pedido a Lévi-Strauss

•Novembro 7, 2009 • Deixe um comentário

Fazem alguns dias que faleceu Claude Lévi-Strauss. Costumava brincar dizendo que o século XX nunca passaria se João Paulo II,  Lévi-Strauss,  Elizabeth II  e Manoel de Oliveira não falecessem. Agora só faltam Beth II e Manoel, e ao menos este último, que continua fazendo lindos filmes, espero que demore.

Fiquei sinceramente tocado pela morte de Strauss. Ele é daqueles autores que a gente aprende a se afeiçoar, tamanho é o alcance de sua inteligência e sensibilidade. Sendo uma pessoa muito dura em suas considerações, escritor fabuloso e estilista nato, perspicaz como poucos, sumamente preparado e cada vez mais anacrônico, Lévi-Strauss acabou se tornando um autor desafio para mim, que cada vez mais ficava fascinado com a inteliência perturbadora e refinada com a qual desenvolvia seus trabalhos.

Fundou o estruturalismo, atacou a história, desafiou o etnocentrismo europe, descentrou o cientificismo europeu, procurou as bases mais profundas das formas dos seres humanos serem gente, influenciou um legião de estudiosos. Tudo, claro com suas contradições que são próprias a cada autor, como quando denuncia o etnocentrismo do cientificismo sendo se acreditando um cientista.

Lembro dos relatos de Dos na História do Estruturalismo falando que quanod Levi percebeu o impacto do Maio de 1968, comentou com Greimas, que a ciência social iria regredir drásticamente. Na verdade foi bem diferente.

O Estruturalismo passou, a busca pelas formas profundas se perdeu, a noção de ação do sujeito entrou em cena desbancando o interesse pela sincronia excessiva das estruturas. Ficou velho o debate que queria sobrepor a estrutura ao ato. Hoje o ato e sua interpretação se sobrepõe a tudo na história e na antropologia. Cada vez mais esta se aproxima daquela e vice-versa.

Qual legado de Lévi? Ainda o acho o mais genial dos franceses que pude ler no século passado. Perto dele estão tão poucos: um Ricoeur aqui, um Merleau-Ponty acolá… Mas Lévi foi um dos poucos que enfrentou um problema sério sem pestanejar e propôs alguns questionamentos e até algumas (poucas) respostas invencíveis: o mito, em sua força primal, a incrível forma pela qual os seres humanos explicavam para si porque eram diferentes de quando nasceram e não podiam voltar a ser iguais o que eram. Uma noção incrível da diferença do deslocamento que quer escrever-se no transcendente da eternidade mítica, esse precário esforço humano de se pensar nos homens.

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Ele queria saber como os mitos se pensavam nos homens. Acabou mostrando mais como os homens (o próprio Claude) pensavam os mitos. Só que quero crer que, no meio do caminho, ele conseguiu ver um pouco das formas profundas de como, se pensando nos homens, nos fazendo homens de um determinado tipo, os mitos se tornavam os mesmos sendo profundamente outros.

E ele, que detestava sociedades quentes, no seu rousseanismo quase cético, conseguia mostrar que seremos sempre e encontraremos sempre outros seres humanos, diferentes ao nos fazermos repetidamente, no esforço de ser gente.

Peço a sua memória, que me lembre, que nunca deixe esquecer disso.

o tempo e o rio

•Setembro 17, 2009 • 1 Comentário

Eu não costumo gostar das metáforas nas quais o tempo é como um rio, embora compreenda o que elas querem dizer. Elas sempre me parecem que tomam a passagem como um lugar (o rio) no qual as coisas passam, tirando um certo inefável que parece haver no ‘dono’ de todas as coisas que existem, mas que não possui reino algum.

No entanto, não posso negar a beleza dessa imagem que tenta dar conta da aporia que é o tempo, como já deixaram claro Santo Agostinho, no livro XI de suas Confissões, e que foi lindamente retomado pela reflexão sábia de Paul Ricoeur no Tempo e Narrativa. Só que a poesia tem um poder além (e aquém) da filosofia, por mais poderosa que esta seja. E na voz de Bethânia tudo fica ainda mais poderoso.

