A inércia é a pior força humana! Ela nos imobiliza se estamos parados e não nos deixa parar se estamos em movimento. O inferno se precisamos de um pouco dos dois!
Aang
•fevereiro 3, 2010 • Deixe um comentárioAgora estou com expectativas: saiu um trailer de O Ultimo Dobrador de Ar, adaptação do Avatar – a lenda de Aang, o delicioso desenho. Direção: N. Shyamalan. Estréia o meio do ano.
três bons filmes do Oscar
•fevereiro 3, 2010 • Deixe um comentárioComo não poderia deixar de fazer, o anúncio do Oscar 2010 já fez as pessoas começarem a se preocupar com as premiações. O prêmio continua sendo o mais famoso do cinema, e agora tem ma novidade de dez concorrentes a melhor filme com apenas cinco concorrentes a melhor diretor. Pergunto-me como meu irmão como pode uma coisa e não a outra?!
Ainda assim devo dizer que é uma lista inusitada com no mínimo três grandes filmes (Avatar, UP, Bastardos Inglórios), sendo um deles uma obra-prima (UP). A edição conta ainda com os irmãos Coen, um bonito e interessante filme sobre a intolerância (Distrito 9) e outras cositas que já são recorrentes. Além de suas vulgaridades, tais como a eternamente indicada Meryl Streep.
Como não vi todos os indicados, comentarei o algo dos três principais, a meu ver.
Avatar é uma coisa única e estranha. Primeiro porque é o mais velho dos enredos no mais espetaculoso (e velho) dos formatos de mainstream, recalchutado no 3D. De fato o filme é exuberante e em 3D é uma emoção visual. É correto em tudo: mensagem politicamente correta, narração, emoção, música, até no tempo. É o de sempre: herói americano lidera o povo bárbaro na vitórias contras os mauzinhos. A mensagem ecológica torna o filme um marco afinal são raros (raríssimos) os filmes que tenha uma discussão ecológica e que se tornem o centro daa atenções. E apesar de nada discutir sobre ecologia, uma vez que não coloca a consciência ecológica contra a ganância e o desvio moral (o cerne do problema do “mundo real” é a estruturação social anti-ecológica) o filme de James Cameron tem o mais inusitado dos finais, quando Jake deixa de ser humano para virar na’vi. No corpo, no costume e na alma, aceito por Pandora ou Eywa, como chamam os na’vi. Um americano deixar de ser americano? O herói que todo quer ser se tornar “o” outro, ou seja, deixar nosso mundo, de ser um semelhante do próprio espectador?! Um dos mais subversivos atos do cinemão até agora quando Cameron nos mostra que parece que a rejeição ao humano é o único contato possível com a natureza.
Bastardos Inglórios: um dia escrevo como Tarantino só melhora e o quanto contra toda a crítica de infantilização (como se em algum momento ele tivesse deixado de ser “infantil”) ele só faz o melhor do melhor. Seu último filme é belo belo, bem humorado, com atuações fantásticas, direção segura e a mais bela das metáforas do cinema como uma catarse imaginária dos traumas da história. A “operação Kino” realizada contra os nazistas que mata Hitler imaginariamente, que mostra os judeus, em sua vingança, se igualando aos nazistas. Não é por acaso que o grupo de matadores se chamam de “bastardos”. E inglórios. Já ouvi até acusações de sionismo contra esta fita pueril e divertida. Uma bobagem: o filme é maravilhoso e trai muitas de nossas espectativas. Ficamos pensando se Tarantino se deixará vencer pela história, mas ele nos lembra que ele é Quentin, e vence a história da guerra do imaginário. Usando seu código de leis de vingança, coloca que é preciso marcar o assassino, o extraordináiro Landa, para que, como um Cain moderno, ele nunca deixe de ser reconhecido. Quase fascista!
