“é como se conhecêssemos bem o tempo?”

Biutiful

Biutiful me faz pensar sobre muitas questões. Fui vê-lo com atraso no cinema, em vez de vê-lo no computador. Com 147 minutos de sofrimento, fico a pensar sobre o impacto da duração de um filme quando o tema recorrente é uma repetição do mesmo. Iñauritu permanece no seu universo, agora enfocando o meio “multicultural” espanhol em Barcelona. No início não sabemos de que cidade se trata. A fita inteligentemente esconde o registro, fazendo com que apenas os olhos treinados na capital catalã consigam identificá-la em detalhes: uma rua ou praça do bairro gótico aqui ou ali. Mais tarde tudo se esclarece.

Barcelona é, na fita, uma cidade-padrão da contemporaneidade, na qual as pessoas são engolidas pelos ritmos de um sistema social famigerado, do qual nosso protagonista, vivido magistralmente por Javier Bardem é encarnação do herói trágico e da mesmice humana. Sobre ele pesa a cidade (o mundo) em todos os seus sentidos: a pobreza, a falência afetiva, as relações desiguais, a família quebrada, a educação comprometida, a corrupção, etc. Mais: Bardem também vê e ouve os mortos (a mais genial sacada do filme). E recebe por isso, pois precisa sustentar seus adoráveis filhos. Os mortos o importunam para que possa mandar suas mensagens derradeiras que não os deixam partir em paz. Finalmente, Bardem está morrendo, somos avisados no início da fita, sofre de câncer de próstata em estado avançadíssimo, quando o descobre.

Biutiful poderia ser um “Ugly”, de certa forma, afinal, ironicamente é essa a mensagem grafada numa corruptela do inglês para o espanhol. O protagonista ajuda a arrumar trabalho clandestino para imigrantes ilegais chineses e senegaleses. Ele tanto se sustenta da corrupção quanto se acredita ajudando-os a sobreviver e essa contradição entre o moralmente correto humano, mas o ilegalmente incorreto dá-lhe uma dimensão trágico que o destaca do cenário contemporâneo de personagens chapados.

Acompanhamos seu sofrimento e morrer rezando para que se acabe definitivamente o horror. Acompanha-se a tragédia dos chineses e senegaleses nas quais se envolve emocionalmente, pois seu morrer é metáfora de toda degradação a seu redor, no qual lhe apavora deixar seus filhos sozinhos.

Num golpe de desespero busca uma única centelha de bondade. Encontra-a e o filme prega-nos uma peça afinal. Afinal Iñauritu se afasta do registro da demência do sofrimento que se torna comum nesse cinema dedicado ao horror humano, no qual não registro de esperança ou bondade (vide os radicais Todd Solondz ou Cláudio Assis). A tragédia vem dos opostos que convivem: de uma honradez e justeza humana em situação ambígua e injusta, na qual a esperança desfeita é marca não da podridão humana, mas da ambiguidade e dificuldade de ser gente. O personagem de Bardem tem isso. O filme nos brinda com algo mais do que seu acento no sofrimento.

No final, fiquei a pensar sobre a centelha de bondade que a película mostra: o que seria ela senão um esforço para não ceder à indiferença, por olhar o humano com um pouco de compaixão. Bondade hoje em dia tão mais parece com generosidade e como é difícil ser generoso hoje em dia…!

Biutiful concorreu ao Oscar. Isso é o menos importante. Na verdade o filme é irritante no início, pois Iñauritu insiste em cair no lugar-comum da encenação dos filmes atuais: o uso excessivo do primeiro plano, da claustrofobia urbana e emocional construída na câmera próxima do rosto dos personagens, do recorte do mundo próximo. Seria uma métafora da tentativa de comunicar uma distância humana, tal como o plano sequência foi, nos filmes dos anos 1960, uma métafora da incomunicabilidade, para alguns cineastas como Antonioni? Bem, para mim, mais parece uma regra de gravação que se institucionalizou num certo tipo de cinema, a qual, vai perdendo, cada vez mais, poder, quanto mais comum é usada desde os filmes imensos que todos assistem (o recente Thor é um exemplo) aos que tem circulação menos massiva.

Mas o cineasta é bom. Ele faz-nos esquecer o recurso num dado momento, quando a ficção encanta mais do que a forma de fazer o filme. Iñauritu abandona a fragmentação narrativa, escolhe um registro mais linear e se deixa seduzir pelo mundo que cria, pelo qual quer indagar a dificuldade do humano. O final é muito bonito, marcado pela partida e tendo a achar que a partida (e o medo dela) é uma grande questão: partir da África, da China, da Espanha, da vida, da cidade, de si próprio.

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