Acontece que quando se junta Edu Lobo, Capinan e Bethânia ocorre aquele inesperado. E essa novidade põe em perigo tudo que achamos certo (ou errado) sobre o tempo. Talvez porque a boa poesia, mesmo que não num poema, seja sempre aquela que põe a palavra e o mundo em perigo.

Ofereci um trecho dessa música a uma pessoa querida. Espero que tenha ajudado.

O TEMPO E O RIO

O tempo é como o rio
Onde banhei o cabelo
De minha amada
Água limpa
Que não volta
Como não volta aquela antiga madrugada

Meu amor, passaram as flores
E o brilho das estrelas passou
No fundo de teus olhos
Cheios de sombra, meu amor

Mas o tempo é como um rio
Que caminha para o mar
Passa, como passa o passarinho
Passa o vento e o desespero
Passa como passa a agonia
Passa a noite, passa o dia
Mesmo o dia derradeiro
Ah, todo o tempo há de passar
Como passa a mão e o rio
Que lavaram teu cabelo

Meu amor não tenhas medo
Me dê a mão e o coração, me dê
Quem vive, luta partindo
Para um tempo de alegria
Que a dor de nosso tempo
É o caminho
Para a manhã que em seus olhos se anuncia
Apesar de tanta sombra, apesar de tanto medo
Apesar de tanta sombra, apesar de tanto medo

o verde do lagarto

•Setembro 8, 2009 • Deixe um comentário

Hoje todos estavam com energia baixa, pensou. Parecia que alguma coisa havia passado por cima deles e arrancara um pedaço de suas coragens. No clamor da tarde, enquanto o calor a tudo queria consumir, se reuniram para comer algo, mas não havia o que discutir. Ninguém interessado em falar. Apenas ele notava o quanto havia essa ausência de interesse. Temendo o futuro, puxando assunto, via o momento seguir e o incômodo crescer. Passara a pensar como um amigo, para quem, quando as pessoas estão juntas, devem necessariamente conversar e se darem bem, se divertirem. O silêncio de qualquer membro de um grupo era necessariamente uma antipatia, uma pessoa apagada e sem graça. Mal sabia o amigo que o silêncio do outro frequentemente esconde a riqueza desapegada, enquanto o tagarelar comum era um sinal constante do vazio. Aliás, não seria porque havia uma falta que se tentava tão avidamente preenchê-la com vozes sonantes?! A dissonância também não serviria ao fim da ânsia. Ainda assim, incomodava aquele silêncio de pessoas que conseguiam conversar tanto em outras horas. Essa fraternidade estranha de homens que descobrem a si mesmos como companheiros divertidos uns dos outros, talvez porque possam ser ranzinzas (e egóistas?) com suas famílias e mulheres, nos cantos escuros de suas casas. Enfim, o instante acabou e cada qual retornou ao seu lugar. Tudo estava na ordem em suas salas pessoais. No final, em meio à dor-de-cabeça, um inesperado: um lagarto surgiu no lugar, atraiu a atenção de todos e criou um instante lúdico no qual seu verde esmeralda os hipnotizou. Todos se juntaram e comentaram o réptil, que impassível, se deixava olhar, colorindo o fim do dia. A tarde termina, o calor diminui, e enquanto cada qual estava (de novo) em suas salas, só o lagarto continuou lá, sabendo algo que ninguém entendia.

a peripécia de Antonioni

•Setembro 8, 2009 • Deixe um comentário

Poderia iniciar um delírio sobre a força e o impacto original de Blow Up e como Antonioni levou, num filme antológico, a questão da visualidade e da noção de verdade nas imagens ao nível do sublime.

Os anos passam e Blow Up melhora. Achei uma pequena imagem do protagonista investigando com uma lupa a foto na qual ele acidentalmente descobriu uma cosia intrigante que mais tarde ele descobrirá ser um cadáver. O interessante é pensar como a investigação numa foto transforma essa foto em algo diferente do que ela era originalmente e como o mundo vai sendo revisto e re-investigado conforme a foto original vai sendo deformada.

