“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Mundo em pedaços ou Melancholia (2011), de Lars Von Trier

Finalmente retorno ao Melancholia, o grande filme de Lars Von Trier. Existem instantes mágicos no cinema no qual grandes filmes falam uns com os outros e se contrapõem, mostrando diferentes perspectivas do que é humano. O filme de Trier mostra uma grande força gravitacional que ameaça o mundo atual, a tristeza metaforizada e materializada na chegada do planeta que engolfa a Terra.

O mais interessante é o retorno à alegoria: eis a Terra, o nosso mundo, recebendo a visita de um astro titânico, Melancholia, muito maior do que a bolota azul-marinho e branca. Ele passa próximo ao nosso mundo. No início as pessoas passam mal, pois, como diz-nos o personagem John (Kiefer Sutherland) sua gravitação abocanha parte de nossa atmosfera. Ficamos sem ar! Depois se afasta um pouco e tudo parece melhorar, mas então, subitamente, volta-se para nós e espatifa a Terra em sua superfície. As alegorias podem ser muito básicas, esgotando seu sentido quando deciframos seu objetivo. A obviedade da interpretação da fita de Trier seria incômoda se não fosse encarnada no força do sofrimento das personagens.
O filme tem três partes. A inicial é uma sobreposição de imagens que se comunicam tanto com o mundo dos videoclipes atuais quanto com a tradição pictórica e cinematográfica ocidental. De Jacques-Louis David a Andrei Tarkovsky vemos a produção de imagens saturnais ao som de Tristão e Isolda, de Wagner (que construiu uma apoteótica peça melancólica do amor impossível do cavaleiro com a princesa). Esta sequência sem diálogos encerra com a colisão dos mundos. Música clássica em imagem “pós-moderna”.
A segunda parte, desesperadora, mostra o fracasso do casamento de Justine, Kirsten Dunst, em meio a um surto depressivo. São momentos intermináveis de vergonha pública que mostram a falência de sentido para uma pessoa que sofre de uma doença saturnal crônica, a depressão, ápice devastador de certo tipo de melancolia. Justine percebe a chegada do astro antes de todos, mas ninguém a escuta.
A terceira parte mostra um longo final no qual o personagem-título da película surge. Justine chega na casa da irmã Claire, a maravilhosa Charlotte Gainsbourg, e enquanto a primeira se destroça na semi-morte da própria alma por sua doença espiritual, a segunda tenta conter o medo da morte. Já o marido de Claire, John está fascinado pelo visitante, mostrando o estranho charme que a melancolia cultiva nos espíritos. A aproximação do astro, de repete, revela-se fatal e apenas Justine, num último lampejo de força, que tudo percebe como horror e anulação inevitável, tem a sensibilidade preparada para o fim. Ela serve de esteio para uma família abandonada diante do apocalipse sem esperança de um novo céu ou nova terra.
Duas imagens se sobrepõem e atraem para minha memória Tarkovsky. A primeira é do filme O Sacrifício, cuja última cena é do menino mudo regando a árvore morta, quase somente gravetos secos, uma cena melancólica de esperança em meio ao sacrifício do artista. Imagem da esperança naquela já distante fita de 1985, foi retomada na forma de um abrigo de gravetos montado por Justine para proteger sua família na cena final de Melancholia. Mas neste filme de 2011, Trier a transforma em metáfora de esforço insípido diante da morte. A segunda é que o próprio filme de Trier funciona tal como o sacrifício de Domeninco, personagem de Nostalghia, fita de 1983 de um Tarkovsky exilado. O personagem, num último ato de publicidade desesperada, ateia fogo a si mesmo para alertar as pessoas da perda de sentido dos seres humanos.
Melancholia é um atear fogo a si, uma peça publicitária de catarse contra o sofrimento que pretende chamar atenção as doenças da alma (hoje mente). Sofrida pelo próprio diretor, a fita aponta para aquilo que exorciza, lembrando que uma alma sem luz é um mundo despedaçado.

2 Respostas

  1. Francisco

    O que seria do mundo sem a arte? O que seria da pessoa humana sem a possiblidade de exorcizar seus fantasmas e resolver seus conflitos mais intensos? Os objetos de arte ao refletirem os sentimentos, tramas e dramas dos autores, vividos ou imaginados, sejam eles quais forem, de um passado recente ou distante, possibilitam um contemplar-se no espelho da alma, um possível entendimento das formas, embora limitadas de ver-se, despindo-se e despir o mundo[das vestimentas que lhe pomos]. A análise é maravilhosa e muita densa. Ao tempo em que assusta, de imediato, também busca contribuir nos processos quânticos de reconstituir-se permanentemente.

    outubro 30, 2011 às 8:43 pm

  2. A melancolia se aproxima silenciosamente, mas sempre através de sinais e no filme isso é mostrado e metaforizado. Não amei o filme, irmão, mas compreendo Justine e simpatizo demais com a Claire. É duro ver o fim chegar…e nossas reações são no fundo imprevisíveis…

    outubro 30, 2011 às 11:13 pm

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