UP – nas alturas:a Pixar se supera (de novo). Quando parecia que eles não conseguiriam fazer algo melhor, ele fazem. Com personagens absolutamente banais e recorrentes do cinema, ele mostra os limites da dor da perda, da infância abadonada, da ecologia ignorada e da obsessão humana. Este é o grande filme ecológico do ano, quando avalia o tipo de ação humana que continua sendo o padrão: a viagem do homem ao paraíso pode nascer da mesma obsessão que o leva a destruir tudo que encontra ou apenas faz uma pessoa carregar a própria casa buscando o lugar adequado para morrer. Inesquecível a casa voando sob balões, atravessando o mundo e o vovô carregando a casa pelo laço: uma das cenas das cenas do cinema. O que pode significar carregar a própria casa, tentar salvá-la, levá-la para morrer, e finalmente aceitar a separação dela? A América do Sul do filme não é habitada por gente, exceto pelo mal-feitor, o herói explorador, e seus cães, que são as únicas serpentes do lugar. O pássaro Kelvin é o personagem mais delicioso, metáfora de tudo que pode ser destruído ou preservado ao mesmo tempo seja na vida do vovô ou do menino, seja no paraíso. Só que esses heróis retornam ao mundo, pois é preciso renovar a realidade de onde partiram e não ficar no paraíso. Até agora os heróis da Pixar são tradicionais: eles sempre retornam. É o melhor norte-americano do ano que vi. E ganharia a minha estatueta.
10 ficções científicas boas de ver
•janeiro 29, 2010 • Deixe um comentárioPensei inutilmente: quais dez ficções científicas boas de se ver? Escolhi aleatoriamente. Listas são boas pra descansar a mente:
1) Eu sou Lenda. Excelente filme com um começo original e que termina com a velha mensagem da esperança após o apocalipse, mas ainda assim consegue ter um fim inesperado. Eu fiquei com medo dos zumbis pela primeira vez.
2) Stalker. Talvez o melhor filme do Tarkovsky para se ver. Bonito, inteligente e sensível, visualmente encantador pela passagem entre o colorido e o sépia, a viagem a Zona é uma aventura da alma.
3) Avatar. Não acho ser exagero pensar que este filme veio para ficar. Infelizmente sobre do mal das ficções-científicas, que são, entre os filmes, os que envelhecem mais rapidamente pelo avanço dos efeitos especiais. Ainda assim o final meio brega de Jake deixando o corpo humano para viver num corpo Na’vi, abandonando a civilização em prol da “selvageria” já vale o esforço.
4) Terra dos Mortos. Delicioso filme do Romero que mistura zumbis e ficção científica. Os zumbis são nojentos, não dão medo, dão asco, e por trás de tudo um ataque cruel ao modo de vida americano e da contemporaneidade como um todo. E com incrível bom humor.
5) Alien. O primeiro filme. Divino e silencioso, apresentou o mais assustador e bem montado monstro do cinema: uma criatura com uma boca dentro da outra que planta ovos ou larvas nas pessoas que morreram com o nascimento da criatura. Horrível, selvagem e quase elegante com a maior heroína do cinema, a agente Ripley, vivida por quatro vezes pos Sigourney Weaver.
6) Laranja Mecânica. É uma fábula no formato de ficção. Duas cenas impagáveis e inesquecíveis: Alex espancando um velhote ao som de “Cantando na Chuva”; Alex se jogando de um prédio ao ouvir Bethoven.
7) Matrix. Quando Neo começa a acreditar que ele é o escolhido você já está vidrado na idéia e torce pra ele destruir o inimigo. Os outros dois filmes são muito Dragon Ball, mas este primeiro é um clássico.
Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Lindo de morrer, misterioro e sonoramente bem elaborado, com direito a Truffaut como ator. O final com as naves alienígenas sobre a terra é divino. Spielberg no melhor do formato cinemão.
9) Duna. O filme mais barroco de Lynch. Também o mais nojento e bonito. Tudo no filme está no lugar certo, mesmo os efeitos especiais exagerados. A trama mística fez desta fita uma coisa tão única que não pode deixar de ser vista.
