Estes dias fique triste… a morte leva mais um de meus companheiros de espírito, o cineasta Theos Angelopoulos. Ele foi como poucos dono de um certo cinema espiritual que acreditava no plano e na capacidade da imagem de dizer algo mais, de indagar o mundo visível para compreender o que vai de mais profundo no coração e na história humanas. Quão grande é esse poder da arte-filme de dizer-nos algo mais, algo de nosso e nos fazer perguntar ao filme “como ele soube disso?”
Harold Bloom, escrevendo sobre a ansiedade de estar na influência de um grande poeta, afirma que somente pelos olhos de um grande poeta podemos compreender outro poeta. Eu via os filmes de Angelopoulos como grande poemas visuais, grandes afrescos que acreditam no poder de dar-nos algo que nos falta. Via-o também segundo os olhares-poemas-filmes de outros grandes poetas, de Kurosawa, Tarkovsky a Manoel de Oliveira, todos tão velhos quanto eles. Por olhos-filmes de outros cineastas observamos o que de mais maravilhoso e especial tinha Angelopoulos na crença de que o filme nos devolve o tempo e o faz maravilhosamente quando aceita que fazer um plano é um risco, uma fagulha lançada que se queima se não queimar o espectador.
Angelopoulos era um cineasta do plano, que não o partia em mil pedaços, por saber o poder do plano-contemplação, da maturação e paciência do olhar que passeia e indaga pela imagem assim como a própria imagem-cinema passeia pelo mundo. Seus filmes, em planos e montagens, retornaram ao mundo (sempre) para dizer porque o deixaram. Retorno na forma de poesia, rendendo-se a uma certa tradição de cinema do plano, visualizando o homem é mostrando a história, preocupado em saber desta por que nos machuca e nos atinge. O cineasta grego queria saber da história porque nos colhe em avanço aéreo que nos desfaz como nuvens no vento ou como manchas de tinta (ou sangue) momentâneas na água.
Theo, se me permitem a intimidade, indagava sobre a história e seu avanço irredutível abocanhando pessoas e povos. Perder o poeta é minha dor porque aponta a nossa falta, a minha em especial, da pessoa que, pretérita, torna-se somente memória e não mais expectativa de futuro. Não fará mais nenhum filme para que possa encontrá-lo na intimidade, no qual possa mirar-me como se fosse meu. Novamente, como diz Bloom, o verdadeiro poeta é aquele que quando o lemos, vemos no que escreveu aquilo que nós teríamos sentido-escrito. O bom poema é aquele que é lido como se fosse do leitor, quando miramos nosso mundo pelos olhos de outro. Para mim, que adoro repetir que o cinema é a aventura do olhar (bem mais do que qualquer outra arte visual, exceto, talvez, a pintura), as películas de Angelopoulos sempre foram feitos para que pudessem mirar-me e em emocionar com outra forma de ver o mundo.
Por e para ele (e por mim), escolhi três cenas para mostrar. A primeira é de Paisagem na Neblina (1988), o filme pelo qual o conheci, quando ainda fazia pesquisa de iniciação científica e encontrei uma singela crítica sobre a fita na, então, não-detestável revista Veja. Esta cena, de certa forma, sintetiza uma das muitas aproximações possíveis com o cinema de Angelopoulos, a da porta da história, que em meio a um drama comum emerge na cena cotidiana, e como uma intervenção sobrenatural (que na verdade nada mais é do que a ação humana, o realizado pela mão do homem) propô-se como fantasma a ser decifrado, testemunho de pedaços da vida que não se compreendem.
As outras duas cenas são do meu filme favorito entre os que fizera, Um Olhar a cada Dia (1996), algo como “O Olhar de Odisseus” (To Vlema tou Odyssea) no título original, sobre um cineasta em busca das primeiras imagens feitas em cinema do Balcãs, no início do século XX.
A segunda cena é uma indagação visual sobre a história, quando numa das maiores sequências da história do cinema (poucas vezes pode-se dizer isso sem pretensão), a estátua de um Lênin quedado transita, em uma balsa, por um mar-canal enquanto uma multidão a acompanha nas margens. Cena grandiosa pelo símbolo que assinala o destino de um sonho-mundo contraditório que outrora (durante um século) fora de muitas pessoas. A falência do socialismo, como o próprio socialismo, fora um sonho-pesadelo de tantas gerações que o comunista Angelopoulos teve de enfrentá-la. A estátua caída é um mundo despedaçado que a história levou embora, e junto com ela, foram-se partes dos horizontes do mundo. Os muito jovens não sabem mais o que significa, mas para aqueles que lembram um pouco mais, era assustador ver-se o que ocorria no inícion da década de 1990. Levada rumo ao crepúsculo, naquele momento (1996), não se sabia mais qual seria o destino do homem.
A terceira e última cena de Um Olhar a Cada Dia é inesquecível (há outra mais poderosa depois, a do massacre na névoa), na qual, em meio a uma Sarajevo despedaçada pela guerra, a população sai na neblina ao cessar dos tiros e consegue interagir, dançar, ouvir uma orquestra, ver uma peça, rir. Numa cena contraditória com a vida (a vida pulsa no inverno profundo, quando no mundo real todos ficariam em casa), o filme-poema acentua o horror da guerra, o poder da arte em criar laços efêmeros no mais hostil dos cenários… um laço final é feito entre nós, os espectadores, e o cineasta, quando compreendemo, com ele o miserável e sublime da vida humana.
Cenas das buscas e das chagas europeias dos anos 1980, a década perdida, e dos 1990, o pós-queda soviética, e dos balcânicos, em especial.
Pouco antes de morrer, Angelopoulos, recebendo um último chamado da história, fazia um filme sobre a atual crise grega. Estupidamente fora atropelado por uma bicicleta ou moto enquanto trabalhava na fita. Penso que, um dia, talvez alguém procure essas imagens de final de vida como imagens de um primeiro olhar sobre este (o nosso) momento da história. Todo bom filme é um primeiro olhar guardado no frescor do que descobrimos dele.
Este é meu adeus ao Angelopoulos. Fico com seus filmes e sua memória sobrevivendo, o quando puder, às águas do Léthe, o terrível filho do tempo.



