batalhas da tela. Isso está ligado ao enfrentamento da misoginia e a solução que serve para conseguir convencer um público misógino (nós, espectadores do filme) e tornar palatável uma mulher que é capaz de esmagar qualquer homem. Em suma o amor fragiliza Diana, torna-a mais próxima do humano ao feminilizá-la como muitos acham que as mulheres deveriam ser. Uma balela evidentemente, mas que funciona no entretenimento de massa. Faz dela mais humana/mulher proporcionalmente enquanto ela se descobre deusa. Este jogo é dúbio como veremos em outro texto. Importante notar, porém, que em um descompasso jamais feito em QUALQUER filme de super-herói, a trama do coadjuvante amoroso é tão importante quanto a da protagonista. A rigor, quem salva Londres é Steven, o que revela mais uma tentativa de negociação com a misoginia do gênero. O resultado é duvidoso e incômodo.

Apesar de achar o filme longo demais as várias descobertas (de si mesma, dos poderes, da heterossexualidade – porque ficou evidente que ela conhecia outra sexualidade em Themiscera) tornam o filme repleto de ideias e cenas interessantes apesar do maldito uso daquelas poses, de alguns diálogos bregas, de algumas cenas ruins de doer e da última imagem do filme, absolutamente constrangedora.

Finalmente, o filme me revela que o mito da Mulher-maravilha é realmente obsoleto. Enquanto vemos todos os Avengers se consumindo em meio a escolhas morais ambíguas e humanas, em Mulher-Maravilha vemos a decepção dos deuses para com os homens, bem como a rejeição dos homens para com os deuses. Lembro de uma revista na qual Ares criou uma megalutadora feita a partir do cadáver da própria Mulher-Maravilha vindo de um futuro alternativo. Quem revela a Diana a origem de sua inimiga é a própria Atena – a deusa-paradigma da heroína. A deusa termina o diálogo comentando que a desgraça dos deuses é viver para além do tempo em que são necessários. Parece-me que este é o caso da própria Mulher-Maravilha.

Há algo fora de época no filme, como um sonho de infância (ir)realizado na vida adulta. Mas algo precioso é saber que sintomaticamente, nestes tempos de “ideologia de gênero” e de masculinidade (“tóxica” dirão alguns) como referência do herói e do super-herói, Mulher-Maravilha emerge como uma alegria. Filme singular este tolo Mulher-Maravilha, que propõe um desafio ao lugar-comum enquanto contempla a sensibilidade UFC que permeia nosso repetitivo cinema americano e lhe dá algum sopro (ainda que problemático) de novidade.

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