10) Akira. É uma animação, eu sei, mas vale cada segundo de um universo definido pela capacidade da mente intervir no real. Akira é um segredo, um big bang miniatura que corta o tempo e o espaço. Tetsu se tornando uma ameba é uma das maiores idéias visuais que o cinema já concebeu. E Akira consome a ameba.
choro onírico com minha mãe
•janeiro 24, 2010 • Deixe um comentárioMais um sonho: estava eu subindo uma ladeira que leva a casa de minha avó. Não lembro mais como cheguei ali (sei que sonhei o antes, mas não lembro agora que escrevo). Logo que chego sou recebido por vários homens negros e mulatos que moram perto de uma casa na esquina.
Eles me perguntam para onde vou e respondo que estou indo encontrar com minha mãe. Os homens são meio mal-encarados, mas não são ruins. Mamãe estava lá no seu apartamento no fundo de uma oficina, um cubículo pequenino e estranho.
Logo que chego lá me pergunto onde eu iria dormir, e como minha mãe terminou naquele lugar tão pequeno, frente tudo que ela teve, mas logo noto que, no pequeno cômodo, minha mãe não está. Começo a chamar por ela preocupado.
Ai, de dentro de uma parede que na verdade separava o cubículo do local onde ela dormia, mamãe responde e se levanta. O lugar era tão pequeno e apertado que não sabia sequer como ela havia entrado ali, pois só via a entrada pela parte de cima.
Aquilo me preencheu de uma tristeza tão grande, de uma pena por minha mãe estar ali e eu não poder fazer nada que eu comecei a chorar. Minha mãe começou a perguntar o que estava acontecendo, mas eu chorava tanto, mas tanto, era um pranto tão sofrido que ela começou a chorar também.
Ai, acordei!
gatinhos não-zumbis
•janeiro 19, 2010 • Deixe um comentárioEntreo no Personare depois de meses e ele me disse coisas ruins. Disse que não é hora para estudar pra concursos, pois estarei confuso até o dia 18 de fevereiro. Disse que estou tendo sonhos reveladores e que devo fazer um diário deles também.
Então, dos males o menor: vou fazer um diário dos sonhos sempre que possível
O primeiro que irei relatar é de domingo. Eu estava numa antecâmara de uma caverna e havia uma livraria dentro dela na qual eu queria comprar um presente pra Cyro. Eu discutia com minha mãe o que dar-lhe de presente.
Logo depois o sonho muda pra um quarto amplo e escuro que hoje associo, na memória com um dos esconderijos do Orochimaru. Lá começam a surgir gatos que estão doentes, uma doença parecida com a daquele filme Eu sou a Lenda ou do Resident Evil. Só que as pessoas não viraram zumbis, aliás não cheguei a ver ninguém doente, mas ficava apavorado com aquilo.
Entravam os gatos na sala e a única forma de driblá-los era colocando velas nas passagens de portas ou janelas que os gatos não conseguiam passar. Um gatinho lindo entrou e passou pelas velas porque não estava doente, e venho se esfregar em mim. Outra gato, este doente, com a doença na forma de curubas vermelhas na cabeça e no corpo, vinha na minha direção e eu acendia uma vela, mas ela apagava. Diferente dos zumbis, o gatinho não vinha me morder, mas apenas se esfregar em mim.
Eu começava a ficar louco porque eu tinha pego a doença mas não sabia como evitar aquilo.
E aí eu acordo….
(o que significa? o Personare disse pra eu anotar tudo e depois fazer uma leitura conjunta. vamos ver no que dá!)
querido Rohmer
•janeiro 15, 2010 • Deixe um comentárioAs pessoas sem movem no meio de pinturas e o drama da inglesa que vê o mundo desmoranar na revolução nos toca profundamente enquanto ela caminha em meio às pinceladas. A Inglesa e o Duque é uma das mais belas reflexões sobre a história, a memória e o sentido da revolução francesa, além de ser um filme belo com personagens magnífico conversando e se horrorizando com a marcha dos acontecimentos.
