“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Arquivo para maio, 2017

Desilusão paranóica em Alien Covenant

No passado eu escrevi com algum entusiasmo sobre Prometheus. Infelizmente Alien Covenant não terá essa chance. Remeto aquele texto porque alguns elementos daquele filme continuam, ainda que completamente desconectados. O pior de tudo é que o que antes fora sutil em Prometheus e nos melhores episódios da serie Alien em Covenant virou pura vulgaridade. A nova fita é repleta de violência, mortes espetaculares e toda a suspensão é substituída pela espetacularização. Covenant é tão desigual, oscilando entre o seu foco principal (filme de monstro) mal resolvido e reflexão sobre o poder de Pigmalião. O primeiro aspecto é repleto dos fantasmas da conquista de terras distantes repleto de medo xenofóbico. O segundo, e o melhor do filme, têm a pior resolução ridícula, mas envolve uma ou duas cenas boas sobre a reflexão entre ser e criatura.  Em ambos os lados, como seria próprio, a paranóia ocupa o centro do filme.

Algumas palavras sobre a continuidade entre Prometheus e Covenant se fazem necessárias: a origem do monstro é explicada e aparentemente tudo acontece no planeta origem dos engenheiros. Digo aparentemente porque as várias lacunas deixadas pelo filme de 2012 são lançadas no lixo, limitando-se a obra de 2017 a explicar apenas três coisas: o que era o produto tóxico contido nos recipientes encontrados pela tripulação da nave Prometheus; porque David fez o que fez; e qual a origem do monstro-alien. Fora isso, as perguntas fundamentais sobre quem eram os engenheiros, por que fizeram o experimento, etc. são completamente descartadas. Isso tem haver com a escolha para a fita como filme de monstro. A serie Alien era uma mistura de filme de terror, suspense e filme de monstro. O monstro no cinema tem sido historicamente um híbrido que mescla elementos que deveriam estar separados e cuja existência seria impossível segundo as regras do cotidiano. Ele também está relacionado à produção de asco, nojo e incompreensão por sua hibridez. Como Covenant escolheu ser um filme de monstro espetaculoso, o alienígena assume importância, junto a outro monstro, David, o sintético sobrevivente do primeiro filme.

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O monstro do filme (chamado pela cultura nerd, hoje em dia, de xenomorfo) na serie original era de fato o “outro”, cuja crueldade e maldade não tinham procedência ou explicação. Ele metaforizava as várias formas de alteridade negativa, surgia de dentro das pessoas por usá-las de forma parasitária e sua condição de praga estrangeira trazia à perfeição um medo xenofóbico e uma paranóia em uma zona de fronteira (o espaço sideral). A partir de Prometheus ocorreu uma mudança nessa mitologia: o próprio homem fora um experimento genético dos “engenheiros”, e no reencontro com os criadores, torna-se uma matriz para elaboração do alienígena. Pior, a forma final alien é projetada por David, inteligência artificial sintética de produção humana. Numa escalada entre criador e criadora, teríamos a seqüência engenheiro-homem-sintético-alien de maneira que se a humanidade fora criada pelo “engenheiro” estrangeiro, o homem fornece o corpo do qual nasce, por intervenção de uma criatura sua (David), aquilo que foi chamado alien(ígena). Se a fita fosse mais refinada isso permitiria pensar que a condição de estrangeiro/alienígena é relativizada uma vez que a rigor, a criatura é um monstro por ter origem humana e alien, um “outro” impuro que emerge de dentro do “eu”. Mas nada tão rebuscado: Covenant só mostra paranóia e se refestela nela.

O problema da ser-criatura estrutura parte do enredo da fita. A escolha por transformar David como centro emocional da estória foi, em parte, o trunfo e a ruína de Covenant. Michael Fassbender praticamente carrega o filme, sendo a única personagem memorável. Dando continuidade a ideia da inteligência artificial revoltada, Ridley Scott abraça sua paixão por sintéticos, mas escolhe o pior caminho: transforma David em um andróide louco, nada próximo do desejo de vida de seus similares em Blade Runner. Desejoso de estar vivo, David só consegue imaginar-se nessa posição ao se colocar na posição de criador (deus), mas a forma como o filme mostra isso foi mostrá-lo como um psicopata. Não há mais nuance em David como havia em Prometheus. O encontro dele com Walter, uma versão futura e menos complexa psicologicamente dos sintéticos e igualmente vivido por Fassbender, teria potencial explosivo, mas o roteiro não fraqueja em deixar David personagem chapado. Ele é loucura sistemática fria que cria o Alien por puro tédio e falta de empatia. A personagem mais parece um menino mimado com veia psicótica. Covenant o faz remeter às conhecidas imagens dos cientistas loucos que desejam criar a vida pela morte, as corruptelas do monstro de Frankenstein, sendo que agora a própria criatura ocupa o lugar do Dr. Moureau. A cena final do filme com David com sorriso de monalisa olhando a personagem Daniels (Katherine Waterston), previsível desde meados da fita, é de uma tolice vulgar e segue a mal resolvida ideia do roteiro.

