Tropa de Elite 2
Hoje, depois de muitos meses, fui ao cinema novamente, desta feita para ver Tropa de Elite 2. Havia gostado do primeiro filme, apesar do fascismo e do exemplo da moralidade simplista da classe média. Isso os dois filmes tem de comum com muitas outras manifestações que tem se tornado constante no Brasil contemporâneo, e que também aparece em muitos outros tempos e lugares: o recurso à moral para (in) pensar um problema social.
O filme de Padilha é,no mínimo, um fenômeno imaginário importante. Cinematograficamente marca a competência de seu diretor e equipe. Como fita, Tropa de Elite 2 é tão bom quanto o primeiro, e, apesar de mais lento, igualmente interessante, chegando a brincar com a atenção e expectativa do espectador, por meio de um roteiro intrincado que torna seu estrondoso sucesso de bilheteria mais surpreendente.
Ou não?
Como havia dito acima, a moralidade das questões sociais é uma forma de resolver as tensões e articular uma solução aos problemas, ainda que sua única saída só possa ser a catarse. Os dilemas sobre o aborto na atual campanha presidencial demonstraram antecipadamente do que falo. Como lembrou acertadamente o editorial da Isto É do dia 17 de outubro, Dilma e Serra perderam o tom correto, pois ao invés de expor suas propostas de governo, se desviaram rumo ao debate moral que teve no aborto seu pano de fundo. A mesquinha revista Veja, cada vez mais infantil na sua política de desfalque anti-Dilma/Lula/PT assinalou um dos lados dessa mesma moralização do debate (ou não-debate, no caso da revista). Quando as coisas parecem que vão feder, identificar corruptos, imorais, vagabundos, impunes, ladrões, traficantes, terroristas, etc. é uma boa medida para conseguir determinar quem está do lado do bem e do lado do mal – essa é a fuga padão do moralista.
O discurso moralista (que é diferente de um discurso moral) é uma ferramenta eficiente porque evita complexificar o problema e estabelecer gradações nas preocupações, ao articular um problema na forma de variáveis no eixo do certo-errado. Quando isso acontece, entre mocinhos e bandidos, podemos, afinal, saber para quem torcer. Ocorre na campanha elitoral, ocorre em Tropa de Elite 2.
Mas agora, na película, “o inimigo é outro”, o sistema, como nos coloca o coronel Nascimento. Trata-se da formação circuito traficante-policial corrupto-político. O sistema do filme, ao menos aquele que é criado para nós, é de uma força assustadora, uma amplidão que alcança Brasília, como demonstra o último plano do filme. Contudo, tudo é visto pelo prisma moralista. Nascimento desmonta sem muitas explicações o tráfico, o que faz com que os policiais corruptos terminem o serviço e roubem dos traficantes sua ocupação como “defensores” dos morros cariocas. O sistema (de corrupção) atinge os círculos políticos cariocas mais elevados, atraindo, de cada campo social, os vermes que comem a maçã brasileira. O filme contrapõe dois personagens diferentes em tudo, Nascimento e Fraga, os inocenta de qualquer reponsabilidade moral efetiva, e, ao demonstrar as angústias deles frente suas funções, cria a contraposição que demarca com clareza os criminosos.
Afinal Tropa de Elite 2 é um filme de policiais contra um tipo de crimonoso mais arraigado no sistema burocrático brasileiro. A moralização da história se faz até seu final, quando o narrador Nascimento, nosso porta-voz das concepções sociais da fita, conduz-nos até a amarga conclusão que nossos representantes eleitos são o ápice dessa pirâmide de corrupção. Não por acaso, a fita não poderia ter sido lançado num momento político mais oportuno.
O que havia de admirável na primeira fita de Padilha é a possibilidade de uma catarse social das classes menos abastadas, as quais, finalmente, viram jogada na cara da classe média sua conivência com o tráfico, com a corrupção da PM e com uma solução efetiva (paliativa) na porrada dessa chaga social que é o tráfico nas favelas. A fita dois é um pouco diferente: amplia o escopo, foca no sistema e na politicagem e mostra a corrupção ampla da nação espelhada em uma de suas cidades símbolos, o Rio de Janeiro. O mal, diz-nos, está aqui e termina na outra cidade símbolo, a capital federal.
O admirável desta “O inimigo agora é outro” é conseguir concatenar a indignação da nação, seu sentimento de absurdo frente as impunidades. Mas… ao fazê-lo, também com a maestria perfeita, demonstra a própria forma pueril como insistimos, no Brasil, em ver o problema, numa escala entre corruptos x não corruptos, o jogo de branco ou preto do qual temos nojo. Neste quadro, a “culpa” é sempre do outro.
O sistema de Tropa de Elite 2 é tão somente aquele visto pelo prisma moral no qual as classes sociais se apontam como vítimas uma das outras. A denúncia da película é essa: apontar o inimigo e pesá-lo moralmente, isentando a classe média das próprias responsabilidades cotidianas. Sempre me pareceu que toda sociedade é um conjunto de sistemas interligados e as vezes conflitantes, por isso abertos, mas aparentemente a nossa possui graus de tolerabilidade com determinadas corrupções que são praticadas pelas pessoas cotidianamente de maneira que os que estão no poder não são meros corruptos que traíram o povo, mas seu próprio reflexo. Não seriam gente, feitos da mesma matéria-prima social que o resto de todos nós?
Refletir desta forma, na posição do roteiro de Padilha, é chegar na conclusão de que os brasileiros prestam tão pouco quanto seus políticos, ou aceitar, com algum incômodo, que provavelmente, o problema do tráfico envolva um sistema mais intrincado do qual o seu uso político é apenas uma de suas muitas manifestações.
Não que o filme tivesse que observar essas coisas todas. Pelo contrário, é um filme! Mas ao aventurar-se a criar um quadro, a fita também me convoca a pensar este quadro (o que demonstra seu sucesso enquanto obra) pelo qual possa ver o quanto é limitado.
O que mais me chama atençãó é que a indignação captada por Tropa de Elite 2 é inócua em trazer uma visão alternativa ao que já se discute no dia-a-dia. Após essa experiência cinematográfica excitante e divertida, temos confirmados os nosso rumores e conversas cotidianas sobre a impunidade, corrupção e horror do país do carnaval, e o que mais se confirma é a tendência de tudo resolver na contraposição que evita questionar o papel de nossa cultura, hábitos e fazeres. Não há novidade.
Nem fascista este Tropa de Elite 2 consegue ser, apenas previsível na moral de classe média ofendida. Vale muito vê-lo, mas se reconfirma tudo sobre um país que consegue visualizar, graças aos deuses e homens, suas próprias mazelas, e continua pensando nelas de maneira a esconder de si a própria responsabilidade.
Minha questão maior não é se a recusa da fita é intencional, mas se ela não demonstraria a dificuldade de nosso imaginário (e dos campos culturais brasileiros) de articularem uma visão efetiva do problema?! Não seria essa imaginação de cinema um sinal da inimaginação da mazela?
Primeiro dizer q esse sistema de postagem do WordPress é uma merda, já que tentei colocar dois comentários que foram protamente rejeitados pela página que ainda me fez o favor de perder dois belos texto que escrevi para vc.
Segundo que adorei o teu texto e fiz uma série de considerações que essa porcaria perdeu. Mas enfim, gostei.
Saudade de tu.
Bjo
outubro 29, 2010 às 6:27 pm
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