Seu diretor, Eric Rohmer faleceu no dia 11 de janeiro, levou com ele a mais serena centelha de arte cinematográfica que havia restado do cinema moderno francês. Seu cinema, cheio de deliciosas conversas banais elevadas à perfeição em alguns momentos dos seus contos das estações (entre os quais O Conto da Primavera, permanece como um dos meus filmes favoritos) agora ficará apenas nessa certeza de seu absurdo confinamento numa obra afinal acabada.
Esse é um dos cruéis poderes da morte: poder encerrar uma obra, confinar nossa expectativa com as criações de uma pessoa, uma vez que sabemos que não podemos mais esperar dela novas contribuições. Rohmer permanece vivo na memória, mas não contêm mais a possibilidade que cria a ansiedade com suas criações, como Resnais ou Godard ainda permitem.
Sinto como se tivesse perdido um querido amigo de conversas imaginárias. Sabem aquela conversa que é boa como um bom sexo? Foi-se Rohmer e me deixa saudades do que não poderei mais ver.
Nada de R.I.P. para ele. Querido Eric, descance em paz!
relendo o quarto mundo
•janeiro 14, 2010 • Deixe um comentárioO quarto mundo de Jack Kirby é uma das coisas que mais me fascinam nos quadrinhos. Metron, Darkseid, Órion, Izaya, Mantis, Senhor Milagre, Grande Barda, Vovô Bondade, Desaad, Kanto, Magtron, Forrageador, Glorioso Godfrey, Dr. Bedlam, Corredor Negro, Grande Urso, Belos Sonhos, etc. Infelizmente nunca li todas as estórias escritas por Kirby, ou sobre esses personagens, mas li muita coisa que foi feita em cima do que ele projetou. Acabei de criar um plano para lê-las, mas por agora queria apenas falar da última leitura do quarto mundo feita por Grant Morrison.
A nova mega saga da DC, Crise Final, conta com Darkseid como inimigo, o maior dos vilões do universo. Aliás, nem na DC nem na Marvel há uma coisa como ele. Um deus maligno e ditador, governante de um mundo estígio no final do universo, dono de efeito ômega, poder misterioso e destrutivo. Darkseid é o grande vilão dos Novos Deuses, escrita e desenhada pelo próprio Kirby a qual tem um lindo final na “morte” de Órion, seu filho. O vilão se tornaria um dos maiores adversários dos super-heróis, mas foi sempre um mal administrável, visto que Izaya, o Pai Celestial, a contraparte do lorde negro (como o chamou Keith Giffens) e o povo de Nova Gênese equilibravam o universo.
Ele ajudou na derrota do Anti-monitor, foi o maior desafio da Legião dos Super-Heróis no século 31, quase destruiu As Lendas, se apoderou da Supermoça, quase obteve o poder da anti-vida, foi aprisionado na Fonte, teve o coração arrancado por Órion e finalmente, caído na Terra, em Crise Final, derrota a humanidade. O maior ganho da leitura de Morrison é desfazer o fato de que Darkseid era um mal administrável. Agora ele veio apocalipticamente para dominar o mundo e o consegue de maneira estarrecedora.
Darkseid pretende espalhar a equação anti-vida pelo mundo. O mais interessante é que a anti-vida de Morrison é tão somente a negação da liberdade de escolha, a completa submissão da vontade humana na alienação absoluta da alma. Ele não dominará por medo apenas, mas pela própria ausência da capacidade de juízo. Essa é a melhor forma de tornar os seres humanos dóceis o suficientes para abrigarem a mente maligna do destruidor. Perdendo seu corpo após a queda, Darkseid finalmente assume o tamanho de sua crueldade numa estória possível. Morrison lhe confere a esperteza cósmica que lhe foi constitutiva desde sua criação por Kirby, e o faz dobrar a Terra e seus heróis pela supressão do desejo da vida. O objetivo final de Darkseid é possuir os corpos humanos, todos, fazendo-os se tornarem Darkseid, uma consciência universal. Morrison conduz bem tudo até o belo final no qual Batman desobedece seus votos de não usar armas de fogo (num dos melhores momentos das HQs DC), os Flashs conduzem a morte (o Corredor Negro) até o Lorde de Apokolipse, o Super-Homem é obrigado a enfrentar Darkseid dentro dos corpos da população da Terra, e o derruba com um grande grito (outra cena linda), até que finalmente a Mulher-Maravilha aprisiona o espírito de Darkseid.
