“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Animes desenhos e coração

você era feliz?

Acho que deveria abrir uma tag para Naruto aqui. Não sei explicar como consigo gostar desse anime-mangá. Acho que o vejo desde 2005, o que perfaz uma sobrevivência de cinco anos num mundo em que tudo envelhece rápido, no qual eu fico cada vez mais chato com filmes, livros, quadrinhos, pessoas, etc. Ou seja, Naruto é uma sobrevivência em todos os sentidos.

Primeiro porque possui um enredo carismático ao extremo e neste quesito o mangá é insuperável, mas a anime não fica muito atrás. O carisma de todos os personagens é imenso, mas principalmente o do protagonista e de muitos de seus coadjuvantes e antagonistas. Jiraya era maravilhoso, Sakura se tornou bem interessante, o Sasuke era muito bom (mas se tornou previsível), Tsunade também, Kakashi é a vida!, Iamato, Gaara, afora todos os sapos (meu sonho é ter um pra mim de pelúcia) o Minato, Sandaime, a (recém-aparecida) Kushina, etc. Entre os antagonistas Orochimaru, Sasori, Deidara, Nagato são os melhores.

O mais interessante é que o enredo torna tudo significativo, até os mais inesperados como o Sai ou o Danzou. Neste processo todos os personagens são humanizados, embora sempre haja algo de ideal na maior parte deles. Alguns são “mais gente”, como o Jiraya, outros chegam a ser incômodos de tão humanos que se tornam, caso do Sasuke, imagem perfeita do ser humano apegado as consequências da dor. Como se não bastasse, criam-se personagens-delírios como o Sai, Hachibi ou o Kazekage.

Uma coisa que me agrada em Naruto é o próprio protagonista que começa insuportável e vai se tornando cada vez mais agradável, divertido e humano. Em geral, Naruto é o personagem que mais me emociona. Ele tinha tudo para dar errado, a criança-problema (e não serão hoje, todas elas?) e se agarra ao pouco de amor que consegue construir e faz daquilo uma chama interna capaz de fazê-lo resistir até a Kyubi. Seria a “vontade do fogo”? O melhor é que ele cresce e amadurece encontrando quem o ajude.

Talvez seja este o ponto: ele encontra quem o estimule. Ele, em especial, que foi rejeitado, deixa-me muito tocado quando pergunta para sua mãe: “Mãe, você era um jinchiriki… e mesmo assim era feliz?” Já pararam para se perguntar o quanto esse momento é de uma entrega suprema, quando o narrador oferece para o espectador-leitor a desproporção da rejeição que Naruto sentiu a vida toda e que se materializa numa única pergunta, indagação maior de um coração que ele teimava em deixar inteiro, principalmente depois de ter descoberto que tinha um demônio no coração?!

E logo em seguida ele sorri, enquanto chora, e quase posso ouvir seus pensamentos: “Posso fazer isso também!” O mais importante é que Naruto só acredita nisso porque ele tem um elo com/em Kushina. E esse elo a faz servir de modelo para ele. Naruto é proporcional aos exemplos que elege para si, meio como a “miséria da influência” da qual nos fala o Harold Bloom: é se batendo com os maiores que você se torna um grande. Deve-se perseguí-los para superá-los. E numa época em que os pais são cada vez menores, uma estória como essa é sintomática de nosso tempo.

Naruto é um personagem único, uma força da vida que é humanizada enquanto cresce.

Escrevo tudo isso porque acabo de ler mais um capítulo lindo (Naruto n. 500) e ver o melhor capítulo do anime (Naruto Shippuuden n. 167) em muito tempo. Sempre que vejo sua pele queimando e sendo descascado pelo poder da Kyubi me machuca. Novamente ele está no seu maior estado de sofrimento e recebe da raposa de nove caldas a solução: destruir tudo! Acabar com a fonte da dor – talvez a resposta paradigmática do ser humano contra seus problemas desde as menoras às maiores ordens. O reencontro de Naruto com o pai é lindo no mangá e a primeira aparição de Minato no anime foi magistral. Afinal o que o enredo nunca nos deixa esquecer é que Naruto é só um menino que, de repente, é confrontado com o grande problema da humanidade: como enfrentar tanto ódio que se constrói tão fácil porque erguemos fronteiras, de qualquer tipo, entre nós, o tempo todo? Aliás, quando não sabemos ser de outra forma? Uma bela metáfora da passagem para a vida adulta! Como não canso de dizer, brincar de adulto não é fácil.

