“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Nota

“Prometheus” e os fantasmas coloniais?

1. Numa noite longa num aeroporto chato estou a pensar sobre astrologia, desejo e céu. Nada como cinema para tentar organizar um pouco as minhas impressões. No avião no caminho de Fortaleza pensei sobre como o céu mudou de sentido, embora pouco se perceba sua mudança de aspecto. Mudaram as imagens associados a ele. Estava justamente lendo sobre como, segundo a astrologia do século XVI, o céu era a perfeição. Mas algo mudou e Prometheus, o novo filme de Ridley Scott permite ver isso em suas ambiguidades.

O filme é deslumbrante. Sua arte visual, enquadramento e competência narrativa são inegáveis. É o melhor filme de Scott desde o Telma e Louise. Não que Scott seja de fato um gênio, ele é um bom narrador, mas realizou apenas dois grandes filmes, dos quais retoma o primeiro, Alien, de 1979, neste novo. A retomada dialoga com uma tradição de cinema e com a riqueza iconológica do século XX.

2. A premissa do filme de 1979 era original: um monstro que quase não se via, que tinha uma boca dentro de outra e sangue ácido, com uma aparência memorável, que nascia depois de ser chocado como uma larva no corpo de uma pessoa no qual se hospedara e que, claro,  matava. Não só: retomava a questão da inteligência artificial, ensaiada por Kubrick em 2001 e mais tarde desenvolvida em Blade Runner pelo próprio Scott. Silencioso, o monstro invadia como um verme corrosivo ao qual ninguém poderia socorrer, pois “no espaço, ninguém podia ouvir você gritar”. Num futuro distante o encontro com o estrangeiro era marcado pela destruição do “eu” por dentro. Scott e sua equipe forjaram a mais involuntária metáfora do encontro com o outro, que se gera no próprio “eu” e destrói aquele que o nutriu. O germe entra como invasor, hospeda-se e destrói aquele que o nutre. Seria afinal esta uma metáfora improvável do etnocentrismo próprio do homem ocidental em sua versão americana?

Da minha parte o medo e o horror são maiores  pelo monstro que transforma em mãe/pai os homens nos quais cresce, numa solidão extrema frente à morte. As metáforas subsistem…

3. Prometheus retoma a origem do monstro, mas desloca o encontro com o estrangeiro extremo (o extraterrestre) pela revisão do mito bíblico segundo o qual o homem teria sido criado a imagem e semelhança de Deus. Numa das muitas histórias sobre a busca de Deus para enfrentar a dúvida da origem e solucionar a morte, a fita mostra a  tripulação da nave com nome do deus grego que fora punido por dar o conhecimento divino aos homens. Seu objetivo é encontrar os “engenheiros”, os prováveis criadores do homem num passado longínquo. Numa lua distante, os homens do futuro encontram escombros de uma civilização perdida que acreditam extinta. Encontram também um composto terrível que altera estruturas genéticas nos seres que com ela entram em contato e a partir do qual novas espécies com gestação parasitárias podem ser geradas. Apenas David, o robô com aparência humana consegue compreender os habitantes.

A fascinação e o medo seguem-se ao encontro de estruturas fantásticas e cadáveres dos habitantes locais. Logo os aliens são identificados, de fato, como criadores dos humanos, mas o ambíguo David, o androide ,tenta desenvolver o que os engenheiros fizeram. No final, um destes engenheiros ainda está vivo, escapa do confinamento de milhares de anos e decide cumprir uma missão  que fora adiada dois mil anos antes: levar o composto devastador para a Terra. Fica claro que os criadores queriam destruir a criatura, tal qual Iavé o fizera no mito do Gênesis.