Quanto mais granulada se torna a investigação, mais assustadora é a trama envolvida e o filme inteiro se torna um enredo de uma das obsessões de Antonioni: a intriga do próprio olhar nas peripécias da imagem.

blow-up

Foto e lupa no filme, as imagens vão se reproduzindo umas nas outras conforme avança a investigação. E o mundo vai se  multiplicando em imagens.

Antonioni é a vida.

suspenso nas tuas águas

•Julho 31, 2009 • 1 Comentário

Minha querida Catarina me disse que, se um dia enocntrasse alguém como eu, poderia me perder! De fato, é seguro que tal não ocorra. Penso que mergulharíamos os dois para sempre nas amarras das nuvens e nunca mais escaparíamos.

Talvez seja mais romântico do que gostaria. Ou não!? Devo ser apenas delicado no interior protegido dessa carapaça de caranguejo.

Às vezes, sou como as pragas do Egito. Mas sinceramente?! Não dessa vez! Sou mais o Nilo espelhado mesmo.

Dou de beber enquanto o céu se mira e beijo o deserto!

Canção IX

Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático jazigo

Pensando

Que se a mim não me deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida.

E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata

Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas suas águas.

(Hilda Hilst)

nilo4

(hoje tenho alma de Ariana)

carros

•Julho 22, 2009 • 4 Comentários

Mal começo minha vida de professor, já tenho uma dívida mortal com os empréstimos sucessivos com Cyro. Como se não bastasse surgiu um dilme urgente: comprar ou não um carro logo!

Meu agente de compras (Cyro claro) me mandou o mais barato dos possíveis processos: poderia fazer um consórcio de 29.300,00, sendo 60 parcelas de 442 reais com 8.500,00 de netrada, pagando 35.000 ao todo, mas aí o carro só sairia em outubro ou novembro. Ou faço um financimento de 29.3000, com 36 parcelas de 857,00 + 8000,00 de entrada, gastando 38.850,00. Ou 36 parcelas de 1174,00, sem entrada, gastando 42.200,00. Os 8 mil seria u empréstimo, o que quer dizer que no final das contas ficaria sempre devendo uns 1000 reais ao mês do carro, visto que teria de reembolsar o dinheiro até outubro do ano que vem.

A vantagem do financiamento que me faria pagar quase o dobro do carro seria que sairia para Caicó com o mesmo. A desvantagem é que teria que pagar esses 1000 reais até outubro do ano que vem e depois estaria livre. A questão é que não quero viver para ter um carro e sim ter um carro para viver.

Dúvida cruel cruel cruel….o que fazer? Questões de quem repentinamente pode se endividar.

é finito o doc!

•Julho 12, 2009 • Deixe um comentário

Fazem três anos e quatro meses que comecei meu doutorado. Comecei com uma pesquisa boba sobre as representações do candomblé e da umbanda no cinema brasileiro. Daí transferi, graças a influência de minha querida orientadora Ana Maria Mauad, a problemática de uma coisa pela outra e mostrei como a presença das ‘religiões mediúnicas’ nos filmes brasileiros, nos anos 1970 chamadas de ‘religiões populares’, produzia um encontro incontrolável entre grupos sociais no imaginário que deu ‘origem’ a muitos dos marcadores das identidades flutuantes hoje tão presentes no chamado Brasil multicultural.

Ali começou um movimento midiático que permitiu que nosso país mestiço começasse a se pensar também como país multiétnico. Identificava no cinema uma das raízes dos debates políticos atuais sobre raça e etnia no Brasil contemporâneo. Minha pesquisa ‘inútil’ acabou ganhando uma dimensão inusitada.

E eis que minha defesa foi muito boa e leve. Uma das mais leves que já presenciei. As falas dos professores Roberto Conduru e Yvonne Maggie foram muito bonitas e tocantes. O testemunho de Yvonne clareou coisas que nem imaginava, algumas que já tinha noção, mas acima de tudo permitiu-me ver o grau de vivência de muitas pessoas que envolvuram-se na trama que eu contava. De repente surgia no meu trabalho um aspecto geracional, uma crise de geração que imaginava, mas a qual não tinha dado aquela amplitude.