O inferno (e as preciosidades) de Naruto é cruel porque, exatamente como todos os seus personagens, é criado pela miséria (e graça) de vivermos juntos.

Minato e Kushina retornam como sombra de uma bela idéia: nossos filhos precisam de nós mesmo depois de estarmos mortos. Por maiores que possam se tornar, nossos elos sustentam nossos corações.

Num momento tocante, revejo minha vida! O poder da arte é fazer-nos colocar em perspectiva. Naruto é boa arte. Hoje, dado o conjunto da obra, com altos e baixos, digo isso sem medo. Afinal melhor do que qualquer outra estória que se conta na atualidade, com algumas excessões, é um grande drama de iniciação o que vejo na página e na tela.

Pelo visto ficarei ainda alguns anos vendo desenho.


mitos nos animes

Existem imagens míticas em muitos desenhos animados. Eles são repletos delas. Aqui seleciono algumas poucas, das mais belas:

1) Escuridão:

A invocação da escuridão por Eriol no último capítulo de Sakura Card Captors é uma das mais magníficas imagens míticas já feitas. O bruxo invoca as trevas e uma faixa negra (de luz negra?) escapa de seu báculo e atinge o zênite. Do ponto onde isso ocorre, ondas escuras se espalham pelo céu como se ele fosse o próprio mar e escuressem tudo. Lentamente o Sol e a Lua são escurecidos e o mundo mergulha num grande sono cujo único similar possível é a morte.

2) Bankai: senbozakura Kageoshi:

A mais mítica das zampakutous de Bleach é a portada por Kuchiki Byakuya. Sua espada cai no chão e desaparece e muitas lâminas gigantes se espalham pelo ambiente. Estas se desfazem em milhares de pétalas de cerejeiras que se espalham pela atmosfera dilacerando tudo que tocam. a cerejeira sempre foi uma imagem relacionada com a beleza do tempo que se realiza nas efemeridades de suas folhas. E sembozakura torna-se uma perfeita metáfora do tempo dilacerante.

3) Raposa de fogo:

Num dos capítulos mais interessantes de Naruto, o ninja é possuído por Kyubi. O fogo assustador e malévolo que constitui o demônio raposa de nove caudas consome o pobre menino e queima sua pele, deixando-o em carne viva, misturando seu sangue em sacrifício à raposa enquanto enfrentava outra imagem mítica como inimigo: Orochimaru, uma serpente que rensce constantemente. O preço do poder é o sacrifício da pele e do rosto, afinal o que é a pele e a face senão a própria alam refletida, que consomida nas chamas dá lugar a ira do fogo?


lista de quadrinhos?!

Hoje vou fazer uma daquelas coisas inúteis para ver se afasto alguns pensamentos chatos, antes de voltar a estudar. Pensei, pensei, pensei e decidi cair em listas. MAs de quê? Que tal de quadrinhos, do tipo: doze quadrinhos que estão entre os melhores que já li? Bem, imaginei uma lista mutante e provisória que segue adiante sem ordem de preferência, exceto a de já estarem na listinha.

1. Monstro do Pântano:

A mais bela das criaturas num corpo disforme, mas esta fera não vira príncipe. Primeiro, nascido Alec Holland, depois apenas Monstro do Pântano mesmo, suas desventuras com Abigail, Costantine, a Brujeria, Arcano, as Trevas Originais, Etrigan, etc, me fascinaram. Jamais esquecerei quando ele entrou nas Trevas em resignação e conversou com a escuridão com serenidade invejável. Ao final do embate definitivo, tudo permaceia igual, mas o sentimento, este estava diferente. Alan Moore fez pura poesia com a umidade e os cheiros fortes do pântano nos desenhos de Rick Veitch e Stephen Bissete.

