“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

“La la Land”: o sonho na cidade dos anjos

Cores unitárias desfilando nas roupas dos atores, músicas doces, um tema musical repetido à exaustão, um galã delícia (Ryan Gosling), uma heroína simpática (Emma Stone), uma duração correta, bons movimentos de câmera, fotografia de realce do e contra o fundo e uma boa montagem: eis La La land: cantando estações, de Damien Chazelle. A unanimidade da imprensa para esse filme meio que me impressiona. Em geral o jornalismo crítico abraçou a obra e se falou até em nome pomposo de “experiência de cinema”. Esqueceu-se de dizer que reunindo todas as condições, La La Land é um filme feito para premiações que recauchuta a mais velha das estórias: a realização dos sonhos na cidade dos sonhos desde Cantando na Chuva. Lindo de ver e ouvir, impossível de não nos fazer torcer pelos protagonistas, esta fita sem antagonismo senão o do acaso da vida só faz isso revivendo a realização do sonho americano em formato neoliberal. Não me parece um grande filme, ainda que seja delicioso de ver.

A fita é uma declaração de amor cinéfilo. É preciso amar o cinema para amar La La Land e se reconhecer no sonho de Mia, que deseja ardentemente ser atriz e ocupar um lugar entre as estrelas de sua infância. Da mesma forma, Sebastian ama o jazz o que o distancia do mundo contemporâneo, que está apegado aos estilos industrializados que inundam a Bilboard. Seu sonho é abrir um novo clube de jazz para o verdadeiro e antigo jazz. Sabe-se que o jazz e o musical sempre foram idealmente amados pela indústria do cinema norte-americano. O gênero musical transformou-se no filme virando sonho, quando a tela torna-se o lugar da realização do imaginário. A música surgia nos filmes para aliviar a tensão e mostrar uma beleza tipicamente norte-americana. La la Land tenta seguir a tradição de Cantando na Chuva e responder a incômoda pergunta da jovem enteada de Julie Andrews em Noviça Rebelde, ao indagar-lhe, no final da fita, se todos cantassem, será que os perseguidores nazistas sumiriam. Não, não sumiriam, Fraulein Maria respondeu.

lalaland

Ainda é possível fazer do mundo de simulações de Hollywood um motor de paixões e de vida. Junte uma bela coreografia, faça os dançarinos usarem roupas em monotons acentuados pela fotografia apropriada que até a caótica e insípida Los Angeles fica interessante. O amor de Sebastian e Mia os deixa atraentes por serem perfeitos um para o outro: dois losers simpáticos. E todos amamos os losers simpáticos e que têm sonhos como nós pessoas normais, principalmente se eles dão certo e vencem as adversidades no final e viram winners. Para tanto, eles devem seguir caminhos opostos – embora o roteiro não justifique bem o por que.

E aqui La La Land entrega suas escolhas estranhas: se o jazz sofre de uma rejeição generalizada nos EUA certamente é pela competição com estilos industriais como o hip hop. Mas, estranhamente, o clube símbolo de amor pela música para Sebastian se torna um clube de tapas e… samba! Justo essa forma musical e que nos EUA soa mais exótica, será o símbolo da anacronia injusta do jazz. Fica evidente que La La Land não desagrada a ninguém e deixa de enfrentar as contradições de seu próprio mercado musical. O mesmo vale para o cinema: é o cinema de Hollywood quem mata os sonhos que La La Land apresenta. Contudo, é este mesmo cinema sobre o qual nada se fala. Mia ama a velha Hollywood, não a atual, na qual, porém, ela quer trabalhar. É uma imagem de Ingrid Bergman, que ela tem estampada na parede de seu quarto no início do filme. Contudo, a fita silencia sobre a Hollywood contemporânea. Trata-se de não atacar os opositores reais do que aponta para que La La Land tenha seu lugar ao sol. Assim, ele pode ser o filme oscarizável cuja grande campanha publicitária se faz pela grade de indicações a melhores do ano e eventuais (ou certeiras) premiações. A fita é a arte pastel que a Cidade dos Sonhos oferece uma vez por ano de maneira homeopática uma vez por ano para nos lembrar o que de fato ela tirou de circulação e que só deixa na memória cinéfila. La La Land é ambíguo como todo filme interessante deve ser.

Mas o que mais me chama atenção é o eterno medo dos losers. O loser é um tipo estrutural dos enredos fílmicos ianques: o sucesso na carreira confunde-se com o poder e a realização pessoal. O sucesso de Mia e Sebastian consiste em sonhos individualistas, respectivamente, de ser estrela de cinema e músico de jazz proprietário. Não há antagonista, senão os acasos de dois personagens sonhadores e atrapalhados e por isso, inicialmente, losers. Mas eles dão a volta por cima: Sebastian, para ser fiel a si mesmo faz as pazes com o mercado e se deixa cooptar; Mia, por sua vez, de uma forma mal respondida, consegue tornar-se uma estrela. Contudo, tudo tem um preço: no sonho que vira realidade não há espaço para o amor e para a paixão entre eles. A lógica puritana pune o amor em troca do sucesso material e simbólico: ser estrela no estúdio onde antes Mia era garçonete e proprietário de clube quando antes fora mero subempregado. Perde-se o amor em troca da felicidade original.

Mas La La Land é ambíguo e nos recompensa com seu belo final do amor não realizado. E aí fica claro que havia outro sonho no filme, que só na música poderia ser visto e sentido, quando Sebastian toca o tema do filme ao piano e o espectador, Mia e o pianista vêem o que poderia ter sido. Afinal, a lição de Maria em Noviça Rebelde foi aprendida: se cantarmos não afugentamos o mal, mas podemos lembrar melancolicamente a felicidade que não tivemos.

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Uma resposta

  1. Sim, detesto musicais. Não, não gostei da trama desde o princípio. Portanto, meu caro, suas letras confirmam meu faro. Obrigada!

    janeiro 21, 2017 às 11:57 pm

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