Também as falas das professoras Mônica Kornis e Hebe Mattos foram muito boas. Estava apavorado com a idéia de que Hebe, historiadora social espectacular, poderia ter do trabalho, mas ela foi magnificamente entusiasmada com minha pesquisa. Mônica foi um pouco diferente, bem crítica, em alguns momentos não me reconheci no trabalho que ela havia lido. Senti uma certa crise ‘uspiana’ entre a postura dela e o que ela quase chamou de uma certa impaciência minha com o cinema novo. Mas nada demais. Tudo muito respeitoso e cordato.

Afinal, acabou o doc. Agora sou doutor… de verdade! Não muda nada. O processo que deu origem à tese é mais importante do que o titulo recebido. A vantagem do título é institucional e monetária, claro, afinal hoje doutorado é início de carreira.

E do processo pelo qual cheguei onde estou não poderia deixar de falar das pessoas queridas que me apoiaram e nunca duvidaram de mim. Acho curioso isso! Sempre coloquei a dúvida como uma condição minha, como se duvidar de si fosse necessário para ter certeza de si. Não que achasse meu trabalho ruim, apenas não sabia se era o trabalho que os outros queriam! Os trabalhos que quero mesmo são impraticáveis dentro dos limites tortos dessas instituições acadêmicas.

E paralelo a essa minha variante de dúvida metódica, vinha o delicioso apoio de todos os queridos amigos, de meus amados irmãos e pais e do amor de Cyro. Como diria, Hilda Hilst, o amor, o amor verdadeiro é centelha e âncora. Ele acende a força da alma e oferece a firmeza para que não nos percamos nas plagas do mar revolto no qual a vida nos lança. Falo isso por saber o quanto sou querido pelos queridos que me ajudaram com seu bem querer, e pelo quanto os quero bem.

Estou feliz (no momento doente, mas feliz). Nada como o abraço dos amados, que em alguma medida, são amantes, ainda que não do corpo.

E no fundo de tudo isso estão os estandartes Kitembo e Ndandalunda, sempre apontando e fortificando meus caminhos e laços, duas imagens de minha alma que é flutuante como o ar e suas estações e moldelante como a água doce que se dá de beber.

!… aparecendo… endo… ndo…!

•Junho 23, 2009 • Deixe um comentário

Hoje encontrei um belo site chamado Opus Corpus, uma sugestiva introdução estética às idéias de uma antropologia das aparências corporais. Antes de encontrar o site dormi um pouco, pois esses dias estou estafado e cansado, como se o cansaço do semestre só agora tivesse surgido.

Antes de dormir, já havia notado que os tempos estavam suspensos (o meu e o do mundo). Chove copiosamente em Natal desde ontem e apenas agora, quando escrevo, o choro do céu dá uma tregua. A trilha sonora do site toca o tempo todo enquanto tento organizar a apresentação de minha tese de doutorado. Daqui duas semanas serei doutor afinal! E esse tempo de suspensão “pré-vida outra que terei” parece se arrastar, como que não querendo se despedir de mim. Ou estará se despedindo?!

Curioso que seja um trabalho sobre aparências do corpo que me fez pensar tantas coisas lindas graças à boa idéia da organização de seu material. Apesar de que faltou ali uma reflexão sobre o tempo na aparência dos corpos, que se extende longamente em sinais de aceleração e retardamento, exatamente como este tempo que agora sinto correr feito lesma ao meu redor.

Talvez…

Despeço-me desse ‘eu’, lentamente, enquanto espero o próximo que se forma, necessariamente, das vastas terras já devassadas, devastadas e plantadas pelo que sou agora. Com ele vai-se esse tempo, inelutável desde sempre.

E penso, com a antropologia das aparências, quais terão sido, esses anos todos, as diferentes iconologias que sustentei e que os outros sustentaram sobre mim?! Quais as que sustentarão depois?

Ou, mudando o problema, mas permanecendo no mesmo universo, em que medida o reflexo de um tempo no espelho é mesmo um reflexo?

nuvens1vo2

foi-se (por enquanto)

•Junho 19, 2009 • 2 Comentários

Agora as transformações. Finalmente Naruto saiu da fase antipática e entrou no que interessa. E agora Orochimaru morreu no anime. Lembro das passagens do mangá e devo admitir que eles souberam desenvolver todas as questões que haviam lá. Mas o melhor mesmo é ver o quanto o vilão foi se tornando patético por seu medo da morte.