2. Sandman:

Este quadrinho especial com desenhos nem sempre à altura de seus protagonistas. Neil Gaiman idealizou a família mais sinistra, estranha e impressionante ao tornar irmãos destino, morte, sonho, destruição, desejo, desespero e delírio/deleite. As desventuras de Sonho, o Senhor das Histórias, muito bem traduzido no Brasil como senhor das História e não das estórias, provou que Freud não havia acertado enfim o que é um sonho e seu corretalo, o pesadelo. Sonhos não são desejos, mas a matéria-prima que só aparece na forma de história. E Sonho, que é lindamente desenhado por Mike Dringenberg e alguns poucos outros, sempre foi um dos poucos personagens com quem consegui me identificar mais plenamente. Gaiman nunca admitiu mas tudo começa com a irmandade da morte e do sono na mitologia grega…

3. Nausicäa do vale dos ventos:

A menina dos sonhos. A moça pefeita apaixonada por tudo, cujo coração é feito do ar gostoso, nem muito quente, nem muito frio. Já escrevi sobre ela aqui, Nausicäa, a amada dos Ohms, a única que compreende o que é o Mar Podre. Uma história ecológica dos anos 1980, que mostrava o coração ruim do homem contraposto ao coração bom da doce menina. A sensibilidade da domadora dos ventos me impressiona. Acho que ela é minha parenta, filha de águas doces com o tempo. Como não amá-la? Hayao Miyasaki, desenhos a argumento que tocaram os céus.

4. Akira:

A maior reflexão intelectual que os quadrinhos já viu. Tudo que veio depois dele é menor. Há outras coisas mais bonitas, mais inteligentes, até mais espertas, menos pomposas e pretenciosas, mas as aventuras de Kaneda, Tetsuo e companhia permanecem como uma indagação sobre o humano. O homem, caminha olhando para a sola do próprio pé, nos lembra uma das personagens. Katsuhiro Otomo criou uma das obras máximas do quadrinho japonês.

5. Ken Parker:

Frequentemente os italianos fazem faroestes mais bonitos que os próprios americanos. Interessante ver que o melhor deles é realmente italiano, de duas pessoas que se apropriaram da mitologia alheia e criou poesia lírica e reflexiva sobre os mitos do mundo das fronteiras no oeste americano. Sobre os roteiros lindos de Giancarlo Berardi e os desenhos magníficos de Ivo Milazzo, este gibi conquistou meu coração ao mostrar com piedade e compaixão a morte de uma foca numa das mais belas histórias em quadrinhos que já li.

6. Do Inferno:

A perversidade. O tanto que Alan Moore foi capaz de fazer um terror lírico, ele foi capaz de tocar a imundice humana e mostrar como a transcendência está fincada na carne. Este quadrinho sobre uma hipótese para Jack, o estripador, conta com um roteiro soberbo e um desenho absoluto de Eddie Campbell. O quarto capítulo da série é uma das coisas mais assustadoras que já li. Teoria conspiratória? Também, mas acima de tudo, poesia sinistra do caos. O mundo é melhor com loucos como Alan Moore escrevendo loucamente para nós e para o futuro.

7. Evangelion:

Na mesma linha de Akira, pergunta sobre o humano, mas diferente daquele consegue compreender a transcendência como uma permanência no mundo, ou seja, como uma eternidade fraturada, um contra-senso teórico e só possível porque poético. Que são os anjos? Que são as crianças? O amor de Shinji e Rei são tocantes ao extremo. Rei, em especial, jamais é humana justamente por ser humana demais. E o herói é um personagem fraco e inseguro que tenta desesperadamente conseguir carinho. As lições da infância são mortais oas adultos desse quadrinho, onde cada um tem mais pecados do que é capaz de pagar. O improvável amor de Kawouro por Shinji, idealizado por Yoshiyuki Sadamoto é o foco de como anjos e homens se tornam tão parecidos e diferentes.

