Nausicaa do Vale dos Ventos
Ontem vi Nausicaa do Vale dos Ventos (1984), o filme. Tenho lido o mangá publicado no Brasil em vários volumes pela editora e devo dizer que as alterações na estória original são inevitáveis e o resultado é muito bom.
Embora ache o longa irregular, ele é muito ágil e frenético, mas contem toda a poesia e ternura do original. O elemento de terror e sinistro que existem no mangá foram, contudo, retirados de cena, fazendo com que ficasse mais sutil a linhagem que Nausicaa faz com Viagem de Chiriro e Princesa Mononoke, também de Hayao Miyazaki. Na verdade, Nausicaa, o longa, fica mais próximo de Totoro e Castelo Animado.
Contudo a magnífica trilha sonora, e os afrescos que como pinturas rupestres contam a história do mundo e o surgimento de um salvador (que será Nausicaa) capaz de se comunicar e fazer ceder até mesmo os Ohms, é extraordinário. Ponto em especial aos Ohms, este ser gigante e lindo, massa de destruição e proteção. É lamentável apenas que a integração dos bichos com a heróina seja menos óbvia e mais sutil. Ouvir as palavras dos Ohms é uma das alegrias do mangá.
Mas os afrescos contam o filme são especiais, pois anunciam Nausicaa como uma moça alada, vestida de azul e dotada de asas brancas, que pousa num campo dourado empapada de sangue da terra. Quem ver o filme entenderá essa bela imagem.
E os Ohms, criaturas extraordinárias e mágicas, assustadores, bem como o Fukai, o mar podre, com suas plantas venenosas que contraditoriamente purificam o mundo do abuso do ser humano. A grande pergunta de Nausicaa do Vale dos Ventos aos anos 1980, época em que foi feita, continua válida: será este o nosso destino? Sermos engolidos por nosso lixo? Na mesma época, o Monstro do Pântano de Alan Moore construia histórias igualmente assustadoras sobre o destino da Terra-natureza e do uso desvairado de nossos recursos por necessidades e interesses mesquinhos. O mundo é vivo, dizem-nos os dois quadrinhos (duas das melhores coisas já feitas em HQs) e o anime. E somos parte dele, o qual infelizmente não é infinito.
Uma pena que pessoas tão boas como Nausicaa só possam existir em sonhos. Tanto amor e altruísmo por tudo, numa compreensão que só uma personagem de sonho poderia ter.