Orochimaru era um personagem que ia diminuindo conforme o mangá avançava. Não pelo poder, mas pelo patético de suas intenções, pelo parasitivismo de suas técnicas. Ainda assim o último capítulo do anime devolveu-lhe um pouco de dignidade ao mostrar as bases pelas quais a criança amável se tornou um adulto miserável.

O interessante de alguém assim é que a base é lindamente humana: o medo da morte. E uma serpente branca como esperança de renovação constante, de nunca morrer torna-se o mote pelo qual Orochimaru se tornou o sennin.

Uma coisa interessante de Naruto é que a série não se apega ao passado e à mitologia que cria para si própria. Orochimaru começa a série como um vilão super-poderoso, e depois vai se mostrando absurdamente patético. As mudanças trágicas parecem seguir o próprio rumo da vida, na qual, nunca acaba. Sempre continuam no dia seguinte, por pior que possa ser. Não importa quão geniais foram os sennins, virão outros depois dele, como haviam antes deles. Como na vida…

orochimaru

O tempo e a morte tratam os homens exatamente como iguais. Na morte de Orochimaru lamento por sua vida, como lamentei pela de Jiraya, ainda que por outros motivos. O patético da cobra branca é tão humano que chega a dar dó. O orgulho o engole e o torna digno dessas poucas palavras.

loucas e esquizofrênicas

•Junho 16, 2009 • 4 Comentários

Isso aqui vai ser escrito e reescrito várias vezes.

Não é novidade que as pessoas são loucas e eu mesmo devo ter escrito isso milhares de vezes aqui. Mas fiquei a pensar sobre algumas coisas nesses dias de solidão em Natal. Enquanto gasto horrores para mandar tese pro Rio para finalmente virar doutor, encontrei Orlando e Ângela numa noite de sexta, Elson na tarde e Fernando na noite de sábado. Para coroar, no domingo, almocei com Magnos e graças às novidades que contaram de suas vidas, pude neurotizar algumas coisas.

Começo a levar realmente a sério quando Cyro me reclama que não podemos deixar um ao outro, sob o risco de ficarmos sozinhos, sem namorados. Conforme os dias passam e recolho relatos da vida de conhecicos e amigos, fico impressionado de como seres humanos (homens principalmente) são animais egoístas e individualistas. E quando são gays, as coisas se maximizam tanto que atingem níveis estratosféricos.

Lembro sempre (sempre mesmo) de Ítalo Calvino dizendo que o inferno maior é aqueles que criamos juntos. E criamos o inferno inclusive na triste expectativa de não estármos juntos. Vejo as pessoas desenvolvendo aquela velha sabedoria da vida de que é preciso criar um distanciamento emocional frente à falta de disponibilidade emocional alheia. Nada poderia ser tão sábio. O grande problema é outra coisa: e quando o alheamento e o individualismo são tão altos que o que parece uma segurança emocional deixa de ser um mecanismo de momento, e passa a ser uma prática integral? Ou seja, quando ele age 100% do tempo porque 100% do tempo as pessoas não estão emocionalmente disponíveis umas para as outras?

É com certo horror que vejo as emoções desses tempos. Contra todas as fragmentações e descontinuidades que psicólogos, sociólogos, antrópologos e filósofos gostam de falar do homem atual, nenhuma é mais assustadora do que o medo da construção de elos em meio a proposta de uma vida de infindável prazer. De fato, vivemos num mundo no qual os relacionamentos encurtam vertiginosamente. Cada vez menores, morre qualquer necessidade de que alguém tenha de pensar em passar a vida ao lado de alguém. As pessoas casam e namoram sabendo que estão experimentando e que pode não dar certo. Sua expectativas quanto ao que conseguem diminuem e com isso sua disponibilidade em formar elos maduros e duradouros.