8. Sin City:

Esta é a maior beleza que Fran Miller já escreveu. E é o menos pretencioso dos seus gibis, o único no qual ele quiz se divertir com o preto e branco e o úncio no qual ele equiparou seu talento de roteirista e narrador com seu desenho tosco e imperfeito, mas ideal para a trama quie criava. Ele fez coisas mais inteligentes e profundas antes e depois desta série, mas nunca atingiu a perfeição como aqui. Uma reinvenção dos quadrinhos para os anos 1990 sem qualquer reflexão ética, mas novamente dotada de homens obsessivos e obsecados formados por um código moral pessoal inabalável.

9. Little Nemo:

Se fosse escolher o melhor dos quadrinhos, escolheria este. O mundo dos sonhos é lindo da poesia de Winsor McCay. Como pode alguém ser tão impressionante e mostrar ininterruptamente o avanço e frustração do pequeno Nemo rumo ao encontro de Morpheus para depois mostrar as formas como ele se deu com o rei? O surrealismo pouco tem a ensinar a McCay, mas muito a aprender, na forma como as imagens podem ser feitas e refeitas pela imaginação que corre à pena.

10. Mafalda:

A menina mais inteligente do mundo é dona do quadrinho argentino mais badalado do mundo. Mafalda, Miguelito, Felipe, Susanita, Liberdade, Manolito, etc, são parte de uma galeria única de personagens que brigam para encontrarem o lugar no mundo. O desafio de seu criador, Quino, sempre foi dar consciência adulta a uma criança, fazendo de uma impossibilidade real uma realidade poética. As indagações de Mafalda frequentemente são as minhas. Como ela, me pergunto como Miguelito faz para não se contaminar.

11. Novos Deuses:

Queria pôr aqui tudo que já li sobre o Quarto Mundo de Jack Kirby. Quando o conheci achei seus desenhos feios, mas hoje compreendo o que representa seu traço. Em especial lembro do sentimento de inutilidade do Super-Homem quando foi na Supercidade e se descobriu apenas um entre muitos. Kirby denunciou como ninguém, numa história simples, o que definia a personagem. Mas são as aventuras de Órion e sua marcha rumo ao encontro com seu pai Darkseid que mais me impressionaram. O final que o autor criou na batalha de Pai contra Filho foi uma surpresa aterradora. Kirby é realmente “o Rei”.

12. Homem-Animal:

Tenho uma relação complicada com Grant Morrison. O tanto quanto gosto dele o acho pretencioso e exagerado. Mas seu Homem-Animal, com desenhos não tão bons, foi a mais bela de sua criações. Poucas vezes chorei lendo um quadrinho, mas o capítulo final na qual o pobre protagonista encontra seu criador e este lhe avisa que está encerrando sua participação porque estava se tornando um panfleto é muito bonito. O protagonista reencontra sua família num emocionante abraço junto com o sentido da vida. E foi de lá que compreendi que o mar era também uma das peles do mundo.

Essa lista tem uma etiqueta clara de quem começou a ler quadrinhos por meio do gênero dos super-heróis: a presença de tramas fantásticas, com personagens dotados de poderes, além de ter me formado numa geração “vertigo”, com algum gosto para filmes de terror, além de desenhos animados.


Avatar

Tenho acompanhado agora Avatar. Resisti a moda deste desenho enquanto pude mas enfim pude ver algumas cenas que me deixaram interessado.

O desenho tem uma composição dramática bem básica no qual, exceto por raríssimas vezes, muda o próprio estilo. Em geral, é sempre uma situação dramática que tem que se resolver no espaço de um episódio, no qual tem que ocorrer alguma luta que deixe os espectadores babando pela forma como os personagens usam os elementos da natureza como armas.

Devo admitir que quanto a isso, o desenho é bem sucedido, pois eles conseguem imaginar inúmeros e improváveis usos para os elementos. No último capítulo que vi, Aang, o avatar, capaz de controlar os quatro elementos, manipulador a terra de formas inesperadas. Avatar é um desenho que pega pelo visual inspirado, misturando o esquema norte-americano de animação com o estilo japonês, que está presente até na quantidade infindável de referências orientais presentes, além é claro de uma animação acima da média para os padrões dos EUA.

Admito ainda que gostei bastante de Aang, personagem singelo e divertido, puro e bonito, e que é capaz de violência sem paralelo se provocado.

