Entre o Rei e o Cisne
Venceu o Oscar O Discurso do Rei, mais uma das inúmeras estórias de superação que revelam muito das histórias emocionais do mundo acima do rio Colorado.
A “superação” é chamada comumente de algo supérfluo do qual todos desdenham. O “happy end” é, porém, mais do que uma opção narrativa, mais do que um clichê no cinema americano: tornou-se um cânone narrativo porque corresponde, aparentemente, a aspectos do um cânone cultural dos EUA, afinal num mundo mutante como o deles (e de certa forma também o nosso), e naquela sociedade neurótica, persecutória e amedrontada com o fracasso (uma vez que o sucesso é uma necessidade emocional e social, o fracasso é o pior pesadelo), filmes como O Discurso do Rei seguem as necessidades do mundo que o oscarizou.
Aliás, não é essa mesma façanha que está na base do Cisne Negro, de Daren Arnofsky? Neste, porém, a neurose se encarna numa pessoa recalcada, que faz do Black Swan, a válvula de escape de sua própria prisão, ao mesmo tempo em que se realiza na tentativa do próprio assassinato. Desta vez, mostrando quando uma neurose coletiva que atinge o ápice da patologia, a realidade é distorcida esquizofrênicamente?
Enquanto n’O Discurso do Rei a superação é vivida como um sonho num qual um plebeu ensina o rei a ser Rei (concretização do desejo de mostrar as inferiores, os comuns, o quanto eles tem de nobres perto dos de sangue azul), em Cisne Negro, ela aparece como pesadelo do desejo reprimido.
Venceu o Oscar a superação-sonho, mas apareceu na lista a superação-pesadelo, dois lados da mesma sensibilidade social.
Mesmo prêmio… mesma obsessão!