A forma de Morrison mostrar a trama ilustra o ardil complexo que o destruidor usa, a começar por eliminar Órion com uma bala que viaja no tempo, eliminando assim qualquer profecia da derrota do destruidor. Morrison já havia lidado com os novos deuses antes e novamente fez uma de suas melhores estórias quando Flash, Aquaman e Lanterna Verde viajam para o futuro durante a saga da “Pedra da Eternidade”, e ,lá encontram uma Terra dominada pelo deus maligno. Com a ajuda da Mulher-Maravilha e do Batman, num mundo sem Superman, Morrison mostrou como é perverso o mal de Apokolipse. Ali ele já predisse tudo que haveria de usar na Crise Final: Darkseid vencendo os herói, dominando tudo, e sendo encontrado pelo Corredor Negro, após um encontro estarrecedor com Batman (o único personagem que consegue dizer a Darkseid o que pensa). Ali também o lorde negro é derrotado pela Liga, o mundo é restaurado com uma caixa materna especial e a morte colhe o deus negro. De certa forma, Morrison já havia previsto a morte dos novos deuses, uma das releituras mais belas e instigantes da obra de Kirby, mas uma das mais maniqueístas também.
Isso porque a leitura de Morrison é diferente: para ele o Quinto Mundo virá quando o quarto mundo cair na terra e os heróis da Terra derrotarem os novos deuses, fazendo-os se tornarem velhos, e assumindo o seu posto. Desde suas estórias na Liga da Justiça, Morrison já havia deixado claro que os os personagens da Liga eram o equivalente dos olímpicos, personagens que conjuntos não podem ser vencidos, logo porque contam com o maior coringa moral de todos, o Superman, superpoderoso e generoso. Crise Final chega como a conclusão da leitura definitiva do inglês sobre os novos deuses para torná-los obsoletos. Algo bonito, mas com um certo desagrado ou imcompletude.
A DC recente estragou um pouco as criações de Kirby na tentativa de recalchutá-las. A Fonte quase virou uma vilã, os deuses sendo mortos em aventuras estúpidas, John Byrne fazendo coisas não tão boas com os personagens, enfim. Sem querer ser um defensor do passado (sou um entusiasta das recentes obras de Morrison sobre os personagens), mas me ressinto de que para montá-las ele teve que eliminar os lados benignos dos deuses. Morrison não trabalhou assim com os personagens de Nova Gênese, fugiu da tensão original edipiana entre pais e filhos, tanto Darkseid e Órion, quanto Izaya e Scott Free, e apenas Metron ele manteve dentro da aura de mistério. As obtusas estórias nas quais os deuses morrem limpam o cenário para Morrison trabalhar direito, mas privam-lhe do verdadeiro sentido que havia no “quarto mundo”: aqueles eram os heróis e vilões da Terra espelhados e “tragificados”.
Metron, por exemplo, é um dos personagens mais interessantes da série de Morrison, mas pouco explorado. Senhor do conhecimento (mesmo), ele é o único personagem intocável, manipulador do espaço e do tempo, novo genesiano, mas subaproveitado pela trama. Fico insatisfeito então com o fato de que para oferecer uma bela estória sobre vilões clássicos, Morrison não pôde sustentar os próprios corpos dos vilões. Entendo que essa seja a proposta, e entendo que ele não precisasse fazer diferente, mas como seria interessante ver uma aventura dos deuses explorados em seus conceitos principais por uma mente inteligente (embora pretenciosa) como a Morrison.
Fica minha tristeza pela morte dos deuses (eles podem voltar a qualquer momento eu sei), pelo destino de Apokolipse e de Nova Gênese. Uma boa estória com um bom final, mas com um custo alto para uma mitologia riquíssima. Talvez isso demonstre que determinados mitos são do passado. Ou que o clima dos realizadores do presente não está lá muito para estórias nas quais um contraponto menos cínico possa ter importância.
