“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

O abandono do herói

A melhor coisa de Logan é não ser um filme de super-herói. A fita é um ataque direto ao Wolverine e sua franquia, a destruição de seu mito por meio da transformação do super-herói em personagem de um drama de morte e envelhecimento. Logan é filme abusivo da sensibilidade e dos tabus do espectador, extremamente violento, quase diabólico, mas também a mais interessante caracterização de personagem de quadrinho já feita para qualquer formato de não-gibi. Desrespeitoso com o personagem querido de tantos, Logan é mais instigante do que o próprio Wolverine jamais fora e, pela primeira vez, é cinema no sentido tradicional do termo, pois está deslocado do universo barroco do gibi.

Antes de continuar devo dizer o que penso sobre o personagem e os filmes de super-heróis. Este “novo gênero” se tornou o carro chefe da indústria hollywoodiana, a qual, aparentemente incapaz de gerar alguma mitologia nova por si própria, investe na atualização de mitos infanto-juvenis dos leitores de quadrinhos e espectadores de desenho animado nas diversas gerações que vão às salas de cinema hoje em dia: os adultos que foram adolescentes ou crianças nos anos 1970-1990 (meu caso) e os jovens adultos ou adolescentes dos últimos anos vinte anos, que foram crianças e começaram a ver os personagens em animações, quadrinhos e filmes. Wolverine, por sua vez, a mais fraca e descartável das franquias de cinema de gibi, era exatamente o que um filme do novo gênero parecia ser: over, superficial e espetaculoso. Já deve ter ficado claro que o personagem nunca foi grande coisa para mim quando era leitor de quadrinhos, pois o achava no geral previsível e chapado. Mas gostava dele ser uma masculinidade normal e desfuncionalizada: baixo, grosseiro, feio, peludo, próximo da animalidade masculina idealizada, Wolverine vivia os vários não lugares que seu poder cura lhe concedia – era o que um homem desejaria terem termos de poder, mas não conseguia ser o que um homem pode ser normalmente.  Transposto para o cinema lhe tiraram as características mais marcantes ao fazê-lo branco, alto, bonito e sensual na pele de Hugh Jackman, deixando evidente apenas o homem idealizado deslocado. Agora Wolverine correspondia a um mito masculino típico de nossa época: marcial, sexualizado, imortal, atlético, másculo, superpotente.

Wolve

Ora, foi justamente o fim desse mito que mais me encantou em Logan. Primeiro jogaram o personagem numa posição trágica: doente, velho e decadente, ele é obrigado a salvar alguém que descobre ser sua filha. Da grande base do personagem  sobrou apenas a imagem do velho homem cuja mitologia é investigada a partir do ostracismo de Shane (no Brasil saiu como Os Brutos Também Amam), aquele fabuloso filme de George Stevens de 1953 sobre o andarilho que faz justiça, mas está condenado à solidão. O filme soma a tudo isso o melhor ingrediente para tal tipo de personagem: a culpa! Não por acaso, a homenagem de Laura no enterro de Logan é justamente a fala de Shane para o jovem Joe, no qual ela repete para si mesma o que acha que diria o pai que já conheceu à beira do abismo.

O cinema americano é edipiano e se falo isso é porque os roteiros de Hollywood usam de Freud para escrever suas estórias. No final dos anos 1990 e início dos anos 2000 começou, porém, uma mutação, na qual os filhos, em vez de tomarem os pais como modelos para substituí-los, passam a ensinar os genitores a cumprir seu papel. Laura ocupa essa função no enredo de Logan enquanto o pai se recusa a trilhar o caminho em busca de si próximo da morte.

