“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Um Olhar a cada Dia, Theo Angelopoulos

Theos Angelopoulos! O primeiro filme que vi dele foi Paisagem na Neblina, a tantos anos que sinceramente não sei. O vi em vídeo e o achei lindo. Soube dele lendo uma crítica que saiu na Veja em tempos distantes quando as poucas linhas ali escritas eram realmente capazes de incutir uma curiosidade irresistível de procurar a fita. Era a primeira vez que lia sobre seu diretor e sobre a linda cena na qual a menina é estuprada e não vemos nada. Imagem impregnada na memória.

Depois dele vi o magnífico A Eternidade e um Dia (1998), uma beleza em tudo. Descobri que Angelopoulos era daqueles cineastas que me agradavam, mas na época não entendia, de fato, o que nele me fazia suspirar. Imaginava a ligação com Tarkovsky, mas até aí, o uso do plano-sequência tal como realizado pelo russo não era privilégio deste ou de qualquer outra cineasta que me interessava. Aliás era o próprio uso deste recurso que remetia de um a outro e não qualquer vínculo genético. Vendo seus filmes, contudo, podemos observar a consciência poética e histórica do uso do plano-sequência na tradição cinematográfica. Mas não, depois veria, há uma contemplação, mas não da mesma de Tarkovsky!

Agora vi Um Olhar a cada Dia (To Vlema tou Odyssea), película de 1996, ganhadora do prêmio do Jurí de Cannes. Quando soube dele era com o nome de O Olhar de Ulisses (que ainda considero adequado) e o comprei surpreso sob o novo” título. Desta vez um cineasta exilado retorna à Grécia buscando três rolos de filmes perdidos de dois irmãos pioneiros no cinema grego e que teriam sido os donos do primeiro olhar cinematográfico do Balcãs. A fita mostra a busca do cineasta pela Grécia, Albânia, Croácia, Sérvia e Bósnia atrás deste “primeiro olhar”, algo, quem sabe, mais puro e capaz de nos fazer criar um novo elo com a realidade, criar um caminho naquele contexto devastado.

Gravado e pensado para os anos 1960, a película investiga um mundo devastado pela guerra, diferenças nacionalistas e étnicas, pobreza, melancolia, tristeza e morte. A busca do olhar torna nosso protagonista um Odisseu moderno desesperado por encontrar no cinema uma Ítaca na qual possa reinvindicar sua esposa e país. Como na leitura clássica de Adorno sobre a obra de Homero que é pelo filme remetida, ocorre uma busca pelo mundo que na verdade é uma busca interior, cujas motivações são tanto um acerto com o passado marcado por ditaduras, guerras e fugas, como a tentativa de construir algum horizonte de futuro naquele olhar nunca visto de um cinema primitivo.

Novamente Angelopoulos nos presenteiam com uma série de imagens monumentais e lindas. Juntanto a tradição do cinema europeu de uso do plano-sequência de desdramatização e de politização do enredo, investigando visualmente o balcãs e não mais a Grécia somente, Um Olhar a Cada Dia, se constrói em cenas que conseguem manter o interesse apesar da duraçaõ longa. Diria que o filme tem tantas boas cenas que fiquei impressionado.

Entre elas destaco o encontro dos manifestantes com os policiais logo no início do filme, a velhinha deixada sozinha numa rua de uma cidade albanesa, o fabuloso baile de ano novo que lembra Ettore Scola numa emocionante narração de como um mundo foi devastado pela história, a primeira apariação da estátua de Lenin, seguida da linda sequência da estátua sendo transportada numa balsa num rio que mais parece um mar, sendo saudada pelo povo pot onde passa, a divina conversa de Harvei Keitel (o cineasta) com Erland Josephson (o portador dos filmes perdidos) quando este concorda em restaurá-los e a linda neblina na qual Sarajevo volta a viver, em meio ao frio invernal.

Na verdade é quase o filme todo, o que só demonstra como Angelopoulos é capaz de construir um interesse que tira o foco da narrativa em si e se constrói na apreciação de um imagem que sempre parece disposta a dizer um pouco mais do que aparentemente ela seria capaz. Acreditando no plano e na imagem, dando-lhe e mantendo uma fé na capacidade de construir um mundo no qual o cinema parece capaz ainda de, anacronicamente, se sustentar como força artística e política no nosso tempo, Um Olhar a Cada Dia, é daquelas perólas que me mostrou que de fato o cinema moderno é quem tem o meu coração. Só que ele é historicamente situado… no passado!

Vê-lo fez-me sentir anacrônico como vejo o próprio Angelopoulos, desinteressado deste instante em que importa apenas a passagem sensacional. Quando não mais se é capaz de se situar num instante contemplativo, um momento de indagação emocional sobre o que a imagem oferece a ver, e nisso, a sentir. Reconheço essa estranha melancolia num diretor interessado na história e no cinema de sua espaço, capaz de converter sua indagação local numa questão universal sobre o sentir.

Capaz enfim, de entregar muito do ver e nos tirar aquilo que mais poderia nos chocar. Remetendo, na minha memória, ao estupro da menina em Paisagem na Neblina, uma família inteira, amiga e adorável com nosso cineasta protagonista, é morta em meio a… neblina! Já havia me derramdo em lágrimas com a imagem do frio nevado que acolhia melhor do que o dia claro as pessoas de Sarajevo, que podiam encontrar um abraço e acolhida em meio ao desastre. Logo em seguida, o horror que ninguém vê, que Angelopoulos me tira o direito de colocar.

Bem diferente de Tarkosvky, o grego tem controle da tomada e do plano para quem sabe nos liberar à liberdade de sua bela imagem, mesmo quando a esconde.

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7 Respostas

  1. Luzia

    Assisti ao filme e me emocionei muito. Conheço o sensível “Paisagem na Neblina” também.
    Seu artigo me salvou! A sensação de melancolia e a de beleza podem, sim, restar na memória pacificamente e curar!…
    Belo filme!

    janeiro 25, 2011 às 12:36 pm

  2. Larissa Fiodorovna

    Assisti ao filme há poucas horas. A mais bela poesia poesia em imagem!

    fevereiro 18, 2011 às 3:44 am

  3. Márcia Mendonça

    Adorei o texto, ele traduz exatamente a emoção e o sentimento que permeiam as obras de Angeloupolos. “Um olhar a cada dia” é obra-prima que nos contagia e nos faz refletir sobre a condição humana. O paralelo com Tarkovski,outro gênio do cinema, é extremamente oportuno.

    Márcia

    maio 26, 2011 às 5:47 pm

  4. Joao Neto

    Belo texto! adoro esse filme. Queria uma poesia lind dita pelo personagem durante o filme, acho que começa assim: “Quando eu voltar virei nas vestes de um novo homem”..
    Voce pode me enviar esse texto?

    julho 26, 2011 às 3:41 am

  5. Pablo Hafez

    João Neto,

    Esse trecho faz parte do penúltimo canto da Odisseia (se não me engano) de Homero.

    julho 30, 2011 às 8:29 pm

  6. Pingback: Adeus ao querido Angelopoulos « Passo por acontecer

  7. Monica

    A trilha sonora desse filme é de uma beleza etérea e impar. Tenho em CD e sempre tive vontade de assistir ao filme por causa da música. Ontem consegui e gostei muito. Faz a gente pensar. monica

    abril 30, 2012 às 7:01 pm

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