Grant Morrison na crise final
•janeiro 14, 2010 • Deixe um comentárioQuase acabei de ler todas as revistas relacionadas com a última mega-saga da DC, Crise Final, escrita pelo Grant Morrison. Era uma das poucas atividades de lazer que estava fazendo, mas que me deixaram com sentimentos ambíguos em relação ao que estava lendo. Uma avaliação crítica revela que tipo de quadrinhos está sendo realizado na DC agora e quais as implicações que isso tem do ponto de vista do entretenimento contemporâneo. Ao mesmo tempo é possível ver que tipo de gibi autoral tem sido a saída. Vou enumerar apenas alguns dos pontos, visto que isso merece um dos mais vastos ensaios que poderia escrever. Primeiro, falemos de Morrison.
Grant Morrison
Quando estive em Teresina li Os Invisíveis do Morrison. De fato o homem é um escritor autoral que escreve estórias muito pessoais como só ele é capaz de fazer. Fazendo parte daquela onda britânica de escritores renovadores, influenciado por todas as modas científicas que necessariamente influenciam os escritores de quadrinhos pela história, Morrison foi influenciado por todas as teorias do caos, do universo nano, quânticas, relatividade e outras cositas mais que também atingiram em cheio alguns bons literatos “pós-modernos” como Thomas Pynchon. Não apenas ele, mas Alan Moore e Neil Gaiman também estiveram neste jogo.
A grande diferença é que os anos passaram. E enquanto Gaiman sempre deixou todos esses elementos sobre controle, explorando às vezes mais, às vezes menos esse tipo de tema nas suas obras (o capítulo final de Livros da Magia é um dos exemplos mais interessantes), e Moore nunca tornou isso o seu mote fundamental, Morrison se especilizou em montar estórias a partir destes elementos. Nada contra em si, uma vez que ele se tornou um bom usuário dessas idéias. O problema é que, com o passar dos anos, ficou claro que Grant é muito bom em escrever estórias sobre personagens que já contam com um arcabouço pessoal de outras estótias, com personagens que já tem um bloco de significados sobre eles que só faz ampliar. De Asilo Arkham aos seus trabalhos em X-Men, Liga da Justiça ou na recente Crise Final, vemos que ele pode construir estórias muito boas com o material já desenvolvido nas décadas por outras editoras. Ele é bom quando usa tecnologia. Já quando ele escreve coisas de sua própria cabeça, requentando múltiplas referências numa roupagem de imaginação “quântica” o desastre estético é quase iminente, embora seus gibis sejam intelectualmente instigantes. É o caso de Kid Eternidade ou Os Invisíveis, que foi importante em sua época por elevar a exigência do leitor de quadrinhos num nível inimaginado antes.
Neste sentido, Morrison sempre foi dos mais complexos escritores, torcendo narrativas como Alan Moore nunca fez, criando novos jogos de sentido como poucos, mas sendo, a meu ver, vencido por seu próprio estilo que se tornou mais importante do que suas estórias. Morrison se tornou o John Byrne ou Frank Miller atual, o cara que renova os velhos super-heróis e fazendo algumas das melhores sagas dos X-Men e Liga da Justiça. Ele elevou os quadrinhos de super-heróis em alguns momentos a níveis de complexidade bem interessantes. Algumas de suas estórias são magníficas e sou especial fã das sagas da Liga, tais como Pedra da Eternidade. O que mais me impressiona é que quando ele lida com personagens com altos níveis de mitologia incorporado, e se propõe a explorá-los, o resultado é… homérico: por mais complexo, é enxuto, honroso e grandioso. Ele entendeu que a Liga era composta por heróis divinos e assim o fez.
(a avaliação dos X-men rexige outro raciocínio que não me proponho a fazer aqui).