Neste sentido, Logan é mais interessante por dessexualizar o personagem. O corpo desnundo e as veias saltando de Jackman aparecem sempre lacerados, feridos, sangrandos. As feridas que não cicatrizam e a pele enrugada de tanta cicatrização é a marca do envelhecimento num personagem outrora imortal. Wolverine deixou de existir e se tornou apenas Logan e seu esforço é em não ser aquele personagem de quadrinhos que ele próprio encontra nas mãos de Gabriela e de Laura. Logan separa a vida da ficção, desmistifica o gibi e todo o filme existe para nos dizer que aquele não é o mesmo personagem das HQs. Quando emerge o X-24 como inimigo invencível, entendemos o que está acontecendo: um novo Wolverine surge para destruir o velho e feito a sua imagem & semelhança é o novo superando o velho, o grande tema do filme. Laura, neste caso, será o divisor de águas na medida em que, naquele caso, nenhum deles poderá sobreviver e que o futuro pertence às novas gerações.

Logan_Xavier

E aí está a coisa maravilhosa do filme, a humanização do super-herói em prol da pessoa em desgraça, a posição final que todo personagem ocupa nas mil faces do herói: próximo da morte, ele se revela em sua plenitude quando é capaz de ensinar o enfrentamento da morte, a maior das lições humanas. Para isso, Logan tomou a mais feliz decisão quando incluiu Charles Xavier como o coadjuvante mais extraordinário possível. Patrick Stewart fez uma das atuações mais tocantes deste ano de 2017 como um Xavier doente, velho, quimicamente castrado. Sua paralisia corporal funciona como metáfora da paralisia emocional do próprio Logan, fardo a ser carregado pelo homem branco culpado pelo desaparecimento do próprio povo.

Xavier e Logan vivem um destino abusivo: terem sobrevivido a sua raça e se sentirem culpados por isso. Os sobreviventes são aquelas pessoas que partilham o caminho do cadafalso por se sentirem culpados pela sobrevivência e serem obrigados a testemunhar em nome dos que morreram e que não podem falar por si. Xavier, Logan e um inesperado e muito bem vindo Caliban vivem a expiação tipicamente cristã enquanto punem a si mesmos. São testemunhas do genocídio racial dos mutantes, o crime contra a humanidade sempre tematizado pelos X-men. Isso está encarnado em Xavier. Desde X-Men First Class, Xavier é a criatura mais verdadeira dos X-men, o único personagem que não é apenas mito, mas essencialmente pessoa. Patrick Stewart conseguiu nos brindar com isso como poucos, incorporando a ironia da mente mais poderosa do mundo estar doente e condenada.

E a despeito de todas essas qualidades, é na abusiva estética da violência que Logan se revela: o corpo exposto de Jackman é um fetiche visual, seja na forma de Logan velho ou do X-24 invencível. As veias saltadas transformam o ator num ícone da escultura corporal a ser ferida e ofendida pelo filme. O corpo dele e de todos os algozes musculosos são destruídos em coreografia de sangue contra a luz, com cabeças rolando em demasia. A violência é over, mas casa com a proposta de encerramento da personagem. Mas o pior, para mim, são crianças transformadas em agressores, principalmente a menina Laura como agente de matança que dilacera corpos como gado no matadouro. Nunca um filme de gibi fora tão explícito no uso da violência e tão ofensivo pelo menos no que se refere na ferida física e na ofensa infantil. Abusivos, o sangue, as cabeças rolando, os cortes e as feridas são indicados de modo quase pornográfico para o padrão Hollywood. Laura é uma ofensa monstruosa à ideia da infância e ao feminino em chaves edipiana: sem mãe, casa com a história do pai para poder afinal tornar-se menina e mulher. É ela quem encerra tudo ao destruir o mais poderoso inimigo feito à imagem do pai.

Trata-se de uma nova mulher que está a nascer e um velho homem a morrer. Uma estética de cinema de uma indústria que procura seu lugar na construção dos mitos para as novas gerações. Logan é o primeiro filme de gibi que dialoga diretamente com a tradição de cinema e reescreve Wolverine como o herói americano condenado. Afinal alguma dignidade para Hugh Jackman, que viveu o seu maior momento no cinema.

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