É um desenho descoberta que parece ter um final previsível, o que será uma vantagem, visto que as boas animações como Bleach e Naruto insistem em se perpetuar eternamente, esgotando qualquer paciência.


San no Mai

O meliante ri enquanto sustenta o corpo de Rukia transpassado por seu tridente. A shinigami lembra que seu outrora professor lhe dissera: o coração é uma relação. Não se deve morrer sozinho e confie sempre seu coração aos amigos, pois o laço, ele lhe perpetua.

Enquanto o piano toca e Rulia lembra, mortalmente ferida, ela ergue sua espada quebrada pelo inimigo. Avisa-lhe que lembra! Invoca sua ‘San no Mai”, a terceira dança, ‘shirafune’ (espada branca), e sua bela katana gelada se restaura atravessando a cabeça demoníaca. Poderia ler essa cena psicanalíticamente sobre a força fálica da espada que se refaz. Antes disso, me impressiona outra coisa: só se recupera porque o movimento de busca está em ação, porque o laço é a força atuante que alimenta a restauração e não o contrário como acreditaria Freud.

A memória, essa coisa poderosa que nos coloca entre humanos, essa memória de relações e exemplos restaura o brilho nos olhos de Rukia, que às portas da morte, cumpre sua missão: manter o laço inteiro. A honra de Rulia caminha pelo laço.

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Os japoneses sabem como mostrar a devolução de uma força a um espírito pela escuridão e restauração da luz nos olhos…

Novamente Bleach me emociona!


Nausicaa do Vale dos Ventos

Ontem vi Nausicaa do Vale dos Ventos (1984), o filme. Tenho lido o mangá publicado no Brasil em vários volumes pela editora e devo dizer que as alterações na estória original são inevitáveis e o resultado é muito bom.

Embora ache o longa irregular, ele é muito ágil e frenético, mas contem toda a poesia e ternura do original. O elemento de terror e sinistro que existem no mangá foram, contudo, retirados de cena, fazendo com que ficasse mais sutil a linhagem que Nausicaa faz com Viagem de Chiriro e Princesa Mononoke, também de Hayao Miyazaki. Na verdade, Nausicaa, o longa, fica mais próximo de Totoro e Castelo Animado.

Contudo a magnífica trilha sonora, e os afrescos que como pinturas rupestres contam a história do mundo e o surgimento de um salvador (que será Nausicaa) capaz de se comunicar e fazer ceder até mesmo os Ohms, é extraordinário. Ponto em especial aos Ohms, este ser gigante e lindo, massa de destruição e proteção. É lamentável apenas que a integração dos bichos com a heróina seja menos óbvia e mais sutil. Ouvir as palavras dos Ohms é uma das alegrias do mangá.

Mas os afrescos contam o filme são especiais, pois anunciam Nausicaa como uma moça alada, vestida de azul e dotada de asas brancas, que pousa num campo dourado empapada de sangue da terra. Quem ver o filme entenderá essa bela imagem.

E os Ohms, criaturas extraordinárias e mágicas, assustadores, bem como o Fukai, o mar podre, com suas plantas venenosas que contraditoriamente purificam o mundo do abuso do ser humano. A grande pergunta de Nausicaa do Vale dos Ventos aos anos 1980, época em que foi feita, continua válida: será este o nosso destino? Sermos engolidos por nosso lixo? Na mesma época, o Monstro do Pântano de Alan Moore construia histórias igualmente assustadoras sobre o destino da Terra-natureza e do uso desvairado de nossos recursos por necessidades e interesses mesquinhos. O mundo é vivo, dizem-nos os dois quadrinhos (duas das melhores coisas já feitas em HQs) e o anime. E somos parte dele, o qual infelizmente não é infinito.

Uma pena que pessoas tão boas como Nausicaa só possam existir em sonhos. Tanto amor e altruísmo por tudo, numa compreensão que só uma personagem de sonho poderia ter.


princesas chinesas e européias

Este blog não tem proposta! Serve para nada. Serve como desabafo ou como apenas espaço de vomitação esparsa de palavras integradas a temas internos e externos à pessoa que o escreve. Em tempo, poucas coisas me interessam no mundo dos vivos!