E é ai que entra sua participação nessa Crise Final na qual os heróis da terra são quase obliterados pelos deuses malignos de Apokolips. O universo da DC sempre teve três principais fontes miticas de criação, entre tantas: os guardiões do universo, o quarto mundo criado por Kirby, e os deuses gregos (as disputas entre George Pérez e John Byrne sobre a origem do universo revelam essas brigas). Focando no quarto mundo, Morrison fez da queda de Darkseid uma das mais interessantes releituras do encontro entre heróis e os deuses já vista. O preço, porém, foi, a meu ver altíssimo (falarei disso noutro pos).
Crise Final é o ápice de um arco de histórias ruins, regulares e (poucas) boas posteriores a morte dos novos deuses e a confabulação sobre a existência de uma raça de Monitores. Darkseid já havia matado todos os seres de Nova Gênese, até que atacado por Órion, acaba tendo seu coração destruído pelo filho. Isso ocorre antes da Crise Final, numa arco de gibis mal roteirizados e quase desinterrantes se não fosse pelos personagens. Crise começa com a morte de Órion após essa batalha e o surgimento do Libra, recrutador do exército de Darkseid. O que se segue é que os deuses de Apokolips perderam seu mundo e junto com seu senhor cairam na Terra, como acontece com todos os deuses moribundos. Passando a viver em corpos humanos, venceram a batalha com Nova Gênese se agora iriam vencer os heróis.
No mundo criado por Morrison a queda de Darkseid faz parte da ativação do problema dos monitores, novas versões do Monitor criado por Wolfman e Pérez para Crise nas Infinitas Terras. Claro que surge um mal entre os monitores e este é o tal Mandrakk, um monitor renegado que incorpora uma espécie de pecado original dos monitores que nasce da indiviudalização. Essa idéia é elaborada na estória Superman Beyond, arco de duas estórias escritas por Morrison, onde fica claro que o problema de Darkseid é apenas a superfície do real problema. É nela também que Morrison está na sua forma original, extremamente livre em suas idéias e estilo narrativo. Mas é apenas no capítulo final da Crise Final que essa trama emerge, pois desde o início da saga o problema apenas aparentemente era Darkseid. Só que sa saga tem tantas ramificações que fica impossível ter prazer apenas com aquela estória, pois obrigatoriamente temos de ler todas as outras.
Fosse só esse o problema, os pensamentos quânticos e nano de Morrison ocupam o centro do espaço dramático, fazendo com que o final da série seja rapidamente resolvido numa convocação absurda de super-seres do multiverso (os multiploas padrões de complexidade nos quais as estórias dos heróis podem ser pensadas). Fica um tanto forçoso ter de aceitar que uma das melhores e mais interessantes ameaças que os heróis já enfrentaram é apenas a ponta de um iceberg de um inimigo perfeitamente enfrentável (Mandrakk). O curioso é que vencer Darkseid é mais complicado, embora menos apoteótico – e no caso do argumento de Morrison – mal explicado.
A série enfim, sofre do bem/mal maior de Morrison enquanto escritor: deixar-se levar por seu estilo ambíguo, agora que ele tem a obrigação de articular um conjunto de eventos externo à trama principal para que que o leitor seja obrigado a se render as múltiplas ramificações da série e ler (entenda-se comprar mesmo) obrigatoriamente todas as outras estórias. Ressinto-me em especial, de que parte fundamental da série (Superman Beyond) esteja fora da saga principal (que contraditoriamente não é portanto a saga principal, mas torna-se ela).
Enfim o autorismo de Morrison acaba sendo maior do que suas estórias. tentando quebrar a forma convencional de fazer gibis, ele articula mal premissas maravilhosas. Uma pena
As Testemunhas
•janeiro 13, 2010 • Deixe um comentárioEste fim de semana arrastei Cyro para ver um filme de nome duvidoso, mas que tinha certeza que era bom. Se existe uma coisa da qual me gabo é de minha “intuição cinematográfica”. Em geral estou certo em 95% das vezes. O filme As Testemunhas (Les Témoins, 2007), de André Téchine, foi um belo achado nos cinemas multiplex de Natal. Uma pequena pérola perdida em meio aos Avatares e Sherlock Holmes (enfadonho filme que vi no fim de semana).