O encontro com o criador é assustador: nele o homem descobre a si mesmo, no sentido de que se reconhece uma espécie bélica que cria humanos para depois os destruir por meios genocidas. Os deuses são iguais aos homens e olhar Deus no céu é como encontrar o abismo à sua imagem e semelhança. O sentido da vida é tão só o arbitrário militar num engenho de destruição. No final, a única sobrevivente (uma mulher, como na fita de 1979), justamente aquela que pariu o ancestral do alien da série cinematográfica original, decide encontrar os criadores. Ela entende que estavam numa base militar avançada e que haveria um Paraíso de origem dos engenheiros ao qual se poderia chegar. Agora ela deseja ir até lá para saber porque os homens foram criados e por que os criadores decidiram destruí-los.

4. Aqui um desvio de rota é importante, pois, no mito bíblico a evidência da culpa pelo dilúvio é absolutamente inescapável. Deus devia punir os homens que corromperam a Terra. Mas não são os homens os responsáveis pelo horror biológico que os “engenheiros” fizeram, uma vez que em Prometheus, o criador é tão pior que a criatura. Inocentes de seu próprio genocídio, os homens merecem saber o por que de se tornarem descartáveis. Agora são os deuses que nos devem explicações.

Sintoma de um novo mundo, no qual o reconhecimento da humanidade do divino é cada vez mais acentuado. A ficção de Scott, contudo, continua o investimento do Céu como uma fronteira do horror, habitado por demônios devastadores com vontade de desejo de destruir o homem. O Céu já fora habitado por demônios no período medieval quando os astros eram forças perigosas que só podiam ser movidas pelo mago demoníaco, mas o Céu não era habitado por estrangeiros, como a nossas imagens de cinema parecem sugerir.

Se Alien (e antes dele Invasores de Corpos, Guerra dos Mundos e congêneres) começou a lançar os estrangeiros no firmamento, apropriando perigosas mitologias fundadas na ficção científica novecentista do qual Guerra dos Mundos de Wells é uma matriz fundamental, este Prometheus segue também a linha de 2001 e Solaris, na tentativa de encontrar o mistério do universo e da origem. Não por acaso os dois filmes são explicitamente citados: 2001 na primeira cena com Sol e Planeta alinhados tal qual como no clássico de Kubrick ou no próprio David, o novo Hall 9000; e a fita de Tarkovsky na cena da Elizabeth Shawn andando pelos corredores da nave após “parir” a primeira larva.

Agora combinam-se as duas grandes tendências de habitar o céu com demônios e deuses numa só versão de encontro com o criador como a semelhança nada divina das criaturas. Na pior variação celeste/terrestre, agora criados pelos estrangeiros, somos objeto de seu desejo de destruição. No fim do fim, mais uma metáfora involuntária na qual vivemos os fantasmas coloniais que criamos de nós mesmos, elaborados a partir do olhar persecutório e neurótico americano. No espaço ninguém nos ouve gritar o medo de que o outro pode ser nossa própria origem – e nos odiar.

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4 Respostas

  1. Só há dois caminhos possíveis (e a que bem se poderia dizer um), no meio dos quais o eu e o estrangeiro se encontram, cada um vindo de um rumo, de um extremo a outro, pra se descobrirem um só, como desde o princípio: a vontade e a ausência dela; satisfazê-la e ter tudo o que quiser ou matá-la e ser tudo o que puder; um é o caminho do demônio, outro é o caminho do anjo – equilíbrio impossível, inconciliável, de que parecemos ser estranhos (e fugazes) exemplares – permanecer, por muito, a meio-caminho resulta em ser esmagado.

    julho 1, 2012 às 5:59 pm

    • Bonita ideia. Tendo a não concordar porque existem mais caminhos do que os deuses e demônios: estes só são claros num mundo de matriz cristã. Para muitos povos o “eu” é tão estrangeiro quanto o “outro”, ou todos são gente. Só é inconciliável se anjo e demônio forem contrários. E esta é apenas uma perspectiva.

      julho 1, 2012 às 11:47 pm

  2. Pingback: “Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra” | Passo por acontecer

  3. Pingback: Desilusão paranoica em Alien Covenant | Passo por acontecer

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