A Disney finalmente vai lançar um desenho com uma princesa negra. Chama-se The Princess and the Frog. Desde a década de 1990 Disney tem se tornando mais ‘etnicamente engajada’, tipo assim, com uma ou outra personagem claramente pertencente a alguma coisa externa ao padrão anglo-saxão. O resgate de A Pequena Sereia deu oportunidade de fazer coisas como Pocahontas, com uma princesa índia (o mais massacrado povo dos EUA), Mulan, que mostra chinesinhos adoráveis, Lilo e Stitchi, com aquele fenótipo hawaiano que cede ao exótico, ou mesmo A Nova Onda do Imperador, que mostra o mundo pré-colombiano.

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O choque e quando se percebe que todos os multi-etnicos são estórias que por mais fantasiosas não se constituem mesmo como conto de fadas ou contos maravilhosos. Todas as heroínas e princesas da Disney são sempre lindas, brancas e européias quando o conto é referente apenas ao imaginário infantil que ela toma como referência. Como é difícil negar a realidade, retratando o Hawai ou a China, colocar uma protagonista loura dos olhos azuis seria uma violência gritante, mas o curioso é que a cor da personagem só muda quando fica clara a região do mundo do quel ela vem.

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Se o conto se dá na terra da fantasia (Cinderela, A Bela Adormecida, A Bela e a Fera) a moça é sempre linda e européia. O caso mais gritante é A Pequena Sereia, no qual, o mundo submarino, claro, só poderia ter sereias brancas, lindas, louras ou ruivas com olhos azuis. Diriam-me que exagero pensando que as sereias são uma lenda européia e não poderia ser diferente. Correto. Mas não falo de uma tendência, não de um filme. No mundo do conto de fadas pleno, na Disney, os ideais são sempre eurocêntricos; no mundo da realidade, os ideais podem ter outras origens.

Graças a Deus, a realidade faz pressão sobre a ficcção.


Trocando de pele

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Orochimaru estava de frente a Kyubi minuatura e abriu sua boca. Dela escaparam milhares de cobras que numa maré verde escuro se lançaram sobre a pequena raposa de quatro caldas. Cada cobra abriu sua boca, da qual saia uma espada pronta a destruir a pobre raposa.

Depois a raposa lançou sua mão sobre Orochimaru, que entrou em contato com a quentura de Kyubi. Percebendo o efeito daquela mão, o shinobi abriu sua boca e dela saiu outro Orochimaru enquanto o anterior era dissolvido pelo toque fervente de Kyubi. Como uma cobra, o sannin cuspidor de serpentes troca de pele para sobreviver.

O poder, o grande poder, invejável aos deuses, é uma marca de desumanização em Naruto. Em geral, o excesso de poder faz com que seu usuário perca sua humanidade e neste quesito Orochimaru e Naruto transformado em Kyubi são exemplares. A força de Kyubi quando se apossou de Naruto queimou sua pele numa das mais aterradoras cenas que já vi num desenho animado. Para transformar o garoto num duplo seu, a raposa consumiu sua pele inteira e o deixou em carne viva. Quase chorei vendo o pobre menino desesperado para recuperar seu amigo deixar de ser gente para virar literalmente um monstro descarnado.

Já é de longa data que Orochimaru é a imagem ideal da pessoa que por desejo de poder deixar de ser a si mesma para se tornar um arremedo de seu ideal. Associando-se a idéia de serpente, transforma seu corpo em uma, atira cobras da boca e das mãos, troca de pele, desmodela o corpo, ressuscita mortos tornando-os zumbis, e desesperadoramente, luta com todos os poderes para evitar a morte. Por isso se mistura a um símbolo da eterna renovação: a cobra que troca de pele e cresce tanto a ponto de engolir o próprio rabo, criando no corpo o círculo do tempo que se transforma e jamais acaba.