As Testemunhas conta o encontro de quatro personagens na França dos anos 1980 em meio à explosão da epidemia de AIDS na Europa. André, Manu, Sarah e Mehdi. O primeiro é um médico gay que encontra Manu num parque onde homens procuram sexo. André se apaixona por Manu e o leva para conhecer o casal Sarah e Mehdi, que acabaram de ter um filho. Sarah é escritora e está sofrendo um bloqueio criativo após o nascimento do filho, o qual não consegue cuidar. Mehdi é descendente de imigrantes, policial e um pai responsável, embora seja um homem emocionalmente distante.
Manu, recém-chegado a Paris acaba se enamorando de Mehdi, que corresponde ao sentimento. O caso dos dois segue até que André descobre que Manu está doente e os exames comprovam que se trata de AIDES (no francês). Daí os quatro personagens sofrem os dissabores de se verem prontos a enfrentarem os problemas e medos: André tem inveja e ódio de Mehdi por teer tomado Manu dele; Mehdi entra em quase desespero por poder estar doente; Sarah procura saber se não foi contaminada e quer conversar e se entender com o marido, mas este foge envergonhado e apavorado; Manu encara o imediatismo e inevitável caminho da morte.
O que poderia virar um dramalheco à francesa, preserva os personagens e procura não julgá-los, embora não tenha qualquer pena de sua situação. O filme de Téchine segue com sutilezas e carinhos para com seus personagens, uma obra pequena, mas muito bem feita, estilitiscamente comportada, e vez por outra, dá uma bela cena inesperada. Como quando Sarah beija Manu, ou quando entrega seu livro novo para André ler e logo em seguida um helocóptero alça vôo ao seu lado. A cena funciona no meio de um filme tremendamente preso a seus personagens como um pequeno ponto de respiração, pois, em meio ao alvoroço da doença, o “câncer gay” que parece uma praga divina segundo o moralismo ocidental, o filme recria a atmosfera da época e momentos de contemplação passíveis do espectador sentir-se mais confortado. E uma coisa que deixou-me muito feliz: não é um filme no qual os close-ups são o dominante (quase uma novidade no cenário atual do cinema contemporâneo).
O melhor é que o filme deixa uma sensação boa, menos pelos acontecimentos que mostra do que pela sua existência calma e serena no meio do caos. Emanuelle Béart está magnífica como Sarah, o jovem cometa Manu, que brilha e apaga é bem sustentado por Michel Blanc, e Sami Bouajila vive muito bem o distante Mehdi.
Obviamente podemos indagar sobre como um filme pode tornar “confortável” algo como a AIDS e que tipo de coragem política está implicada num filme que não desafia a conduta dos personagens, uma vez que está interessado em respeitá-los, como se o roteiro e o filme (por tabela seus autores e diretores) não tomassem posição frente os fatos e ações mostradas. Na verdade o filme até toma posição: a do “politicamente correto” no qual o medo da doença se torna sintoma também da intolerância aos “gays” e aos “desviantes”. Novamente o mito da liberdade e da tolerância.
Será isso um mito que ainda valha sua inserção em filmes? Cruelmente não. O mundo continuará por um fio, uma vez que pessoas como Bento XVI voltaram a falar, por esses dias, que o casamento entre homens (ou entre mulheres) é contra a natureza e põem em risco a sociedade humana. Novamente, como o medo da AIDS nos anos 1980, isso é um sintoma da intolerância. No mundo atual não podemos abrir mão da apologia à tolerância, mas não posso negar (também) que filmes como o de Téchni demonstram os limites de uma moralidade da liberdade e da tolerância.
Gosto de As Testemunhas e tendo a concordar com ele, mas há qualquer obtusidade ética ali que ainda não consigo localizar. Trata-se de uma questão que tem me atormentado e que um dia talvez consiga colocar em palavras. Ainda não consigo.