Isso não é uma doença ou mal. Isso é uma questão geral das perspectivas emocionais que podemos construir sobre o que temos em nossas vidas. Nada dura para sempre, nos dizem todos os mitos. Mas eles tb diziam que o esforço pela amadurecimento emocional não pode morrer. Relacionamentos eram para durar, noutros tempos, até a morte. A data do “para sempre também acaba” era a própria morte. Sabiamente, em nossos tempos de intempéries sociais e emocionais, nos acostumamos a compreender que nada dura para sempre num sentido menos fatalista, o que nos dá um backgrounding bom para escolher (e aproveitar) corpos e pessoas. Essa é a parte deliciosa da vida atual.

A parte ruim é que, ao menos na média dos gays, nada sequer dura! O deslocamento emocional é radical. Homens gostam de sexo. Entre homens tudos é mais fácil e rápido e sem culpa (ou sem tantas culpas), portanto a disponibilidade de corpos e prazeres é, em tese, infinita. Essa perspectiva é de fato muito boa. Isso cria uma intensidade de contato, mas diminui a do encontro, aumenta o prazer, mas arrefece o elo. E não porque essas coisas (contato-encontro, prazer-elo) sejam contrárias, mas porque a prática emocional cotidiana (é o que vejo na maioria dos homens que encontro) as tem separado. Resultado: mais individualismo, no qual ninguém quer seder para ninguém, e, portanto, ninguém constrói qualquer prazer que nasça da convivência.

Nesses tempos em que podemos ter todos os prazeres, é inaceitável que algum prazer (o da convivência) impeça outros. Por isso os relacionamentos gays que tenho encontrado nesses últimos anos parecem tão frágeis. A questão não é a traição, mas sim o fato de que não se quer abrir mão de algo. Hora, isso é um problema com solução. Não existe escolha que não seja exclusão. Uma sabedoria que certamente não é pós-moderna, mas eterna!

Paro um instante para observar os relacionamentos heterossexuais (os rótulos aqui são meramente didáticos). Existe um certo treino no qual homens e mulheres conseguem estabelecer acordos mais duradouros. Isso não nasce de alguma iluminação dos gêneros, mas porque as mulheres são treinadas a sederem aos homens, e estes treinados a se fazerem seder nas mulheres. Nessas paragens do RN tenho encontrado, todavia, assustadores exemplos de que o tempo não passou de maneira igual para ambos os sexos. Enquanto os homens caíram diretinho nas expectaticas contemporâneas para relacionamentos, as mulheres parecem ter parado no tempo. Nunca vi mulheres tão à mercê da ignorância masculina como aqui, que de tão obtusas de sua própria condição chega a dar ódio. Nunca vi homens tão aleijados de bom senso masculino quanto aqui, como se tivessem aprendido a ser homens apenas nos prazeres, mas não nas obrigações. Resultado: relacionamentos menores? Antes fosse só isso. O grande problema não é esse, mas o incrível desequílibrio entre os dois.

Claro que falo de padrões e não da experiência de todos as pessoas, sejam quem sejam.

Estou sendo conservador, eu sei, mas não existe alternativa a isso se o que prezo é algo mais do que individualidades alijadas da capacidade de construírem elos. Nada tenho contra quem assumiu a vida hedonista, embora considere isso uma ilusão. Acho que as pessoas têm que treparem loucamente e com quem quiserem, seja gente ou bicho. Devem poder se separar no dia seguinte ao casamento, devem não casar se não quiserem. Devem namorar para durar um mês, devem poder transar em dois, três ou mil. Devem não querer ter um relacionamento com ninguém nunca e serem felizes assim. Mas deve haver um espaço de manobra no meio disso tudo, uma alternativa no qual se possa construir outras opções de vida também válidas.

Não se trata de que a felicidade esteja em estar com alguém, mas que isso deve ser uma opção menos dolorosa e inimaginável.

O que vejo é uma redefinição dos padrões emocionais que não são acompanhadas por válvulas de escape. De forma com que algumas insatisfações torna-se geral, as pessoas reclamem o tempo todo dos mesmos problemas, mas as soluções não são desejadas ou sequer vislumbráveis. Ouço todos reclamando de que não conseguem algo, mas a maioria não quer deixar de ter a vida que tem.

Os tempos pós-modernos não são sinistros! As pessoas é que são loucas e não aprenderam ainda a administrar a própria esquizofrenia.