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Orochimaru é a criança que vê uma pequena cobra nascendo e, partindo dessa imagem, muta a si mesma e perde o que a fazia criança. Desejava e cobiçava com orgulho e medo o poder. Nada pode ser tão humano, mas exatemente por isso, para obter o que quer sem ética ou moral, deixará de sê-lo. Orochimaru é um lição imaginária do preço que se pode pagar por negar demais o preço de estar vivo. O problema não é o desejo, mas a cobiça.

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O sennin está morto

Jiraya era um dos meus personagens favoritos. E ele morreu bravamente enfrentando alguém cujo poder era maior do que o seu. Ou seja, alguém muitoooo forte. No final, revelou uma vida cheia de frustrações acumuladas, e, envergonhado com o caminho que não conseguiu seguir, redescobre a si mesmo em Naruto.

Houve alguma inversão em algumas das tantas estórias que se contam hoje, de Nemo a Naruto na qual os jovens ‘ensinam’ os velhos a serem pais. Jiraya é um dos sennins, um dos gênios de Konoha, e também ele foi tocado pela energia sincera de Naruto, talvez a maior qualidade deste jovem shinobi que possui um demônio-raposa no coração.

Chorei com sua perda, com a tristeza de um fim nostálgico e brumoso, sozinho e abandonado, mas corajoso frente ao horizonte da morte. Quero ter essa fortaleza quando enfrentar os trancos da vida, e, na minha morte, ter o mesmo coração para me levantar e encará-la de frente. O shinobi é uma conduta: a da resolução tomada. É enfrentar o inimigo final e pensar que algo continua de vc, nem que seja seu ato efêmero. Importa como significamos nossa vida.

Quem sabe seja essa a lição que tiro de Jiraya.

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Sasori

Ele me assusta. Alguém que perdeu os pais e aprendeu as artes das marionetes, se tornando um tintereiro. Os primeiros bonecos que criou foram feitas à imagem e semelhança de seus pais. Como não conseguiu controlá-los bem, os bonecos cairam no chão se quebrando. Naquele instante algo mudou! Sasori perdera a inocência e passou a criar marionetes cada vez mais mortíferas e a matar pessoas para criar títeres a partir de seus corpos.

No limite Sasori transformou o próprio corpo numa marionete. Peça que nãso sente dor, alma capaz de se reinstalar repetidamente por corpos com repletos de peças remontáveis. Assim como o objetivo do Alquimista era transformar a si mesmo e não às coisas, Sasori queria fazer de si mesmo imortal, renegando sua humanidade.

Que quer dizer? Que não suportando a dor de ser humano e da perda, ele escolheu ser boneco, marionete ou máquina. Mas para isso teve que transforma sua alma numa coisa indolor também.

Sua morte foi terrível. A^avó de Sasori varou o que restava de humano em seu corpo com duas espadas, cada uma sendo empunhada pelos dois bonecos que foram feitos à imagem de seus pais. Os nomes dos bonecos que o mataram eram sinistramente “Pai” e “Mãe”.

Não sentir: eis o horizonte supremo de quem teme a vida! E é obrigado a escolher viver doutra forma…

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Riscos, elos, capítulos, Bleach

Manoel dizia que cada plano é um risco.

Hoje vi o novo capítulo do Bleach. Para mim histórias são histórias, vindo de onde venham, do desenho animado japonês ou do mais belo filme de Tarkovsky, do meu amado Manoel de Oliveira ou de Sokurov. Vi Orihime no Bleach. Minha supresa maravilhosa foi relembrar a frase que é tão dela, mas que se tornou minha pela singeleza de sua personagem. Não é uma grande frase, apenas é grande quando inserida no contexto, mas é lindo saber que existe alguém no distante Japão que pensou a chuva como eu a penso, um elo, como as árvores….

Orihime se perguntava: “Se eu fosse a chuva, que cria um elo entro o céu e a terra, que não se unirão jamais pela eternidade, poderia atar dois corações?” “Elo”, palavra mágica da arte que comunica. Os grandes filmes e livros fazem isso: criam elos, alianças e cumplicidades.

Para alguém como eu, que tenho uma árvore no coração, esse ser que “recebe a chuva de galhos abertos”, como diria o Arnaudo, faz todo sentido.

Cada plano é um risco, diz Manoel. Concordo – o “elo” é o risco do plano!


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