Isso aqui vai ser escrito e reescrito várias vezes.
Não é novidade que as pessoas são loucas e eu mesmo devo ter escrito isso milhares de vezes aqui. Mas fiquei a pensar sobre algumas coisas nesses dias de solidão em Natal. Enquanto gasto horrores para mandar tese pro Rio para finalmente virar doutor, encontrei Orlando e Ângela numa noite de sexta, Elson na tarde e Fernando na noite de sábado. Para coroar, no domingo, almocei com Magnos e graças às novidades que contaram de suas vidas, pude neurotizar algumas coisas.
Começo a levar realmente a sério quando Cyro me reclama que não podemos deixar um ao outro, sob o risco de ficarmos sozinhos, sem namorados. Conforme os dias passam e recolho relatos da vida de conhecicos e amigos, fico impressionado de como seres humanos (homens principalmente) são animais egoístas e individualistas. E quando são gays, as coisas se maximizam tanto que atingem níveis estratosféricos.
Lembro sempre (sempre mesmo) de Ítalo Calvino dizendo que o inferno maior é aqueles que criamos juntos. E criamos o inferno inclusive na triste expectativa de não estármos juntos. Vejo as pessoas desenvolvendo aquela velha sabedoria da vida de que é preciso criar um distanciamento emocional frente à falta de disponibilidade emocional alheia. Nada poderia ser tão sábio. O grande problema é outra coisa: e quando o alheamento e o individualismo são tão altos que o que parece uma segurança emocional deixa de ser um mecanismo de momento, e passa a ser uma prática integral? Ou seja, quando ele age 100% do tempo porque 100% do tempo as pessoas não estão emocionalmente disponíveis umas para as outras?
É com certo horror que vejo as emoções desses tempos. Contra todas as fragmentações e descontinuidades que psicólogos, sociólogos, antrópologos e filósofos gostam de falar do homem atual, nenhuma é mais assustadora do que o medo da construção de elos em meio a proposta de uma vida de infindável prazer. De fato, vivemos num mundo no qual os relacionamentos encurtam vertiginosamente. Cada vez menores, morre qualquer necessidade de que alguém tenha de pensar em passar a vida ao lado de alguém. As pessoas casam e namoram sabendo que estão experimentando e que pode não dar certo. Sua expectativas quanto ao que conseguem diminuem e com isso sua disponibilidade em formar elos maduros e duradouros.
Isso não é uma doença ou mal. Isso é uma questão geral das perspectivas emocionais que podemos construir sobre o que temos em nossas vidas. Nada dura para sempre, nos dizem todos os mitos. Mas eles tb diziam que o esforço pela amadurecimento emocional não pode morrer. Relacionamentos eram para durar, noutros tempos, até a morte. A data do “para sempre também acaba” era a própria morte. Sabiamente, em nossos tempos de intempéries sociais e emocionais, nos acostumamos a compreender que nada dura para sempre num sentido menos fatalista, o que nos dá um backgrounding bom para escolher (e aproveitar) corpos e pessoas. Essa é a parte deliciosa da vida atual.
A parte ruim é que, ao menos na média dos gays, nada sequer dura! O deslocamento emocional é radical. Homens gostam de sexo. Entre homens tudos é mais fácil e rápido e sem culpa (ou sem tantas culpas), portanto a disponibilidade de corpos e prazeres é, em tese, infinita. Essa perspectiva é de fato muito boa. Isso cria uma intensidade de contato, mas diminui a do encontro, aumenta o prazer, mas arrefece o elo. E não porque essas coisas (contato-encontro, prazer-elo) sejam contrárias, mas porque a prática emocional cotidiana (é o que vejo na maioria dos homens que encontro) as tem separado. Resultado: mais individualismo, no qual ninguém quer seder para ninguém, e, portanto, ninguém constrói qualquer prazer que nasça da convivência.
Nesses tempos em que podemos ter todos os prazeres, é inaceitável que algum prazer (o da convivência) impeça outros. Por isso os relacionamentos gays que tenho encontrado nesses últimos anos parecem tão frágeis. A questão não é a traição, mas sim o fato de que não se quer abrir mão de algo. Hora, isso é um problema com solução. Não existe escolha que não seja exclusão. Uma sabedoria que certamente não é pós-moderna, mas eterna!
Paro um instante para observar os relacionamentos heterossexuais (os rótulos aqui são meramente didáticos). Existe um certo treino no qual homens e mulheres conseguem estabelecer acordos mais duradouros. Isso não nasce de alguma iluminação dos gêneros, mas porque as mulheres são treinadas a sederem aos homens, e estes treinados a se fazerem seder nas mulheres. Nessas paragens do RN tenho encontrado, todavia, assustadores exemplos de que o tempo não passou de maneira igual para ambos os sexos. Enquanto os homens caíram diretinho nas expectaticas contemporâneas para relacionamentos, as mulheres parecem ter parado no tempo. Nunca vi mulheres tão à mercê da ignorância masculina como aqui, que de tão obtusas de sua própria condição chega a dar ódio. Nunca vi homens tão aleijados de bom senso masculino quanto aqui, como se tivessem aprendido a ser homens apenas nos prazeres, mas não nas obrigações. Resultado: relacionamentos menores? Antes fosse só isso. O grande problema não é esse, mas o incrível desequílibrio entre os dois.
Claro que falo de padrões e não da experiência de todos as pessoas, sejam quem sejam.
Estou sendo conservador, eu sei, mas não existe alternativa a isso se o que prezo é algo mais do que individualidades alijadas da capacidade de construírem elos. Nada tenho contra quem assumiu a vida hedonista, embora considere isso uma ilusão. Acho que as pessoas têm que treparem loucamente e com quem quiserem, seja gente ou bicho. Devem poder se separar no dia seguinte ao casamento, devem não casar se não quiserem. Devem namorar para durar um mês, devem poder transar em dois, três ou mil. Devem não querer ter um relacionamento com ninguém nunca e serem felizes assim. Mas deve haver um espaço de manobra no meio disso tudo, uma alternativa no qual se possa construir outras opções de vida também válidas.
Não se trata de que a felicidade esteja em estar com alguém, mas que isso deve ser uma opção menos dolorosa e inimaginável.
O que vejo é uma redefinição dos padrões emocionais que não são acompanhadas por válvulas de escape. De forma com que algumas insatisfações torna-se geral, as pessoas reclamem o tempo todo dos mesmos problemas, mas as soluções não são desejadas ou sequer vislumbráveis. Ouço todos reclamando de que não conseguem algo, mas a maioria não quer deixar de ter a vida que tem.
Os tempos pós-modernos não são sinistros! As pessoas é que são loucas e não aprenderam ainda a administrar a própria esquizofrenia.