“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Para quem Mel Gibson precisa ser autor?

O filósofo e jornalista Martim Cunha tentou repetir a façanha dos jovens turcos franceses dos anos 1950, transformando agora Mel Gibson em “auteur” na  Ilustríssima deste domingo. Para isso, ele invoca André Bazin, mas me parece cair em algumas armadilhas nas quais os jovens turcos  caíram. A autoria de cinema é uma faca de dois gumes. Serviu nos anos 1950 como uma possibilidade de avaliação de filmes no qual o comentário na imprensa criasse um “novo” tipo de artista. Graças a ela (e não a Andre Bazin, como Cunha apregoa), jovens críticos irascíveis como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer, Jacques Rivette e outros transformaram diretores como Alfred Hitchcock e Orson Welles em artistas ao nomeá-los como “autores”, responsáveis não apenas pela execução de uma obra, mas acima de tudo pela personalidade, sentido e pela importância de um filme.

De saída precisamos entender que nada tenho contra transformar diretores em “autores”. Este foi um procedimento que a crítica de cinema mundial se apropriou a partir da divulgação das ideias dos textos dos rapazes que escreviam na Cahiers Du Cinema principalmente a partir dos anos 1950. A autoria era uma forma instigante de amor da juventude ao cinema que tornava esta forma de arte em algo nobre na imprensa na medida em que valorizava um filme de Ingmar Bergman, por exemplo, como tão pertinente quanto um romance Marcel Proust ou um livro de filosofia de Jean Paul Sartre. Como ideia ela se popularizou e se tornou moeda comum entre cinéfilos e não cinéfilos do mundo todo. Por isso Steven Spielberg, leitor dos defensores dos autorismo americanos, projetou a si mesmo como autor no seu país e hoje isso aparece na própria publicidade de seus filmes. Mas autoria não é uma obrigação: qualquer comentário ou crítica cultural de cinema pode se desenvolver sem o uso da autoria e qualquer grupo de filmes ou produção de qualquer diretor pode ser lido sem se pensar diretamente na imposição de uma personalidade (hoje se usa a palavra refinada da “subjetividade” no lugar, mas prefiro a antiga neste momento) na composição de todo um conjunto de filmes cujos sentidos estão atrelados a ela e cuja proposta de escrever deve ser sobre ela.

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Dito isso, transformar diretores em personalidades impregnadas em filmes é um procedimento para enobrecer a pessoa do cineasta – nos anos 1950 funcionava também para enobrecer quem fazia a defesa dessa ideia. Martim Cunha enobrece a Mel Gibson como diretor (e a seus filmes como “obras de autor”) quando o propõe como “autor” fazendo a defesa do australiano como um investigador de um tema: a violência. Acompanha a formação do diretor como autor desde seu primeiro filme e mostra como Gibson fez-se um escrutinador do tópico da violência e suas conseqüências. No que concordo com Cunha: acho que Gibson seja um “autor”, no sentido de que seus filmes estão marcadas pela sua “personalidade” no nível dos temas e dos estilos de fazer filmes. Acrescentaria que as narrativas bíblicas e cristãs (nem sempre ambas são coincidentes) de martírio são a origem do seu interesse e delimitam a maneira de mostrar a violência como ele faz. Acho que Gibson está interessado na violência e em suas conseqüências, mas curiosamente a maneira de Cunha mostrar isso é positiva em si mesma, no sentido que ele produz uma valoração dos trabalhos por aquilo que aparentemente os filmes têm do diretor. Em suma: os filmes são interessantes porque parecem com os interesses da pessoa que os criou.

Cunha, porém, não escreve uma linha sobre a personalidade política nos filmes de Gibson nem sobre um traço fundamental que os franceses adoravam chamar atenção sobre os autores, o estilo. Chega ainda chega a sentenças que contradizem fragorosamente às imagens fílmicas, como, por exemplo, quando afirma que “para o diretor, a violência nunca vem de fora, do outro. Ela surge sempre dentro da civilização que a acolhe sem hesitar; irrompe em coletividades que decidem viver na ignorância de suas ações”. A pergunta seria onde estaria o “outro” de onde não emerge a violência, se em todos os filmes de Gibson que tive a oportunidade de ver, o outro do protagonista do filme (Coração Valente, Até o Último Homem, Paixão de Cristo para citar os mais famosos) é repleto de representação estereotipada de crueldade. No seu filme mais marcadamente religioso, o recente Até o Último Homem (2016), os japoneses são o poço da crueldade, enquanto os americanos são martirizados e um anjo humano (Desmond Doss) cristão e americano os ajuda na adversidade. Tanto o “outro” como o “nós” do qual o filme parte mergulham na violência, mas a matiz da humanização, no geral, só está no “nós” dos martirizados (Cristo, Wallace, Doss e os americanos).

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Também Cunha mergulha num equívoco que François Truffault e seus companheiros de revista frequentemente caíam. Na defesa de Hitchcock, por exemplo, era preciso dizer que John Ford não era grande coisa e que um filme “ruim” de um “autor” era melhor do que qualquer filme “bom” de um “artesão”. Aliás, autoria seria diferente de artesanato como a entendia Truffaut e também Cunha, o qual faz questão de dizer que Gibson é “bem mais do que um simples artesão de imagens”. Para Truffaut, numa dada época, “filme de autor” significava juízo de valor maior do que “filme de artesão”, no que ele recebeu pesadas críticas de seus contemporâneos franceses e não-franceses. A questão principal da autoria seria permitir pensar a relação entre personalidade e a valorização artística do que ela é capaz de produzir. Funciona, numa palavra, para produzir juízo de valor estético. Minha pergunta, portanto, seria: serem filmes de autor faz dos filmes de Gibson mais pertinentes cinematograficamente (vejam que não uso a expressão “melhores artisticamente”)? Para mim é uma questão a pensar.

A roda do comentário e da crítica de cinema e cultural já girou bastante e hoje sabemos duas coisas fundamentais: (a) o juízo de valor de um filme independe de sua qualidade de fidelidade a uma personalidade criadora – mesmo quando estão ligados, um filme é mais (ou menos) do que sua autoria; (b) toda imagem é complexa, inclusive as imagens dos filmes que possam ser classificados como facilmente como “ruins”, o que torna Gibson passível de ser comentado como autor e, mais importante, seus filmes comentáveis como filmes. O que me parece um equívoco é atribuir generalizações que esquecem, no caso de Gibson, que ele é estilisticamente limitado e politicamente discutível. Coração Valente era um filme comum e Até o Último Homem apresenta sérios problemas de execução do ponto de vista do uso dos recursos tradicionais do cinema, não propondo nada de novo (ou velho) no front. Nos dois filmes o carisma dos atores deu fôlego às obras. Tiremos Andrew Garfield e o próprio Gibson e as fitas desabam sobre si mesmas. Se autoria é uma realidade nas fitas do diretor australiano ela o é assim, medíocre no que produz como personalidade fílmica, ainda que ache interessante no que produz para além disso. Nisso concordo com Cunha que o tópico da violência nos filmes de Gibson merece um comentário generoso com as obras mais pelo que elas são e conseguiram representar no mundo contemporâneo e menos pelo que carregam como “personalidade”.

Concluo propondo um deslocamento que é, como tudo que escrevi aqui, um juízo tal qual o de Cunha: em vez de Gibson como autor e se pensássemos se Gibson como criador de imagens?

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