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Ainda assim, este último princípio rege as duas melhores cenas do filme. A primeira é o prólogo com o nascer de David junto ao seu criador Peter Weyland (Guy Pearce) em uma citação explícita a 2001 Space Odissey. Na cena, a incrível capacidade intelectiva do sintético se faz ver e seu pai se maravilha com a própria criatura. Weyland pede que David identifique uma imagem chave no recinto, A Natividade, quadro de Piero della Francesca, e assim o filme reforça a ideia de nascimento de Deus – ou a ocupação do lugar de Deus por Weyland como criador do sintético. No recinto também está a magnífica estátua do David de Michelangelo. Quando Weyland pergunta qual será o nome do sintético, este se autonomeia David, ou seja, assume a si mesmo como obra-prima. Respondendo a lenda de que Michelangelo teria pedido batido na estátua pedindo que ela falasse, esta finalmente consegue fazê-lo, mas em 2017, na voz de Fassbender como a criatura que se autonomeia. O prólogo de Covenant é uma seqüência de obra-prima e é frente sua grande qualidade que o filme claramente retumba em fracasso. Ainda assim, outra grande cena foi possível: a chegada da espaçonave que partira no final de Prometheus ao planeta dos engenheiros. Na única cena de flashback, David relembra como ele lançou a arma biológica projetada pelos engenheiros para ser enviada a Terra, sobre os próprios criadores. A cena do genocídio é de uma beleza sinistra e demonstra também a escolha de Covenant pelo espetáculo da catástrofe. Seu prazer paranóico com a destruição faz parte dessa sensibilidade contemporânea cinematográfica que se refestela no prazer visual da morte.

A destruição dos engenheiros encerra a busca de Prometheus por sentidos na vida. Covenant, o filme, recupera o mito bíblico da criação e a própria ideia de um acordo entre criador e criatura que está explícito no nome da nave, Covenant (Pacto), como uma ironia perversa. A nave colonizadora terrestre leva uma onda de pessoas para habitar um mundo e instituir uma colônia. Explicitamente retoma aquilo que chamei antes de fantasmas, uma vez que os humanos agem como historicamente os povos europeus e americanos têm agido há eras: invasores de espaços estrangeiros que carregam suas expectativas sobre os lugares e os seus habitantes. Uma vez que quando os “engenheiros” aparecem é apenas para morrer, que nada falam ou sobre eles nada se explica, Alien Covenant só nos mostra estereótipos de uma civilização desencontrada. Usando de um trabalho gráfico primoroso, a civilização alienígena é exótica e demonstra características estranhas: mais avançada que a humana, possui arquitetura monumental como os impérios inca, asteca e egípcio, repleto de estatuetas, cabeças gigantes e prédios monumentais com praças-campos de pouso solenes. Aparentemente beligerantes, parecem místicos em autoadoração ou adoração de deuses desconhecidos. Inexplicavelmente – falha de roteiro grosseira entre tantas outras – não reagem a chegada de uma nave sua que ficara estacionada em outro planeta há milênios. Não surpreende que essa caracterização seja paranóica e projete expectativas culturais megalomaníacas. Se o alien-bicho deixa de ser estrangeiro (ainda que permaneça monstro) o filme faz dos “engenheiros” criadores desimportantes a serem destruídos no jubileu vingativo de David. Niilista, o filme parece indicar que não há sentido na existência e que qualquer lampejo criativo humano (ou alienígena) é mero passatempo antes do homem ser morto por suas próprias criaturas.

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Afinal o filme é uma obra para sustos e ascos. Tudo é justificativa para uma luta desigual entre humanos subcapacitados e monstro perfeito. Ridley Scott nos trouxe obra menor, paranóica ao extremo cujo prazer advém da ansiedade com os corpos dilacerados, com os ataques dos aliens de variados tipos. Estes ataques já não guardam surpresas. Parece que já vimos tudo que um alien poderia fazer para matar alguém. Hoje ele produz apenas nojo, mas não mais assombração. Frequentemente de mau gosto, a fita apresenta cenas patéticas como o nascimento do primeiro alien genuíno abrindo os bracinhos ridiculamente para David. Obviamente, isso está relacionado ao prazer de espectador em sentir medo, nojo e asco ao ver um filme. Mas Scott já fora mais hábil ao produzir isso. Howard Hawks disse certa vez que um filme para ser bom precisa de três boas cenas. Apesar de possuir algumas imagens intensas e medos potentes, Alien Covenant é uma infeliz decepção com duas cenas boas que parecem saídas de outro filme. Scott confirma que como diretor é apenas um narrador competente que erra de vez em quando. Como agora.